Balanço na
gangorra de acreditar que ainda podemos enfrentar os horrores do mundo através
da palavra e, em seguida, cair no desânimo de ver tantas palavras serem gritadas
sem serem ouvidas. Estamos no movimento de descida na gangorra.
Lembro
seguidamente de uma afirmação de Marx (ao menos é o que guardei como se fosse
dele) que se a observação da realidade fosse suficiente para compreendê-la, não
haveria necessidade da ciência. A ciência precisa da palavra.
No entanto, hoje,
estou tão impregnada de palavras nas teorias sobre os horrores que vejo
acontecer perto e longe de mim que preciso ausentar-me para respirar.
Preciso
distanciar-me para poder acessar o mundo da criação, da imaginação, da
liberdade de exploração de outros mundos possíveis. Outro mundo de palavras. Coisas
fantásticas foram imaginadas e registradas na literatura antes que pudessem ser
materializadas. Não foi assim ao longo da história? Não foi Leonardo da Vinci
que imaginou protótipo de avião séculos antes que o homem pudesse construí-lo?
Infelizmente ele projetou também artefatos de guerra. Não foi Júlio Verne que
viajou ao fundo do mar com a sua história, muito antes que alguém acreditasse
ser possível a construção do primeiro submarino?
A trégua é
pequena. A literatura me traz outras palavras em Admirável Mundo Novo onde
Huxley antecipou experiências para domínio de cérebro humano. E Mary Shelley
que nos presenteou com a construção da figura disforme de Frankenstein? George
Orwell com 1984, alertava para o perigo que rondava o mundo livre, inspirado
nas sociedades dominadas pelo então “comunismo”. Tantos outros. Mais recente é
o Conto de Aia de Margaret Atwood a nos mostrar um mundo terrível com suas
raízes plantadas no nosso cotidiano capitalista, quando o “comunismo” já deixou
de existir. E volto à crueldade que certos países exercem sobre outros, e não
existem palavras e argumentos que os bloqueiem. São emitidos discursos
horrorosos em sua defesa. A realidade supera qualquer narrativa literária.
A palavra cooptada
e vulgarizada de tal forma a serviço de grandes conglomerados econômicos, que temos
cada vez mais dificuldade em discernir a realidade dos fatos das narrativas
mentirosas e distorcidas. Sempre a palavra. Sem ELA como podemos buscar
caminhos para enfrentar o poder de morte que está se mostrando tão potente hoje
no mundo? É ela que continua a constituir-se em núcleos de resistência dos mais
diversos cantos do planeta.
No livro Ecologia
de Joana Bértholo, o caminho para a subjugação do ser humano será através da
mercantilização de sua fala. Numa narrativa densa sobre a construção do último
patamar de uma sociedade distópica, ela nos apresenta as diferentes etapas em
que o ser humano vai aceitando comprar a quantidade de palavras que vai usar, ao
final, a opção estará em diferentes pacotes mensais tal como uma assinatura de
celular ou de internet. Quem tem mais dinheiro pode falar mais, a
requalificação eterna das classes sociais. Para tanto foi necessário eliminar todas
as milhares linguagens do mundo, porque o ser humano tentou escapar utilizando
outras palavras não conhecidas do sistema, mas identificadas e absorvidas
paulatinamente. A diversidade foi transformada em unicidade, sem vias de escape.
Parece que o tempo
que estamos vivendo oferece considerável número de sinais a dar razão a esta
narrativa de Bértholo. Tomo apenas o exemplo das redes sociais. A redução das
palavras em siglas, a criação e simplificação de termos, a substituição cada
vez maior de palavras por emojis, o aumento da incapacidade de utilizar
argumentos na defesa de um ponto de vista, a dificuldade cada vez maior de
interpretar um texto, ou seja, uma disfunção cognitiva assustadora. Tudo
parece ser um terreno adubado e fértil para a produção da sociedade de
linguagem e pensamento único de Bértholo.
A narrativa
termina com uma das personagens escolhendo uma palavra para título de um livro
resgatado de um tempo quando ela era criança e sabia ter sido escrito por uma
tia já falecida. Todas as palavras que ela escolhia eram muito caras, a
encarregada do acervo sugeriu-lhe a palavra Ecologia por ser a mais barata, em
desuso há muito tempo. Curiosa como sempre foi, a personagem busca saber o que
representa aquele termo recolocado no Território de Significação Fertilizado.
Lá ela encontra, dentre outros significados completamente diversos do qual
conhecemos hoje, Ecologia = o Estudo dos Ecos.
Busquei ajuda para
me erguer na gangorra, não encontrei. A diversidade de linguagens ainda existe.
Muito boas as reflexões. Quanta verdade em tudo que descreves, adorei!!!
ResponderExcluirMuito bom!
ResponderExcluirMuito pertinentes tuas colocações… por vezes as gangorras nos derrubam mesmo, nenhum equilíbrio sendo possível..interessante a distopia que citas…e ela já está bem pertinho de nós, infelizmente..Mas que se busque palavras, sempre ainda acreditando que alguns querem falar e ouvir nesse louco mercado da comunicação…
ResponderExcluirO término de uma de suas frases, para mim, sumarizou o incômodo que vivenciamos neste agora de aceleração do fim da vida no único ponto do espaço (ao que se saiba) em condições de abrigá-la: "uma disfunção cognitiva assustadora". Nunca tivemos tanta informação acessível, e, ao mesmo tempo, nunca nos colocamos cognitivamente tão à mercê das narrativas, essas correntes de palavras que atribuem sentidos à sequência de fatos, atos, eventos - reais e imaginários. Cognitivamente disfuncionais, como na história do "estudo dos ecos": a alma das palavras perdendo suas origens, esquecendo-se de si mesmas, esgarçando-se, vagas e mercantilizadas. E o pior, nossa mãe! O vago de sentidos faz a comunicação parecer uníssona. Como me disse um padre em uma interpretação que me pareceu incrível da Torre da Babel, Deus detruiu a Torre não por conta da diversidade de línguas, mas por ira diante da insistência dos homens em unificar e controlar. Mas, como os povos originais estão cansados de saber, podemos viver com a Natureza e as naturezas, mas não nos cabe controle sobre elas. Nem é necessário, como todo o resto da vida dos mais que humanos neste planeta nos dá testemunho. Por enquanto, querida amiga, acho que vamos permanecer na descida da gangorra, buscando impulso para o momento da subida. Estamos juntas.
ResponderExcluirUm olhar diferente sobre o que estamos vi endo.
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