Eu os via juntos nos
últimos tempos e cheguei a me perguntar como se conheceram. O certo é que
viviam como um casal, com seus momentos de gentileza e outros em discussões
ferozes. Nunca, porém, os vi rindo. Eu continuo a passar seguidamente pelo ponto
onde ficavam, um lugar próximo de onde moro. Estranhava quando não os
encontrava um dia ou outro.
A
mulher estava ali desde sempre, não lembro daquele lugar sem a presença dela, era
parte da rua como as árvores, o muro do clube, o poste de luz da calçada. O
homem surgiu um dia e ficou com ela. Comiam
e dormiam na companhia um do outro, nem olhavam
para os transeuntes. Raramente falavam com alguém. Ou melhor, raramente alguém
falava com eles. Eu nunca tentei falar com eles, embora tenha pensado nisso
várias vezes, eu não sabia o que lhe dizer.
Tinham
horários para chegar naquele espaço que inicialmente fora somente dela. Sempre
na manhã tardia. Ficava a pergunta de onde viriam. À noite também não eram vistos
por ali.
Ela, gorda,
cabelos pretos, poucos dentes, voz esganiçada. Ele, também, cabelo escuro, mas branqueando,
barba cortada de tempos em tempos, como os cabelos. Apesar dos trapos podia-se
ver uma boa estrutura do corpo, braços bem feitos, feições regulares, até
bonitas. Ela acusava uma deterioração maior nos traços e no corpo. Poderia
também ter sido uma mulher atraente, se tivesse acesso ao uso de uma das
estéticas do bairro em vez do trato nas ruas. Ambos, com pele clara sob as
camadas de sujeira, exalavam um cheiro denso e insuportável que se derramava ao
redor deles. Talvez, por isso, raros eram os que se acercavam ou cruzavam o
próprio olhar com os pares de olhos que riscavam o espaço sem destino, quando
cessavam as conversas ou brigas. Os pedestres costumavam se afastar para a
beirada da calçada ou junto ao meio fio, quando se aproximavam de onde eles
estavam. Eu também, apesar de sentir culpa por contrariar minha empatia pelos
desafortunados das ruas e conhecer o que produz sua existência.
Por um breve tempo
não foram vistos.
Um dia, ele voltou,
mas não mais no mesmo canto com ela. Junto às grades que ladeavam o espaço ajardinado
em frente ao edifício, grande quantidade de trouxas, restos de tecidos,
plásticos e objetos que saíam de um carrinho de supermercado e se espalhavam
pela calçada. Ele no meio, desgrenhado e imundo, deitado sobre um pedaço de
colchão e coberto por trapos. Ao fundo do espaço gradeado, na fachada do prédio
os dizeres Banco 24 Horas.
Ela retornou ao
lugar de sempre no mesmo dia. Sentada, pernas encolhidas e cobertas por saia longa
e de cor próxima ao cinza, apenas um dos braços cobertos pela blusa rota. Voltou
a ficar ali, junto ao muro que lhe servia de encosto. Ela e suas trouxas
encardidas, com o olhar vazio e a boca desdentada, enquanto carros e pedestres
passavam à sua frente. Acima de sua cabeça, palavras que se sobressaíam a
desenhos indecifráveis e esmaecidos: Jesus te libertará.
Depois de algum
tempo, ambos desapareceram. Quando passo por ali sempre lembro deles e de
minhas contradições.
Observação: Esta
crônica incorporou sugestões do grupo de escrita sob a coordenação de Caroline
Joanello e Júlia Dantas nas quintas feiras pela manhã.
Ficou ótema Maria Rosa, bem mais fluida, e continua instigando a curiosidade, a vontade de saber mais. Parabéns.
ResponderExcluirOlhar e poros sensíveis os seus, neste retrato de nossas ruas (aí, como cá, é a mesma coisa), de nossas mazelas humanas, de nossa sociedade. Cenas que acordam sem dúvida as nossas mesmas contradições. Mais um bonito triste depoimento, Maria Rosa.
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