terça-feira, 31 de outubro de 2023

Banir a indiferença

 

Assisti à entrevista on-line de diversos jornalistas sobre o atual conflito entre Israel e a Faixa de Gaza no programa Casa Italia da RAI. Todos representantes de alguns dos maiores jornais italianos. Todos falaram sobre a situação de Israel. Dois ou três dias haviam se passado desde o ataque do Hamas. Não se pode dizer que suas análises não fossem verdadeiras. A chacina do grupo terrorista Hamas, o sofrimento da população israelense, as consequências sobre o modo de viver em Tel-Aviv e nas colônias espalhadas pelo território de Israel, a angústia sobre a situação as pessoas reféns do Hamas, o direito de o Estado de Israel se defender atacando a Faixa de Gaza.

Eu fui ouvindo as manifestações de pesar, embora mantivessem uma expressão facial próxima da neutralidade. Fui ouvindo e esperando que completassem suas palavras com algo referente à população palestina. Fui ouvindo aquelas vozes até o fim. A entrevista terminou, o programa passou para novo quadro e as pessoas que vivem na Faixa de Gaza sequer foram citadas. O povo palestino não foi citado sequer uma vez. O assunto só transcorreu sobre a ação terrível do Hamas, sobre o Estado de Israel e o sofrimento do povo israelense. Senti uma tristeza infinita por todos os seres humanos que estão sofrendo com a explosão do conflito, desliguei o televisor.

Nos noticiários do mundo todo, a voz de Israel predominava. Hamas era sinônimo de Palestina, a palavra povo era uma abstração. Quando invocadas, Hamas e Palestina, era para dizer que ninguém era inocente por lá. Uma forma de justificar os ataques indiscriminados de Israel em resposta ao ataque do Hamas.

É preciso lembrar que daquela faixa de terra, nenhum civil pode sair de lá há décadas, Israel não permite. Segundo palavras do governo, é uma questão de defesa.

Numa das notícias, ouvi o relato de um jornalista que esteve em Gaza. Ele perguntava a algumas pessoas sobre os muros construídos para separar os dois povos. Ninguém queria responder, então um senhor lhe disse que muitos jovens se envergonhavam, porque haviam ajudado a construí-los por falta de outro trabalho. Isto me fez pensar que muitos jovens poderiam ter sido atraídos para as fileiras do Hamas por falta de perspectiva. Quem nasce ali, não sai, fica ali até morrer. E a população é predominantemente jovem. Pensei também nos jovens de nossas periferias que são atraídos pelo tráfico por não terem outra alternativa no lugar onde nasceram e do qual não conseguem sair. Os muros daqui são de outra natureza, mas tão danosos quanto os de lá.

Passados alguns dias mais, e com a morte de milhares de civis palestinos, dentre os quais a maioria mulheres e crianças, vozes pelo mundo todo têm se manifestado contra as ações do exército israelense sobre uma população que não tem para onde fugir.

Não me cabe uma análise sobre a atual situação e a história daquela região com a instalação do Estado de Israel. Há inúmeras narrativas que buscam se ater aos fatos e à maior fidelidade e honestidade para com a verdade.

Como mulher que tem filhos e netos, fico imaginando a dor que grita por lá, ou silencia por falta de força para se expressar. É a mesma dor de todas as mulheres do mundo, sobretudo israelense e palestinas neste momento, sem esquecer todas as outras guerras que acontecem ao mesmo tempo. Como ser humano, assisto impotente à morte da humanidade que poderia estar vivendo e criando vida.

A indignação cresce a cada momento que esta matança continua. Além dos civis, sabemos quantas vidas de jovens combatentes (não importa qualquer lado) também estão sendo sacrificadas. E os que voltarão à vida cotidiana depois desta guerra terminar (de um jeito ou de outro ela vai terminar), haverá de ter seu preço no coração e mente de cada um, nenhum deles sairá impune. Como viverão junto a suas famílias depois do que tiveram que fazer e do que viram e foram cúmplices? A história é plena de relatos e de silêncios (por incapacidade de falar) dos que sobreviveram e voltaram. E este preço não será pago com o dinheiro ganho pelos donos das fábricas de armas (há cálculos obscenos neste sentido. Sempre há.). E os que os mandaram para matar estão no centro do poder, a reparo do conflito. Estes é que deveriam ser punidos. Rima com banidos. Infelizmente não acontece.

