Ontem foi um dia
especial. A inauguração de um grande painel num edifício da cidade tem uma
história belíssima e merece ser comemorada e festejada. Para muitos pode ser
apenas uma extravagância de artistas ou de quem não se preocupa com coisas mais
importantes. No entanto, a pintura é e será o testemunho de histórias que se
entrelaçaram desde muito tempo atrás. Histórias de gente que comungou e comunga
de um mesmo desejo de harmonia com a natureza e com a humanidade. Num tempo medido
em séculos uma plantinha foi se reproduzindo e oferecendo seus benefícios,
enquanto gerações de humanos nasciam e morriam.
Ano 2022, uma
tarde quente de janeiro, a pintura de um exemplar de justicia gendarussa na parede do prédio do Daer na av. Borges de
Medeiros é oferecido oficialmente a Porto Alegre. Justicia é em homenagem a Sir James Justice, botânico, horticultor e
jardineiro escocês (1698-1763), membro da Real Sociedade de Londres para o
Avanço da Ciência. É considerado o pai da horticultura escocesa do séc.
XVIII. Gendarussa vem dos idiomas malaio e javanês, e pode ser traduzido
como o perfume de um doce vento que sopra e traz algo semelhante a aromas
silvestres, aromas da floresta ou à fragrância amadeirada. “Para aqueles
que acreditam no seu poder, o nome Justicia
gendarussa vai além do latim botânico: seu uso
significa que as entidades e orixás farão valer a justiça e, sobre aqueles que
professam sua fé, a proteção chegará suavemente, assim como o perfume de um
doce vento que sopra...”*
Por
isso esta planta também é chamada de quebra-demanda, ela cresce em qualquer
lugar, nem o cimento a impede de aparecer.
Esta
imagem é resultado de pesquisa e planejamento de anos. A pintura envolveu não
só os dois artistas: a suíça Mona Caron e o paulistano Mauro Neri, mas também
outros 30 artistas locais. É fruto de um trabalho colaborativo, onde o processo
de criação desenvolveu-se tendo em vista a justiça social e a preservação da
natureza. A modelo é Beatriz Gonçalves Pereira.
Em
meio a tantos desmandos, tanta crueldade por parte de quem nos governa, tanta
gente alienada que não quer ver o que realmente está acontecendo, tantas leis
sociais e ambientais transformadas para atender a interesses particulares, esta
grande pintura vem nos chamar para a continuidade da resistência. Quando muitos
de nós, que estamos atentos ao que acontece ao redor e nos entristecemos, e nos
desalentamos, e cansamos, e quase desistimos, chega esta obra de arte que
envolveu silenciosamente tanta gente.
A
mensagem está ali, nos olhando e nos convidando a ter fé. Há muita gente que
nunca desistiu, que faz o que lhe diz o coração, que sabe o que deve fazer para
que possamos ser mais fortes que a maldade solta por aí. Através da arte, foi
colocada em movimento uma energia vinda do que há de melhor no ser humano de
várias partes do mundo.
A
quebra-demanda e a mulher estão ali para nos lembrar todos os momentos do dia
que Porto Alegre está viva, apesar de tudo.
*Fonte: http://www.unirio.br/ccbs/ibio/herbariohuni/justicia-gendarussa-burm-f
Belo registro, precisamos de besos registros, a vida recomeça cada vez, com cada um deles.
ResponderExcluirViva a arte Maria Rosa! Bela escrita!
ResponderExcluirTeu texto leva a muitas reflexões, mas a mais importante é a de que a beleza dessa obra de arte traz vida a Porto Alegre. E a de que obras de arte assim espalhadas pelas cidades servem como alerta de que há muito mais a ser visto nas cidades além do cinzento dos prédios. Há vida, há símbolos da vida em tudo. Amei teu texto, aprendi com ele. E quando puder vou ver essa pintura tão linda.
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