quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O que diriam meus pais?

 

                Cresci vendo filmes e seriados de guerra onde o mocinho era o soldado heroico americano contra o perverso alemão. Nasci no final da segunda guerra no norte da Itália, e minhas recordações vêm das histórias ouvidas em casa depois do conflito ter acabado. Volta e meia conto algumas passagens que ainda agora me emocionam, embora tenham passado décadas. O que conto, no entanto, nem chega perto das atrocidades que outras famílias de italianos sofreram e que eu só vim a conhecer muito tempo depois quando já tendo emigrado para a América, como eu dizia. Só vim a saber que o país seria o Brasil ao chegar aqui.

Cresci ouvindo de meus pais que não devíamos nos meter em política, porque éramos estrangeiros. Fiz meus estudos em colégio de irmãs, porque eles queriam o melhor para mim. A morte de meu pai ocorreu precoce, e eu precisei começar a trabalhar muito cedo. Trabalho e escola deixavam-me pouco tempo para qualquer outra atividade, menos ainda para me inteirar da política e de outras partes da história que eu conhecia. Foi já adulta, que vim a entender que o mocinho, que ajudara a libertar a Europa do nazismo, nem tão mocinho era.

Estas lembranças voltam muito vivas nestes dias em que vejo nos noticiários europeus a tensão entre o Ocidente e a Rússia. Muitas análises foram publicadas sobre a origem do conflito, não é sobre elas que quero me referir. É sobre o efeito que tudo o que está acontecendo reverbera em mim, porque nasci no meio de uma guerra e minha família esteve dentro dela. Apesar de muito pequena, a sirene avisando bombardeamento próximo ficou gravado na memória, tanto que, com nove ou dez anos e já vivendo em outro país, eu não suportava o ruído dos aviões da Esquadrilha da Fumaça ao se apresentar em alguma comemoração. Eu me fechava no quarto tapando os ouvidos.

Meu pai foi militar e desmobilizou, atendendo às ordens do armistício decretado em 1943. Ele e outros militares esconderam-se dos nazistas que os procuravam para levá-los presos na sua retirada para a Alemanha. Minha mãe tinha-me no colo e enfrentou metralhadora, negando-se a dizer o paradeiro do marido. Meus pais viram trens cheios de prisioneiros que passavam em direção aos campos de concentração alemães. Ao longo dos anos vi cenas semelhantes em filmes e, muitas vezes, acelerei a projeção por não aguentar. Ficaram marcas que não se apagarão nunca. Meu pai resolveu emigrar por vários motivos. Lembro de conversas entre os adultos, e guardo que o motivo decisivo foi o medo de outra guerra. Foi quando ocorreu o conflito na Coréia, 1949. Longe de onde morávamos, mas corria a desconfiança de outra guerra mundial. Guerra nunca mais.

Nos últimos 70 anos a Europa se reorganizou e manteve suas fronteiras em paz. Mas a história comprova que ela esteve e está envolvida de alguma maneira com guerras mais ou menos próximas. A cultura da guerra nunca se desfez. Com ou sem guerra fria a disputa entre potências continua e a morte de milhões e milhões de soldados e civis sempre fica na conta de efeito necessário ou colateral. É a cultura da morte que está associada a um modo de vida autofágico baseado na competição e no consumismo. Isto tem nome. Modo de produção capitalista, a morte e a destruição fazem parte de sua natureza. Tantos já o disseram.

Enquanto isso ocorre e desperta tantas tristezas, leio mais uma  tragédia. Em Barreiros, zona rural de Pernambuco, foi assassinado intencionalmente um menino dentro da casa invadida por homens encapuzados à procura do pai, líder comunitário. Não li até o momento de escrever este texto sobre grandes manifestações de indignação. Talvez, porque crimes semelhantes estejam ocorrendo frequentemente? Os residentes pedem investigação e justiça. O que acontecerá? A vida segue como se esta interminável guerra não ocorresse por aqui.

A cultura da indiferença ou da impotência faz com que a invasão de uma casa simples de trabalhadores rurais seja esquecida. A morte de um menino só envolve os direitos de algumas famílias que ocupam há anos uma fazenda. Estão à espera de seus direitos num interior perdido do país. Tomara que o sacrifício daquela criança consiga mexer nos bastidores do poder e que ela não tenha sido em vão.

A possibilidade de guerra com a Rússia ocupa grandes espaços na mídia mundial, há interesses econômicos enormes por trás. Há grandes grupos empresariais que poderiam ser atingidos. Então, são necessários milhares de soldados frente a frente para morrer. Tomara que os jogos de poder via diplomacia sejam mais fortes.

Não há palavras que justifiquem estas situações-limite. A humanidade está levianamente brincando com a morte. Sempre o fez, mas parece estarmos no limite do não retorno. Precisamos continuar indignados para acalentar o sonho de uma sociedade melhor. É a indiferença que mata nossos sonhos.

Penso muitas vezes sobre o que diriam meus pais. Eles que fugiram da guerra e vieram para um país que lhe disseram ser pacífico.

 

 

 

 

7 comentários:

  1. Rosa, que belo texto, triste, verdadeiro na indignação. Lamentável não ter coisas boas para dizer aos nossos netos. Assim como teus pais, teremos que fugir da indiferença e deixar marcas, palavras, que mostrarão o insuportável momento que vivemos.

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  2. Maria Rosa, sempre atiçando nossa inquietação! Belo texto!

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  3. O ser humano é desumano alguns destroem países inteiros por ganância e dinheiro ... não se importam com pessoas morrermos para eles é lucro futuro ..invadem e se apossam e pronto tudo piora todos os dias.
    Eu já perdi as esperanças faz é tempo vivemos de Utopia, luto. Todos os dias por um mundo melhor mas confesso Perdi a fé.😢

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  4. Somos, cada um, Eu e Nós/Nós e Eu, a formar o tecido da nossa experiência pessoal e coletiva. E a trama, como as contamos, marcam o que se tornou a nossa sensibilidade e o modo como criamos sentido para nossas vivências e para o nosso mundo. Sua história e o Nós-Eu-Nós que lhe dá significado são a marca de uma pessoa solidária e afetiva, Maria Rosa. É o modo como criamos a narrativa do nosso enredo que nos faz escolher entre a amargura e o amor, como diz Clarissa P. Estés. Você é um ser que há muito escolheu o amor. Admiro isso.

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  5. Que bom que tu existe pra nos fazer refletir sobre isso tudo que se vai no mundo....

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  6. Vou copiar a Ivone Kaspary: que bom que vc segue dizendo sim à capacidade de indignação, que continuas denunciando a barbárie que emana de almas humanas travestidas de "poder", do poder de decidir quem come e quem não come, quem vive e quem morre! Obrigada, Maria Rosa! Sigamos, contudo, construindo a esperança! (Tuas lembranças da infância me encheram de emoção. Eu não conhecia esses detalhes que narras. Agora entendi por que me cativante lá, nos idos dos anos 90. Graças a Deus!). Abraço muito fraterno.

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