Por isso, evitar conflitos inúteis onde estivermos poderia ser uma colaboração para apaziguar nossos microcosmos. E, nos momentos de impotência, ao menos gritar nossa indignação contra qualquer guerra. Acredito que a indiferença deve ser banida, ela é uma ferramenta que acaba ferindo a nós mesmos de uma forma ou de outra, quer aceitemos ou não, porque somos capilares desde mesmo organismo vivo que é a Terra. Nenhum ser humano é uma ilha, só não vê quem não quer.

 

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O Caetano chegou

 

            O Caetano chegou.

As notícias da cidade, do país e do mundo me angustiam e tomam conta de mim e impedem a reflexão necessária para sentar e escrever. É como se os horrores que ocorrem me sugassem e me mantivessem ligada a eles por tentáculos. Um vício do qual não se consegue livrar-se.

Quem me ajudou na disciplina para usar o teclado foi a lembrança do Caetano. O último dos cinco netos. Ele chegou há poucos dias com a promessa de novos laços de afeto, aliás, já criados desde o primeiro colo com o temor que sua fragilidade de recém-nascido inspirou. Ou melhor, desde ter ouvido as batidas de seu coração, quando ainda uma pequena semente no útero de sua mãe. Gravação compartilhada na tela do computador dada a distância entre os pais (João Pessoa) e onde me encontro (Porto Alegre). Meu coração respondeu acelerando e meus olhos úmidos brilharam. O mundo inteiro brilhou naquele momento. E brilhou com mais intensidade no quarto do hospital onde fui vê-lo nas suas primeiras horas de vida. E continuou brilhando em todos os subsequentes dias em que pude estar com ele. Foram horas de ternura e encantamento, segurando-o no colo ou vendo os cuidados que os pais tiveram desde o início, num aprendizado que lhes exigiu muita paciência e dedicação. Assisti a cenas amorosas que nenhuma palavra me seria suficiente para descrever. Hoje, já de volta à minha casa, a figura do Caetano, Caê é seu apelido, me aparece a cada vez que paro o que estou fazendo. Muitas vezes ele se intromete entre meus pensamentos. Vejo os olhos quase sempre fechados, ainda dorme muito, quando os abre parecem perscrutar o entorno, boca bem desenhada, bochechas rosadas, pele lisa (aveludada dizia minha mãe), nariz bem delineado, uma fina camada de cabelos castanhos cobre sua cabeça, mãos que se abrem e fecham conforme os espasmos que fazem também as pernas se alongarem e se encolherem em sincronia. O pequeno corpo está reconhecendo outro espaço e se adaptando a ele. A respiração ritmada ergue e recolhe a barriga, os braços para cima ao lado da cabeça e as mãos abertas mostram que ele está bem, um “sorriso” aparece naquele rosto, visto sério na primeira foto ainda protegido no ventre materno. Quando nasceu já o conhecíamos. A amorosidade dos pais transmutou-se das palavras com as quais falavam sobre ele e para ele durante a gestação aos gestos de acolhimento e cuidados com que foi recebido. Cenas belíssimas que mereciam ser eternizadas em pinturas. E repetidas no decorrer dos dias. E quando estas imagens não surgem, eu vou procurá-las no celular.

Estes quadros despertam sentimentos conhecidos e guardados desde o primeiro nascimento, mas só possíveis diante de um novo. É a vida a me presentear mais uma vez com o que há de mais precioso. Eu senti novamente que tinha tudo, nada me faltava, e estava no lugar que queria estar. Uma plenitude só possível diante da renovação com a vinda de mais um neto. Desta vez o Caetano. É uma bênção poder viver esta experiência pela quinta vez.

Já vivi a maior parte de minha existência, não sei quanto vou poder acompanhar a caminhada dos netos neste mundo com tantos temores e desafios. Especialmente do Caetano que mora longe e é o recém chegado.

