quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Imagens e movimentos

 

        

Praias do Nordeste, voo de pássaros do Centro-Oeste, matas ainda preservadas, sítios históricos, algumas imagens que me relembram quanto é lindo o Brasil. Leio, junto a estas imagens, a declaração otimista de representante do setor de turismo no país: as viagens internas estão crescendo. Saldo positivo da pandemia, expressão de contabilidade egoísta, digo. Impedidos de viajar para o exterior, os brasileiros movem-se por aqui mesmo. De qualquer forma, é muito bom que os brasileiros viajem pelo próprio país. Mas há milhões de brasileiros que não conseguem se mover além do entorno onde moram, não só pela pandemia, mas porque estão desempregados e sem nenhuma perspectiva diferente de vida. Tudo isso agravado por políticas de descaso do governo, quando não intencionalmente destrutivas.

Recentemente, depois de um longo tempo de reclusão, arrisquei-me a visitar a orla do rio Guaíba. Sim, rio, não lago. Caminhar nos passeios que serpenteiam sobre as águas, ouvindo o marulhar das minúsculas ondulações, vendo o encrespar da água mais distante enquanto a superfície recebe um risco branco de um barco veloz, uma delícia. Poder se movimentar, sair de casa, estar próximo da natureza é suprimir uma falta comum em cidades grandes. Poder caminhar, correr, andar de bicicleta junto a ar puro e imagens bonitas só pode fazer bem, todos merecem usufruí-lo. O Guaíba e seu entorno oferecem uma paisagem especial em qualquer momento do dia, sem falar no seu famoso por do sol. Se eu fosse turista, registraria este espaço em muitas fotografias para mostrar aos meus amigos. Como fiz inúmeras vezes no exterior. Oxalá todos pudessem desfrutar da beleza deste lugar.

Normalmente não me chama a atenção a cor da pele das pessoas, porque sou branca e vivo numa sociedade predominantemente branca. Naquele dia, no entanto, dei-me conta disso, porque um casal e duas meninas negras chegaram de bicicleta, e pararam perto de um dos quiosques. Comecei a prestar atenção no restante das pessoas que circulavam. Mulheres e homens brancos (alguns de pele morena que, talvez, se considerassem negros), jovens e adultos, crianças, vestidos com roupas esportivas, alguns de forma adequada para o esporte que praticavam, ou exercícios nos aparelhos ali existentes. Quase todos respeitando a necessidade de máscara. Quase todos brancos. Muitos, usufruindo sucos, água de coco, petiscos, em mesas devidamente distanciadas umas das outras. Um quadro harmonioso inserido num recorte privilegiado de natureza.

Nas proximidades, um sem número de carros estacionados. Poucos ônibus circulando. Em domingos e feriados, a frota é reduzida. Então relembrei o quanto o transporte público é fundamental para quem depende quase que exclusivamente dele. Esta população vive principalmente na periferia, na zona norte ou leste da cidade. É onde vamos encontrar maior concentração de população negra. Então a orla do Guaíba é um lugar distante para os que moram longe e são pobres, negros ou brancos, mesmo que não exista uma tabuleta impedindo de acessá-la. Para estas pessoas, viajar para o exterior ou para o interior do país, sequer deva ser uma questão. E nem falo nos restaurantes caros ali existentes. A orla do Guaíba deveria ser uma boa alternativa. Refiro-me apenas às margens que permitem usufruir da beleza que, por si só, faz bem.

Movimentar-se, ver outras paisagens, entrar em contato com outras pessoas, dar-se conta de novos modos de ser, de falar, de viver, de se relacionar. Uma rica forma de nos levar a pensar além do que é vivido, de expandir-se, de ser mais. Sem esquecer o quanto é difícil para muitos o simples fato de sobreviver, é duro ver o quanto pode ser cruel uma sociedade onde grande parte de sua população não consegue passear, movimentar-se pelo simples desejo de ver outros lugares, nem mesmo dentro de sua cidade. Para a população que mesmo andar de ônibus é difícil, muitos espaços lhe são negados desde sempre. Uma negação que não está escrita, um muro imaterial que isola os que têm dos que não têm.

Repensar a mobilidade urbana é repensar o próprio modo de vida que levamos enquanto sociedade, é mexer com privilégios e reordená-la sob o princípio da equidade. É resgatar a indignação pela extrema diferença entre as classes sociais. Utopia? Sim, para que ela nos indique caminhos.

 

2 comentários:

  1. Muito oportuna tua crônica. Também penso nas cidades e na forma como são segregadoras, propositalmente ou não, apenas por que o segregacionismo também é uma questao estrutural, como o é o racismo en nosso país. Deveria haver mais sensibilidade das nunicipalidades quanto a esta questão, proporcionando melhores meios de acesso a toda a população carente. Utopia? Como dizes, sim. Mas que de alguma forma proporcione reflexões e imediatas soluções. A beleza das cidades deve ser usufruída por toda a comu nidade, o acesso deve ser facilitado e toda uma in fraestrutura deve acompanhar essa população nesses lugares de lazer.

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  2. As necessidades de nossa pobres população são tantas e tão mais urgente que, o laser, quando possível é tão restrito e no relacionamento familiar ou de vizinhos. O poder público organiza os melhores espaços para quem pode pagar transporte e o retorno financeiro para os investidores. Impera a injustica social.

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