Assisti à entrevista on-line de diversos
jornalistas sobre o atual conflito entre Israel e a Faixa de Gaza no programa
Casa Italia da RAI. Todos representantes de alguns dos maiores jornais
italianos. Todos falaram sobre a situação de Israel. Dois ou três dias haviam
se passado desde o ataque do Hamas. Não se pode dizer que suas análises não
fossem verdadeiras. A chacina do grupo terrorista Hamas, o sofrimento da
população israelense, as consequências sobre o modo de viver em Tel-Aviv e nas
colônias espalhadas pelo território de Israel, a angústia sobre a situação as
pessoas reféns do Hamas, o direito de o Estado de Israel se defender atacando a
Faixa de Gaza.
Eu fui ouvindo as manifestações de
pesar, embora mantivessem uma expressão facial próxima da neutralidade. Fui
ouvindo e esperando que completassem suas palavras com algo referente à
população palestina. Fui ouvindo aquelas vozes até o fim. A entrevista
terminou, o programa passou para novo quadro e as pessoas que vivem na Faixa de
Gaza sequer foram citadas. O povo palestino não foi citado sequer uma vez. O
assunto só transcorreu sobre a ação terrível do Hamas, sobre o Estado de Israel
e o sofrimento do povo israelense. Senti uma tristeza infinita por todos os
seres humanos que estão sofrendo com a explosão do conflito, desliguei o
televisor.
Nos noticiários do mundo todo, a voz de
Israel predominava. Hamas era sinônimo de Palestina, a palavra povo era uma
abstração. Quando invocadas, Hamas e Palestina, era para dizer que ninguém era
inocente por lá. Uma forma de justificar os ataques indiscriminados de Israel
em resposta ao ataque do Hamas.
É preciso lembrar que daquela faixa de
terra, nenhum civil pode sair de lá há décadas, Israel não permite. Segundo
palavras do governo, é uma questão de defesa.
Numa das notícias, ouvi o relato de um
jornalista que esteve em Gaza. Ele perguntava a algumas pessoas sobre os muros construídos
para separar os dois povos. Ninguém queria responder, então um senhor lhe disse
que muitos jovens se envergonhavam, porque haviam ajudado a construí-los por
falta de outro trabalho. Isto me fez pensar que muitos jovens poderiam ter sido
atraídos para as fileiras do Hamas por falta de perspectiva. Quem nasce ali,
não sai, fica ali até morrer. E a população é predominantemente jovem. Pensei
também nos jovens de nossas periferias que são atraídos pelo tráfico por não
terem outra alternativa no lugar onde nasceram e do qual não conseguem sair. Os
muros daqui são de outra natureza, mas tão danosos quanto os de lá.
Passados alguns dias mais, e com a morte
de milhares de civis palestinos, dentre os quais a maioria mulheres e crianças,
vozes pelo mundo todo têm se manifestado contra as ações do exército israelense
sobre uma população que não tem para onde fugir.
Não me cabe uma análise sobre a atual
situação e a história daquela região com a instalação do Estado de Israel. Há
inúmeras narrativas que buscam se ater aos fatos e à maior fidelidade e
honestidade para com a verdade.
Como mulher que tem filhos e netos, fico
imaginando a dor que grita por lá, ou silencia por falta de força para se
expressar. É a mesma dor de todas as mulheres do mundo, sobretudo israelense e
palestinas neste momento, sem esquecer todas as outras guerras que acontecem ao
mesmo tempo. Como ser humano, assisto impotente à morte da humanidade que
poderia estar vivendo e criando vida.
A indignação cresce a cada momento que
esta matança continua. Além dos civis, sabemos quantas vidas de jovens combatentes
(não importa qualquer lado) também estão sendo sacrificadas. E os que voltarão
à vida cotidiana depois desta guerra terminar (de um jeito ou de outro ela vai
terminar), haverá de ter seu preço no coração e mente de cada um, nenhum deles
sairá impune. Como viverão junto a suas famílias depois do que tiveram que
fazer e do que viram e foram cúmplices? A história é plena de relatos e de
silêncios (por incapacidade de falar) dos que sobreviveram e voltaram. E este
preço não será pago com o dinheiro ganho pelos donos das fábricas de armas (há
cálculos obscenos neste sentido. Sempre há.). E os que os mandaram para matar
estão no centro do poder, a reparo do conflito. Estes é que deveriam ser
punidos. Rima com banidos. Infelizmente não acontece.
Por isso, evitar conflitos inúteis onde
estivermos poderia ser uma colaboração para apaziguar nossos microcosmos. E, nos
momentos de impotência, ao menos gritar nossa indignação contra qualquer guerra.
Acredito que a indiferença deve ser banida, ela é uma ferramenta que acaba
ferindo a nós mesmos de uma forma ou de outra, quer aceitemos ou não, porque somos
capilares desde mesmo organismo vivo que é a Terra. Nenhum ser humano é uma
ilha, só não vê quem não quer.
Concordo, Maria Rosa. Em relação à essa guerra terrível e em relação à indiferença generalizada diante da destruição de vidas (humanas, animais, vegetais) e das condições de vida neste planeta. O que estamos presenciando, lá como aqui, é aterrorizante e sufocante. Somos uma espécie doente que literalmente não se importa com as consequências do que faz. Não sei qual a cura para essa indiferença, mas sei que seus desdobramentos vão atingir todos nós: "nenhum ser humano é uma ilha". E cada um de nós é, porque somos - ubuntu.
ResponderExcluirVocê está coberta de razão. O homem está buscando sua autodestruição e não toma consciência disso. Me preocupa como será o futuro dos nossos descendentes ? Confesso que procuro não pensar.nisso . A pergunta é : alguém conseguirá mudar isso ? Não acreditou
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