Meu coração se apazigua pelo fato de meus netos terem pais que os protegem e os encaminham no sentido de crescerem fortes e íntegros, para que possam ver o outro com empatia e para estar ao lado de quem trabalha para um mundo melhor do que é hoje. Por isso, sou imensamente grata à vida através de meus filhos, minha filha, minhas noras e meu genro por toda esta ampliação da família.

No plano da humanidade, só posso invocar que as forças do bem e da paz possam se fortalecer e se espraiar por todos os continentes. Então, minha felicidade teria outra dimensão.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Igualdade para quê?

 

Há uma imagem que não me sai da cabeça. Um policial dá um tabefe na cara de um morador de rua, e a colega mulher observa e ri. O homem mal conseguia se manter de pé, possivelmente alcoolizado, e não ofereceu qualquer resistência à ação de retirada dos policiais, mesmo assim foi agredido. A policial olha para ele no chão, sendo arrastado pelos braços como um saco qualquer, e ri.

Ficaria chocada se esse riso estivesse na cara de um colega dela, um policial homem, mas me agrediu muito mais por ser uma policial mulher. Cena repugnante. Face do poder sádico. Relembro os movimentos em defesa da igualdade de gênero. Será isso a igualdade que se quer? Igualdade exercer poder sobre o outro de forma cruel? Igualdade para mim é de direitos, de possibilidades de criação, de trabalho, de estabelecer relações de afetos.

Valho-me da sabedoria oriental para refletir sobre os sentimentos e os pensamentos que constituem nossa humanidade. Em cada ser humano temos energias que não dizem respeito a sexo, mas ao modo de se comportar. Nosso “yin” – mais emocional, criativo, calmo e reflexivo – diz respeito ao feminino, e “yang” – robusto, forte, expansivo e executivo – diz respeito ao masculino. O desequilíbrio de nosso “yin” e “yang” nos faz perder a noção de viver em harmonia e respeito e nos torna seres com os mais diversos desvios de conduta, agressões e mal feitos.

O comportamento dos policiais mostra um total desequilíbrio de energias. A energia proveniente da força é absoluta, ignorando qualquer resquício de reflexão. Poderia ser diferente numa sociedade que trata predominantemente das consequências da violência que existe? Onde as causas são desprezadas e, portanto, põe-se em movimento uma ininterrupta geração de mais violência?

É nesta engrenagem que a mulher busca igualdade de gênero? Ao invés de por em movimento suas energias de reflexão, criatividade e emoção, rende-se às energias de força e execução. Ao tentar igualar-se ao homem, ela acaba perdendo-se como ele, num redemoinho de desequilíbrio destruidor.

A igualdade de gênero está longe de ser alcançada. O número de feminicídios é permanente no país e no mundo.  Há apenas formas diferentes do que foi ao longo de séculos. É certo que tivemos avanços, a sociedade já não queima mulheres em praça pública (embora a lapidação ainda exista e explicada em numa mesquita em Londres há poucos dias), mas são agredidas, subjugadas, mortas dentro de casa por companheiros violentos. Como alguém disse, não é questão de existirem alguns homens doentes, é a continuidade da ideia de que o homem tem a posse da mulher e, portanto, pode matá-la. É a prevalência da força que está nas diferentes narrativas aceitas como “naturais” e defendidas como inócuas. Brincadeiras, anedotas, mercantilização do corpo feminino, ditos populares que acabam construindo o senso comum de que a mulher é culpada pelos ataques sofridos.

Volto ao olhar da policial militar. É o olhar do escárnio sobre o outro. Desta vez no olhar de uma mulher. Recupero a afirmação de Silvia Federici em Calibã e a Bruxa “...a guerra e o saque em escala global e a degradação das mulheres são condições necessárias para a existência do capitalismo em qualquer época.”  Já não basta a degradação pelo consumismo sem limites, disseminado em todas as camadas sociais, é preciso degradar seu pensamento.

