A palavra se
escondeu de mim nestes últimos longos dias. Ela voltou há pouco e está me
ajudando a elaborar o que está acontecendo e a dor imensa que causa.
Há quem se cerque
de um ou mais animais de estimação dentro do apartamento. Há quem prefira se
cercar de plantas. Estou no segundo caso.
Gosto de olhá-las
todo o dia, tirar as folhas secas, ver quando aparece alguma flor, no caso das
violetas e orquídeas, ou quando aparecem as folhas novas e o verde muda de
tonalidade à medida que cresce. E vejo elas se virarem para a luz da janela.
Nem todas eu sei o nome, nem todas querem a mesma quantidade de água, o que fiz
antigamente e perdi algumas delas. As violetas precisam de umidade, mas menos
que outra planta parecida com elas, com ramos que se esparramam e descem do
vaso. Tenho uma folhagem com desenhos lindos que parecem feitos por um artista,
disseram-me que é planta do mato, quer a terra sempre úmida, suas folhas se
juntam num feixe vertical à noite e se abrem com a luz do dia. Lindo de ver o
movimento das plantas. E as espadas de são Jorge (tenho outras parecidas, com
outro nome), também precisam de bastante água, elas seguem sempre na vertical independente
do lugar onde estejam. Precisa dar bem menos água para as orquídeas. E para os cactos
nem se fala (ainda não consegui acertar, já afoguei alguns deles). Depois de
ter dado água demais para minha zamioculca, e depois de ver mais de um broto
definhar, aprendi que ela precisa de pouca água, até menos que as orquídeas. Custei
a dosar a água necessária para cada espécie.
Nos dias que
estamos vivendo, a água está presente em cada momento, diante dos olhos, nas
preocupações, na falta, nos pesadelos. Ela nos faz repensar o passado e nos
empurra a planejar o futuro. Vivemos um presente que joga a conta dos nossos
erros. Quando muitos de nós ficaram sem água potável e, alguns como nós, só
precisaram racionar, recolhi água da chuva para as minhas plantas. A ironia de
termos água por todo o lado, chuva forte e incessante, rios transbordando e sem
ou pouca água na torneira.
Aprendi no ensaio
e erro. Deveria ter buscado informações para aguar corretamente minhas plantas.
Por descuido, por achar que sabia, por ignorar informações (algumas não lhes
dei importância), enfim, negligência com algo que sempre afirmei gostar muito. Depois
de bastante tempo, talvez meses, vejo dois brotos no vaso da zamioculca. Um
deles no mesmo lugar do outro que não deixei crescer. Fui acariciá-los de leve,
com cuidado, senti sua superfície lisa e fria de folha. Agradeci sua vinda. Lembrei
os que foram atingidos e lhes desejei também renascer mais fortes.
Estes instantes em
que escrevo, os primeiros durante os quais consigo chegar ao teclado, são um
bálsamo à dor pelos amigos atingidos e à de todos os que tiveram a perda de
alguém ou de coisas materiais. Um mundo de horror diante de olhos impotentes que
sequer podiam transformá-lo em palavras.
Estou na torcida
para que os que estão no poder tratem do sofrimento de todos com o cuidado de seres
delicados e frágeis que precisam de alguma forma renascer como brotos no
terreno social. Ressalto “no poder”, porque há milhares de voluntários que
fazem o que podem, desde os primeiros momentos, para ajudar os que precisam
independente de erros dos outros. Trabalham movidos pela sensibilidade diante
da dor do outro.
Há uma chuva de
narrativas, não só de gotas de água, sobre a ação humana desastrosa com nossas
matas e rios. E não é de agora. Não foi por falta de aviso de cientistas e
estudiosos da natureza próxima e distante. A palavra foi teimosa e circulou por inúmeros espaços e ao longo do
tempo e não lhe deram ouvidos.
Por tudo isso, agora
o perigo está na falta de seriedade e transparência de quem foi surdo aos
apelos da ciência. Como farão a aplicação dos recursos que estão chegando de
todos os lados? Não há mais lugar para a surdez e cegueira diante da realidade,
nem para ensaio e erro, nem para maracutaias.
Realmente hora de muito pensamento, conversa e planejamento… a cidade é o estado gritaram por isso.. urgência máxima! Será que serão escutadas?? É o que espero…
ResponderExcluirVi no Facebook e postei meu comentário por lá. Suas palavras valem ser lidas. Abração, amiga.
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