O Caetano chegou.
As notícias da cidade, do país e do
mundo me angustiam e tomam conta de mim e impedem a reflexão necessária para sentar
e escrever. É como se os horrores que ocorrem me sugassem e me mantivessem
ligada a eles por tentáculos. Um vício do qual não se consegue livrar-se.
Quem me ajudou na disciplina para usar
o teclado foi a lembrança do Caetano. O último dos cinco netos. Ele chegou há
poucos dias com a promessa de novos laços de afeto, aliás, já criados desde o
primeiro colo com o temor que sua fragilidade de recém-nascido inspirou. Ou
melhor, desde ter ouvido as batidas de seu coração, quando ainda uma pequena
semente no útero de sua mãe. Gravação compartilhada na tela do computador dada
a distância entre os pais (João Pessoa) e onde me encontro (Porto Alegre). Meu
coração respondeu acelerando e meus olhos úmidos brilharam. O mundo inteiro brilhou
naquele momento. E brilhou com mais intensidade no quarto do hospital onde fui
vê-lo nas suas primeiras horas de vida. E continuou brilhando em todos os
subsequentes dias em que pude estar com ele. Foram horas de ternura e encantamento,
segurando-o no colo ou vendo os cuidados que os pais tiveram desde o início,
num aprendizado que lhes exigiu muita paciência e dedicação. Assisti a cenas
amorosas que nenhuma palavra me seria suficiente para descrever. Hoje, já de
volta à minha casa, a figura do Caetano, Caê é seu apelido, me aparece a cada
vez que paro o que estou fazendo. Muitas vezes ele se intromete entre meus
pensamentos. Vejo os olhos quase sempre fechados, ainda dorme muito, quando os
abre parecem perscrutar o entorno, boca bem desenhada, bochechas rosadas, pele
lisa (aveludada dizia minha mãe), nariz bem delineado, uma fina camada de
cabelos castanhos cobre sua cabeça, mãos que se abrem e fecham conforme os
espasmos que fazem também as pernas se alongarem e se encolherem em sincronia.
O pequeno corpo está reconhecendo outro espaço e se adaptando a ele. A respiração
ritmada ergue e recolhe a barriga, os braços para cima ao lado da cabeça e as
mãos abertas mostram que ele está bem, um “sorriso” aparece naquele rosto, visto
sério na primeira foto ainda protegido no ventre materno. Quando nasceu já o
conhecíamos. A amorosidade dos pais transmutou-se das palavras com as quais
falavam sobre ele e para ele durante a gestação aos gestos de acolhimento e
cuidados com que foi recebido. Cenas belíssimas que mereciam ser eternizadas em
pinturas. E repetidas no decorrer dos dias. E quando estas imagens não surgem,
eu vou procurá-las no celular.
Estes quadros despertam sentimentos conhecidos
e guardados desde o primeiro nascimento, mas só possíveis diante de um novo. É
a vida a me presentear mais uma vez com o que há de mais precioso. Eu senti novamente
que tinha tudo, nada me faltava, e estava no lugar que queria estar. Uma
plenitude só possível diante da renovação com a vinda de mais um neto. Desta
vez o Caetano. É uma bênção poder viver esta experiência pela quinta vez.
Já vivi a maior parte de minha existência,
não sei quanto vou poder acompanhar a caminhada dos netos neste mundo com
tantos temores e desafios. Especialmente do Caetano que mora longe e é o recém
chegado.
Meu coração se apazigua pelo fato de
meus netos terem pais que os protegem e os encaminham no sentido de crescerem
fortes e íntegros, para que possam ver o outro com empatia e para estar ao lado
de quem trabalha para um mundo melhor do que é hoje. Por isso, sou imensamente
grata à vida através de meus filhos, minha filha, minhas noras e meu genro por
toda esta ampliação da família.
No plano da humanidade, só posso
invocar que as forças do bem e da paz possam se fortalecer e se espraiar por
todos os continentes. Então, minha felicidade teria outra dimensão.
Que texto mais lindo, Mirosa! Que presente para Caetano e para a gente! Muito obrigada 💜
ResponderExcluirQue lindo Mirosa🥰 Quanta delicadeza e emoção traduzidas em palavras!
ResponderExcluirLindo Mirosa, muito bom te ler!!! Parabéns!
ResponderExcluirBrilhante e que profundo seu texto. Por razões óbvias compactuo com seus sentimentos.
ResponderExcluirQue belo texto de uma recente-avó, sim recente-avó ainda que experiente pelos outros quatro netos amados e já chegados. Cada nova vida perto da gente nos inaugura de alguma forma! Desejo toda felicidade para Caê nesse complexo mundo que o recebe! Um beijo com carinho!
ResponderExcluirParabéns pelo lindo texto, Mirosa! Tens o dom de expressar com palavras os sentimentos genuínos de amor e gratidão pela renovação da vida.
ResponderExcluirA descrição minuciosa de uma avó dedicada e amorosa para com os seus!!!! Parabéns, Mirosa!!!! Parabéns Caê, Adri e Maurício!!!
ResponderExcluirRelato lindo, que emoção! Felicidades para essa vó querida!
ResponderExcluirQue lindeza de texto, Maria Rosa! A emoção ímpar de ser avó descrita com pura emoção. E a descrição física do Caetano está preciosa! Esses netinhos que chegam são nossa esperança de um mundo melhor .Nossso legado é a esperança.
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