No olhar da policial está uma variante de dominação, a da degradação das mulheres através da cooptação de seu coração e mente. A energia emocional, reflexiva e criativa sendo preterida para dar lugar à força que aparentemente oferece uma imagem de igualdade. Mas é preciso mascarar o real interesse do sistema capitalista. Ele o faz com sua capacidade de sempre se reinventar, oferecendo uma pseudo igualdade de gênero.

 

 

segunda-feira, 19 de junho de 2023

A fábula dos pincéis coloridos

 


Há algum tempo, como seguidamente costuma me acontecer, acordei com uma necessidade de enxergar o mundo como deveria ser. Esquecer como ele é, uma trégua para acumular energias. Um mundo em que todas as pessoas pudessem viver dignamente com o fruto de seu trabalho, e em que a empatia predominasse. Cansada de saber que o modo de viver atual, nas diversas formas e no mundo todo, favorece a produção de subjetividades individualistas, egoístas, alienadas e, muitas vezes, perversas. Uma máquina produtiva e incansável que se auto-alimenta.  

            Era mais um dia quente além do suportável, precisei voltar à farmácia, porque me venderam o remédio errado no dia anterior. Fui na primeira parte da manhã, perto de casa, mas mesmo assim, voltei tão suada que precisei trocar toda a roupa. Banho tomado, vestido limpo e leve, tomo uma água gelada, ligo o ventilador – ainda não precisa ligar o ar condicionado – e vou descansar numa poltrona com o livro que ainda não terminei. Agradeço por essas comodidades.

            Livro aberto, não leio. Sinto conforto e gratidão, como constantemente faço, quando paro e penso em meu lugar no mundo. Meus filhos e suas famílias estão bem, enfrentando seus desafios e seguindo a vida. Eu estou saudável. Vacinada com a quarta dose contra a covid e também contra a gripe. Tenho acesso a médicos e exames, sou bem atendida. Vivo num apartamento confortável. Posso tomar um banho quando quiser, a água não falta. Posso escapar do calor ligando aparelhos. Posso alimentar-me com produtos orgânicos. Tenho amigos que os produzem e uma feirinha próxima. Tenho amigas e amigos queridos. Adoro ler e o faço como quero, recuperando o tempo em que não o podia fazer, por excesso de trabalho durante grande parte de minha vida.

Perco-me nas ideias que antecipam os acontecimentos, as invenções, as transformações. Então, volto a pensar no que eu gostaria de ver, o mundo ser tocado por pincéis mágicos surgidos do desejo de todos aqueles que compartilham a mesma visão de mundo. A ideia dos pinceis surge da caixa de minha neta que ela guarda na prateleira da sala.

Os pincéis começam seu trabalho pela recuperação das florestas, despoluição dos rios, dos lagos e dos mares, e todos estarão a postos para mantê-los protegidos. Assim, a temperatura para de aumentar, e as geleiras retornam à sua magnitude, e os extremos climáticos deixam de ser usuais. E a Terra é, enfim, tutelada como merece.

Depois, os pincéis seguirão produzindo casas coloridas e ajardinadas para todos numa harmoniosa configuração de verde e de construções; escola e praças para esportes; nunca mais vai faltar água, nem luz; as cidades terão ônibus confortáveis, e reduzido fluxo de carros particulares; os moradores de rua não existirão; todas as crianças estarão na escola e os pais trabalharão tranquilos; as poucas cadeias terão uma estrutura nas quais os detentos podem recuperar-se; os policiais terão formação para atuar com justiça; os hospitais atenderão a todos igualmente; estarão disseminadas escolas de artes com vagas para quantos queiram desenvolver sua capacidade de criação; casas de espetáculos e cinemas estarão à mão de todos; as fábricas de armas serão desmontadas e substituídas por outras onde será produzido tudo o que pode dar conforto à população; as universidades estarão a serviço das ciências para que a sociedade viva cada vez melhor e em paz.

Alguém pode dizer que minha fantasia é ingênua, que isto é bobagem, que os homens sempre foram diferentes e problemáticos, e nunca vai mudar.

Realmente a história da humanidade é uma história de guerras.

