O velhinho batia
na porta de casa todas as segundas-feiras de manhã. Mamãe lhe alcançava um pote
com alguma coisa que tinha sobrado do almoço de domingo. Eu ouvia sempre minha
mãe dizer que dar aos pobres era dar a Deus. Ele tinha roupas surradas, mas bem
limpas, minha mãe falava. O cabelo era branco e comprido, a barba também, as
unhas sujas e mãos com dedos grossos. Isso eu via, quando ele pegava o pote e
me olhava como se fosse meu avô. Ninguém sabia onde ele morava.
Na
minha rua tinha uns chorões grandes com os galhos virados sobre a calçada. Eu
enxergava grandes saias rodadas, quando tinha vento e balançava eles inteiros.
Um dia eles desapareceram, tinham sido cortados. Quando cheguei em casa e vi
aquele vazio, fiquei muito triste, eu tinha brincado muito de casinha embaixo
dos seus galhos com as crianças da rua. Chorei muito. Algum tempo depois, um
prédio foi sendo construído ali, parecia que não terminava mais de subir. Por
causa disso, o meu quarto não teve mais sol de manhã.
Um
dia, foram aparecendo pessoas estranhas na rua. Elas iam catando no lixo e
colocavam numa caixa grande gradeada que eles iam puxando. No começo era um
homem sozinho que puxava aquele tipo de carrinho. Depois, começou a vir junto
com uma mulher. Depois, vinham também uma ou mais crianças. Depois, começaram a
aparecer mais pessoas, e sempre diferentes. E eu comecei a perguntar porque
aquela gente andava por ali catando no lixo em vez de estarem em casa ou num
trabalho como meu pai e minha mãe? Eu também queria saber porque as crianças
não estavam estudando, porque vinham, quando eu estava indo para o colégio, ou quando voltava para casa. Naquela
época eu ia à escola sozinha, porque não era muito longe. Mas o pai disse um
dia que alguém tinha que começar a ir junto, ele iria falar com os vizinhos
para que um adulto fosse sempre com a gente. Foi aí que não brincamos mais na
calçada.
Começou também a
acontecer outra coisa. As casas da rua foram sendo demolidas e alguns de meus
amigos se mudaram. No lugar delas construíram prédios com muitos andares.
Um
dia começaram a colocar grades em roda da minha casa, do mesmo jeito que na
frente dos edifícios. E eu não vi mais o velho que chegava na porta da cozinha.
Minha mãe disse que não sabia o que podia ter acontecido com ele. Eu sentia
muita falta da segunda-feira, era como se fosse a visita de meu avô que morava
longe. Ainda mais agora que tinha sido proibida de sair e até de ir à lojinha
onde costumava comprar algum lápis e figurinhas, porque a avenida tinha ficado
muito movimentada. Eu tinha que atravessar a rua para chegar lá, justo na
esquina onde puseram uma sinaleira. Ali, apareceram algumas crianças que pediam
esmolas, quando o sinal ficava vermelho e os carros tinham que parar. Papai
tinha dito para que não chegasse perto delas, era perigoso, mas não tinha
respondido porquê.
Uma
tarde fiquei em casa, porque havia uma reunião de professores na escola. Fui
brincar no jardim. Enquanto ia atrás de um beija-flor que colocava seu bico nas
flores de hibisco que eu tinha plantado com minha mãe, ouvi uma gritaria. Corri
até a grade e vi duas mulheres brigando no outro lado da rua. Elas puxavam uma
sacola tirada do lixo. Uma delas deu um empurrão na outra, que caiu sentada, então
conseguiu agarrar o pote que havia dentro e deu para o menino ao seu lado.
Rápido, ele começou a comer o que havia dentro com as mãos, enquanto a mulher caída
se levantava e xingava aos gritos.
De
noite, enquanto a gente jantava, eu contei o que tinha visto e ficado com nojo.
Os pais me disseram que era muito triste ver as pessoas procurarem comida
daquele jeito, e que eu deveria comer sem sobrar nada no prato e deveria também
agradecer porque não faltava nada para nós. Eu queria perguntar de onde vinha
aquela gente e muitas outras coisas, mas mandaram eu parar de falar e terminar
de comer.
Uma
tarde, eu estava brincando como sempre no jardim e vi de novo algumas pessoas
mexerem no lixo. Eu tinha uma bolinha que servia para jogar nos gatos que se
aproximavam dos passarinhos quando eles chegavam na grama para comer. Fui até a
grade e fiquei olhando. Uma menina atravessou a rua e veio vindo para perto,
ela ficou com o rosto junto da grade, era menor que eu, tinha remela nos olhos
e o nariz escorrendo, e o vestido sujo também. Ficou olhando para minhas mãos. Não
fiquei com medo dela, como meu pai, e perguntei se ela queria a bolinha, ela
demorou um pouco para responder “quero, mas eu queria mesmo é uma coisa pra
comer?”. Fui atrás de minha mãe, que fez uma marmita e eu dei para ela junto
com minha bolinha. Nunca mais eu vi aquela menina.
Assim
é minha rua.
Tema de casa.
A cor da vida vai sumindo, a rua perde o brilho, há barreiras entre nós e eles. Teu texto vai derramando tristeza. Isso tudo tem que ter um fim.
ResponderExcluirMemórias que se tornam mais presentes nestes tempos! Cláudia Benetti
ResponderExcluirTriste realidade vivida por uma criança ainda guardando a ingenuidade da infância. Triste ver que tudo continua no mesmo ritmo, é junto desaparecendo nossas esperanças de tempos melhores. Lindo texto.
ResponderExcluir33 milhões passam fome neste país. Crônica bem oportuna.
ResponderExcluirEsta é a tua história, a minha história, a história de todos nós.A diferença é que tu consegues contar a história, com compaixão e sensibilidade.Parabéns, Maria Rosa, sempre em frente, mas olhando para os lados!!
ResponderExcluirLindo e triste texto. Para nossa tristeza sempre atual. O mundo está cada vez mais dividido entre ricos e pobres. E muitas crianças hoje crescem em suas bolhas sociais, não sendo educadas para ter compaixao peloa desvalidos. Triste realidade.
ResponderExcluirQue belo texto ainda que muito triste. Sinal desse tempo conturbado que vivemos com tanta miséria na nossa volta.
ResponderExcluirFoi muito bom ter notícias tuas. Abração e bjs