terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Justicia gendarussa

 

Ontem foi um dia especial. A inauguração de um grande painel num edifício da cidade tem uma história belíssima e merece ser comemorada e festejada. Para muitos pode ser apenas uma extravagância de artistas ou de quem não se preocupa com coisas mais importantes. No entanto, a pintura é e será o testemunho de histórias que se entrelaçaram desde muito tempo atrás. Histórias de gente que comungou e comunga de um mesmo desejo de harmonia com a natureza e com a humanidade. Num tempo medido em séculos uma plantinha foi se reproduzindo e oferecendo seus benefícios, enquanto gerações de humanos nasciam e morriam.

Ano 2022, uma tarde quente de janeiro, a pintura de um exemplar de justicia gendarussa na parede do prédio do Daer na av. Borges de Medeiros é oferecido oficialmente a Porto Alegre. Justicia é em homenagem a  Sir James Justice, botânico, horticultor e jardineiro escocês (1698-1763), membro da Real Sociedade de Londres para o Avanço da Ciência. É considerado o pai da horticultura escocesa do séc. XVIII. Gendarussa vem dos idiomas malaio e javanês, e pode ser traduzido como o perfume de um doce vento que sopra e traz algo semelhante a aromas silvestres, aromas da floresta ou à fragrância amadeirada. “Para aqueles que acreditam no seu poder, o nome Justicia gendarussa vai além do latim botânico: seu uso significa que as entidades e orixás farão valer a justiça e, sobre aqueles que professam sua fé, a proteção chegará suavemente, assim como o perfume de um doce vento que sopra...”*

Por isso esta planta também é chamada de quebra-demanda, ela cresce em qualquer lugar, nem o cimento a impede de aparecer.

                Esta imagem é resultado de pesquisa e planejamento de anos. A pintura envolveu não só os dois artistas: a suíça Mona Caron e o paulistano Mauro Neri, mas também outros 30 artistas locais. É fruto de um trabalho colaborativo, onde o processo de criação desenvolveu-se tendo em vista a justiça social e a preservação da natureza. A modelo é Beatriz Gonçalves Pereira.

            Em meio a tantos desmandos, tanta crueldade por parte de quem nos governa, tanta gente alienada que não quer ver o que realmente está acontecendo, tantas leis sociais e ambientais transformadas para atender a interesses particulares, esta grande pintura vem nos chamar para a continuidade da resistência. Quando muitos de nós, que estamos atentos ao que acontece ao redor e nos entristecemos, e nos desalentamos, e cansamos, e quase desistimos, chega esta obra de arte que envolveu silenciosamente tanta gente.

            A mensagem está ali, nos olhando e nos convidando a ter fé. Há muita gente que nunca desistiu, que faz o que lhe diz o coração, que sabe o que deve fazer para que possamos ser mais fortes que a maldade solta por aí. Através da arte, foi colocada em movimento uma energia vinda do que há de melhor no ser humano de várias partes do mundo.

            A quebra-demanda e a mulher estão ali para nos lembrar todos os momentos do dia que Porto Alegre está viva, apesar de tudo.

 

 *Fonte: http://www.unirio.br/ccbs/ibio/herbariohuni/justicia-gendarussa-burm-f

3 comentários:

  1. Belo registro, precisamos de besos registros, a vida recomeça cada vez, com cada um deles.

    ResponderExcluir
  2. Viva a arte Maria Rosa! Bela escrita!

    ResponderExcluir
  3. Teu texto leva a muitas reflexões, mas a mais importante é a de que a beleza dessa obra de arte traz vida a Porto Alegre. E a de que obras de arte assim espalhadas pelas cidades servem como alerta de que há muito mais a ser visto nas cidades além do cinzento dos prédios. Há vida, há símbolos da vida em tudo. Amei teu texto, aprendi com ele. E quando puder vou ver essa pintura tão linda.

    ResponderExcluir