No entanto, se olharmos núcleos esquecidos ou ocultados, encontraremos experiências de vida solidária em todos os cantos de nosso planeta e em todos os tempos. Se nos determos apenas em um dos exemplos da história do nosso país, ainda temos os indígenas nas nossas matas que vivem da terra e se curam através dela sem a agredir. Sobreviventes de uma ferocidade contra eles que não terminou, mas está sendo enfrentada graças ao novo governo. Eles são um exemplo de vida em harmonia com a natureza. Tratar da questão indígena é tratar da questão fundamental de sobrevivência da humanidade. Não se trata de voltar para trás, trata-se de não nos autodestruirmos em nome do progresso. O progresso deveria servir a humanidade, não devorá-la. O progresso deveria estar a serviço de pincéis mágicos.

Voltando aos pincéis, penso que eles terão que carregar nas cores e, ainda, solicitar ajuda extra ao pintar os centros de poder para que eles se esvaziem da força de controle e exploração, para que eles acreditem em outros caminhos possíveis. Serão necessários pontos vibrantes de energia luminosa para lhe absorver a negatividade e transmutar o individualismo. E uma vigilância permanente por todas as cores existentes.

Então a viagem mágica de minha imaginação terá oferecido as condições para que todos possam ser gratos à vida na sua própria maneira, porque a realidade não será madrasta, mas mãe generosa. Os pincéis, então poderão descansar, porque o colorido virá de dentro de cada ser humano.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Olhar através de uma lente de aumento

 

Estou em casa há alguns dias depois de uma viagem inesquecível no tempo da cultura grega. Todos os que frequentaram a escola, leram sobre história, foram ao teatro, prestaram atenção ao que acontece ao redor, sabem alguma coisa da história da Grécia. No entanto, andar por aquelas terras foi penetrar noutro portal de conhecimento, foi sentir, mais que conhecer os lugares sobre os quais lemos ou ouvimos. Meus pensamentos se envolveram em experiências sensoriais insubstituíveis. Vi-me frente a testemunhos de ensinamentos que servem até hoje, de obras de engenharia a serviço da arte – e que funcionam ainda –, dos alicerces de uma organização social utilizada por aqueles que a invadiram e a dominaram. Ela também tinha suas contradições como não poderia deixar de ser. De transformação em transformação, a Grécia enfrenta problemas comuns a tantos outros países, tendo sofrido um governo ditatorial num passado não tão remoto. Hoje, leio sobre a reeleição de um governo de direita, apesar das críticas graves e recentes sobre a sua administração.

Ouço as notícias sobre o nosso país e elas me perturbam, me deixam triste, desanimada.

Ouço as notícias sobre o  mundo e aumenta minha perturbação.

Vivemos um período de crescimento mundial de forças reacionárias, de direita xenófoba, de fakenews, de pós-verdade, de crescimento das seitas religiosas, que de religião não têm nada, vendo pobres defendendo ideias e políticos que os amordaçam e os constrangem a nunca sair do seu lugar (tudo sem se darem conta, como estivessem dopados), de ver cair os parâmetros de conhecimento – que balizaram nosso caminho ao longo da vida – sem que outros nos sustentem.

Somos testemunhas de um tempo tenebroso que parece durar uma eternidade diante do percurso individual. No entanto, significa uma fração mínima para a história da humanidade e poderá ser registrada com uma frase, uma citação a ler lida no futuro, se houver futuro para os humanos. E, ainda, uma fração infinitamente microscópica para a história do planeta.

A possibilidade de futuro para os humanos está enraizada na capacidade de enfrentamento dos extremismos. Felizmente, ou justamente porque a vida se alimenta de forças diversas, temos chances de sobreviver. Existem mentes brilhantes e aguerridas se erguem no tecido contaminado e destruidor da superfície terrestre. Elas lutam desde sempre e animam até quem como eu se sente descrente e com a esperança ajoelhada.

