Vejo e ouço Michele Serra com uma rosa branca na mão a falar
na tela à minha frente.
É dia
da Libertação na Itália, 25 de abril de 1945.
Rosa
branca, libertação, abril, 1945. Imagino tantos significados para tantas pessoas.
Para mim são ímãs que me levam de volta àquele tempo, porque tenho lembranças
que nunca se apagaram, nem perderam potência, embora tenha nascido no final da
guerra. Ao mesmo tempo, juntam-se a um presente que nunca julguei viver e me
vejo numa gangorra de incredulidade e espanto, porque os acontecimentos de hoje
fazem o tempo suspender décadas passadas como se nunca tivéssemos sofrido tanto
e morrido tanto pela paz.
Michele
Serra lembra um comandante partigiano,
Luchino Dal Verme, que morreu em 2017 aos 104 anos. Ele era oficial da
cavalaria e foi mandado a lutar na Rússia com outros milhares de italianos. No
entanto, mal equipados e sem condições, os soldados são obrigados a voltar, a
maioria morre no inverno de 1942/1943. Luchino é um dos poucos sobreviventes
que conseguiram retornar a pé por milhares de quilômetros.
Em 8 de
setembro de 1943 a Itália assina o armistício e Luchino deixa as armas, não
quer mais a guerra. No entanto, é levado a aceitar o comando de um grupo de
jovens partigiani, muitos comunistas, ele que tem origens nobres desde o
século XIV. Ele diz que nesta data morre o dever e nasce a consciência. Luta
contra os nazistas que se retiram do solo italiano e dos fascistas que ainda
acreditam na falácia de Mussolini.
Terminada
a guerra, retira-se para o interior da Toscana a criar galinhas. Não aceita
entrar na política, desiludido por tudo o que viu. Vive em paz no meio da
natureza e, aos 90 anos, pede ao seu médico um aparelho para a surdez que o
havia acometido. Pouco depois, abandona o aparelho, não porque não funcionasse,
mas porque ouvia o rumor de suas botas sobre o gelo e isso lhe recordava a
guerra, o que lhe era insuportável.
Hoje, os sons das armas e gritos
das pessoas no meio delas são insuportáveis e, no entanto, continuam.
Construímos uma humanidade que não precisa se isolar, porque nos acostumamos com
o som das bombas e com a dor do outro. Nos acostumamos ao horror, esta é a
nossa tragédia.
Ouço Michele
Serra dizer que vai levar a rosa branca ao túmulo de Luchino no pequeno
cemitério de Torre degli Alberi no meio do silêncio dos castanheiros. Esta
lembrança é uma bandeira branca que busca a paz no mundo cada vez mais ameaçada
ao longo dos mais de 70 anos que seguem o fim da segunda guerra mundial.
Precisamos
com urgência levantarmos todas as bandeiras brancas que tivermos pelos jovens
que têm ainda a vida pela frente. Quero acreditar que outro mundo é possível,
há muita gente como Luchino que ainda luta e não desiste. Desistir é uma
palavra obscena.