O encontro com a história da Grécia foi olhar através de uma lente de aumento o tempo presente à luz dos mais de 3.000 anos de história e voltar às perguntas iniciais sobre os problemas atuais e sobre o sentido da vida com os sentimentos mais diversos e intensos. Foi voltar a olhar o que acontece no país e no mundo a partir do que foi e do que nos ofereceu aquele pequeno país circundado pelos mares Egeu e Jônico. Seu enorme legado na filosofia, nas ciências e nas artes não impediu o contínuo deflagar de guerras entre os povos do ocidente e do oriente. Neste momento, enquanto alguns de nós mergulham nas maravilhas que o país nos ofereceu: ucranianos e russos matam-se a pouco mais de 2.000Km; o povo enfrenta questões étnicas e protesta nas ruas de Kosovo a cerca de 800Km; milhares de imigrantes fogem da guerra e da fome da Ásia e da África e morrem afogados no mar Mediterrâneo em busca de um lugar para viver em alguma parte da Europa. São apenas alguns exemplos próximos.

De qualquer forma, voltar ao passado serve para repensarmos e defendermos a possibilidade de um futuro. E porque isto tem sido feito por parte da população e das instituições que formam as sociedades mais diversas, não estamos em situação pior. E porque isto não tem sido feito na intensidade e profundidade necessária, estamos em risco de uma guerra nuclear, invocada não tão distante de Atenas. A falta deste retorno, e mesmo a negação do passado pela insensatez e arrogância humana, é que nos coloca no perigoso limite de nos destruirmos.

sábado, 29 de abril de 2023

O lugar das mulheres



Ela agita um véu incendiado, os braços erguidos ao céu dançam no ar como convite à rebeldia. É a imagem congelada de uma jovem de cerca vinte anos apenas, morta pela política moral de seu país pouco tempo depois.

Uma mulher negra empurra um carrinho no supermercado, apenas de calcinha e sutiã. Ela resolveu tirar a roupa em ato de repúdio e protesto por ser seguida e observada por um segurança durante todo o tempo de suas compras.

Entre estas duas pontas, a primeira no Irã (jovens que exigem liberdade continuam a ser mortas ou encarceradas e torturadas) e a segunda no Brasil (uma mulher é morta a cada seis horas – mulheres negras são mais agredidas) são denunciados diferentes graus de violência contra a mulher. Atrás de incontáveis e permanentes agressões, em lugares tão distantes, há uma história com origem comum.

O desfio é desnudar o gerador de violência invisível a olhos desatentos, e que funciona sem interrupção em todas as sociedades do mundo globalizado, mostrando-se em gestos e comportamentos no cotidiano das pessoas comuns, principalmente contra a mulher. Um sistema que potencializa a morte e se alimenta do medo e da negação.

O dramático é que as raízes da violência, em especial contra as mulheres,  continuam fortes apesar do avanço na conquista de seus direitos. Em algumas sociedades, parece que não saímos dos tempos da caça às bruxas e da fogueira. A imposição do ocultamento do corpo da mulher e seu banimento de qualquer direito mostra o ápice desta perseguição. Atos individuais alienados, dissociados do conhecimento sobre a formação das diferentes sociedades, levam ao comportamento coletivo continuamente obsessivo contra as mulheres, em diferentes graus e de diferentes formas, atualizando-as permanentemente.

Silvia Federici, em seu livro Calibã e a Bruxa, nos mostra que “as mulheres sempre foram tratadas como seres socialmente inferiores, exploradas de modo similar às formas de escravidão”. Em cada período histórico existem características próprias, mas é na transição pra o capitalismo que devemos compreender as origens da situação atual para ultrapassar a dicotomia gênero e classe. Através de dados históricos, a autora comprova que a opressão da mulher não é uma questão puramente cultural, mas está enraizada nas relações de classe.

Para Federici, pensar a violência que ocorre hoje contra as mulheres deve ser feita sob o entendimento da exploração dos trabalhadores (categoria à qual elas fazem parte) sob o capitalismo. Aqui está situado o gerador comum de violência com vestimentas diversas em cada cultura. Um sistema que se baseia no individualismo e na meritocracia, culpando o próprio explorado por suas derrotas: todos os que ficam às margens (descendentes de escravos africanos, imigrantes deslocados pela globalização, sujeitos das colônias europeias e, com lugar de destaque, mulheres). Nesta engrenagem é preciso ocultar o fundamento do sistema, a necessidade de uma massa de trabalhadores à disposição para serem explorados – com lugar de destaque para a mulher como reprodutora de força de trabalho e sempre à disposição segundo as regras do mercado – hoje globalizado – estabelecidas por ele. A história comprovou que a essência do capitalismo é oferecer ilusões de liberdade e prosperidade para todos, mas só alcançadas por poucos. Ilusões mascaradas de verdades para que possam ser engolidas e aceitas. Federici nos demonstra que é “impossível associar o capitalismo com qualquer forma de libertação ou atribuir a longevidade do sistema à sua capacidade de satisfazer necessidades humanas.” As crises cíclicas mostram que essa satisfação nunca vai ocorrer. O capitalismo se reinventa a cada crise, mantendo os mesmos males, dentre os quais dificultando a participação da mulher em todas as instâncias da sociedade em igualdade de condições com o homem.

Este cenário só pode realizar-se com a força e a violência, porque a resistência das trabalhadoras e dos trabalhadores sempre existiu, e a situação só não é pior por causa desta resistência. A história das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores é longa. Ela sofreu muitos apagamentos, especialmente a voz das mulheres. É preciso conhecê-la. Por isso, recuperar esta história, compreender os tortuosos caminhos para chegar onde chegamos na atualidade e, fundamentalmente, o lugar das mulheres neste caminho, é primordial para avançar rumo a uma sociedade equânime em qualquer cultura.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Mudam apenas os caminhantes

 

 

Terminei  a releitura de As Memórias de Adriano onde acompanhei as viagens do imperador pelo vasto território romano do final do séc. I à primeira metade do séc. II. Nestas viagens, Marguerite Yourcenar fala pela voz dele. As reflexões abrangem os acontecimentos daquele tempo, as guerras, as disputas pelo poder; os entrelaçamentos da cultura romana com a grega que a antecedeu, mas continuava viva; as formas de convivência com os povos conquistados da Europa, da Ásia e do norte da África. Foi um repassar os pensamentos daquela época, suas visões de mundo, suas glórias, suas incertezas, seus sentimentos, seus desejos, seus valores. Dois mil anos depois, as querelas particulares e públicas não diferem do que vemos hoje. Elas apenas se manifestavam com as roupagens de seu estágio histórico. Muito do que acontece hoje mostra que a humanidade se desenvolveu cientificamente, mas não colheu seus frutos para viver em paz, continua a alimentar as disputas entre povos. Grupos no poder continuam a usar os mesmos motivos para guerrear com armas cada vez mais modernas e sofisticadas. Continuam a matar. E o poder continua predominantemente com os homens.

Ontem, vi a notícia que a Primeira Ministra da Escócia renunciou ao cargo por não aguentar as pressões políticas. O mesmo motivo que pouco tempo atrás a Primeira Ministra da Nova Zelândia utilizou para também renunciar. Ambas com ampla aprovação de seu eleitorado. Será um sinal de incompatibilidade entre o feminino, com tudo o que ele representa, e a máquina de poder? Há uma vasta literatura a respeito.

Temos um mundo que pode propiciar modos de vida com confortos fantásticos, doenças podem ser prevenidas e curadas, avançamos enormemente no conhecimento de nós mesmos e do universo, conseguimos produzir alimentos em larga escala. Mas tudo isso não é para todos. E, ainda, criamos novas doenças; os abusos de uns sobre outros, especialmente sobre os mais frágeis, estão disseminados nas famílias e nos lugares mais marginalizados; ainda existe o trabalho escravo; milhões de pessoas passam fome e sede, sequer sabem ler e escrever, vivem à margem de todo progresso da humanidade. Uma equação ainda não resolvida. Sabemos disso desde sempre.

Mesmo assim, há poucos dias um líder europeu afirmou que é preciso aumentar a produção de armas para ajudar a Ucrânia. Enquanto isso o país continua a ser bombardeado em todo o seu território. E não se vê frutificar a diplomacia. A disposição de vencer essa guerra é reafirmada todo o dia por Ucrânia e Rússia. Os milhares de mortos civis e de jovens soldados, não têm rosto. E nem falamos nas outras guerras que existem pelo mundo.

Há que escolher outra equação.

No Brasil, está sendo colocando a nu o que já sabíamos que o governo anterior estava fazendo. O horror no interior da Amazônia está sendo tratado com urgência. Muitas outras frentes estão sendo abraçadas. Um trabalho que exige muitos esforços e muito tempo. E há muita gente ligada ao passado – não só do governo anterior, mas do tempo da ditadura – que age contra esses esforços. Para quem não está no governo e deseja um mundo equânime precisa encontrar a própria forma de colaborar. Há muitas maneiras, cada um precisa encontrar a sua. É urgente fazê-lo.

Há vozes corajosas e competentes espalhadas pelos país que desconstroem diuturnamente o mundo paralelo de negação da realidade. Uma forma é somar-se a elas e dizer a própria palavra para multiplicá-las. É como aplicar um antibiótico à infecção que se apoderou do país. A dose deve ser forte o necessário e por um tempo longo, porque ela se espalhou por todo o território. O tratamento será longo e ninguém está fora.

Tomara que mais e mais mentes se somem nesta caminhada. Não há fim para ela, mudam apenas os caminhantes.

 

sábado, 7 de janeiro de 2023

Tempo de "devir"


A vitória de Lula assemelha-se a um conto de fadas. Um final feliz. Os bruxos maus foram expulsos.

Muitos me dirão calma lá, o governo recém começou, o país está sem dinheiro, o patrimônio público foi depredado, as instituições foram exauridas, há milhões que torcem para que dê errado, o mercado espera a sua vez para dar o bote, o congresso não é confiável, há tudo para ser reconstruído. A própria “esquerda” critica algumas escolhas para os ministérios. Dizem que é por ser, ela mesma, muito crítica. A lista de temores e obstáculos é muito grande. Os bruxos não morreram, estão à solta.

Continuo a sentir uma leveza que não sentia há anos.

Contrariamente àquilo que suportei – eu e milhões de brasileiros – desde o golpe contra a Dilma, o dia amanhece sem sustos. Fomos Sísifos, empurrando um saco de notícias ruins, de maldades cometidas pelo governo que se foi, de seguidores fanáticos replicando crueldades, de ameaças visíveis e mascaradas. Não quero falar dos horrores já barrados. Agora não. Li várias pessoas terem o mesmo sentimento.

Continuo a me encontrar saboreando uma paz há muito esquecida.

O ápice do terror instalado no país quatro anos atrás deu-se no processo da eleição. Tudo o que podiam fazer os antigos inquilinos da Alvorada colocaram em prática para ganhar as eleições. Utilizaram a máquina do governo a pressionar, a chantagear e a comprar votos. Tudo bem documentado pela imprensa. E perderam. Ainda assim, alguns setores que votaram no Lula, acharam que deveríamos ter ganhado no primeiro turno, que a diferença foi pequena, que merecíamos mais. Tudo foi analisado. Foi comprovado que a vitória foi grandiosa, inequívoca e estrondosa. A resistência e a luta por justiça e por um país melhor foram gigantes.

Continuo a me alimentar do que significa ter ganhado essas eleições para o país e para o mundo.

Preciso da paz, da serenidade, da crença que vale a pena lutar, da alegria de milhões de brasileiros irradiada com a posse de Lula e com os rituais que nos mandaram a mensagem de um país vivo e de um governo que lutará para reconstruir o que destruíram.

Continuo a me envolver nas imagens e discursos de algumas mulheres e de alguns homens escolhidos para dirigir os Ministérios.

A poucos dias de governo, e os analistas “do nosso lado” já apontaram a necessidade de demitir ministros. Mas não quero me envolver nesta discussão. Estou feliz porque meus netos compartilharam de minha alegria e vão poder falar destes momentos históricos, quando eu já não estiver. Eles terão vivido um tempo que lhe valerá para as futuras lutas que hão de viver e exigirão sua posição.

A trégua que me concedo é necessária para manter minha saúde psíquica e física. Preciso delas para acompanhar e apoiar o governo nos próximos quatro anos. Para apostar num tempo de “devir” novos sentidos e subjetividades a favor da vida.