terça-feira, 19 de outubro de 2021

É preciso falar de muros

 


Há pouco tempo ouvi num programa da televisão italiana o jornalista Nello Scalvo afirmar que 65 países, dos 193 que a ONU reconhece, decidiram construir muros para impedir a entrada de imigrantes. Este fato é tanto mais grave, porque metade deles começou a erigi-los a partir do ano 2000 disse ele.

            Vale lembrar que o mundo festejou a queda do muro de Berlim em 1989. Então proclamou-se o advento da liberdade e o fim do regime autoritário da antiga URSS. As nações do leste europeu livraram-se da besta do comunismo e entraram felizes no mundo prometido pelo capitalismo. Em algumas delas, hoje, há governos eleitos que se tornaram de extrema direita e defendem o nacionalismo contra ideias de solidariedade entre nações como rege a Comunidade Europeia à qual pertencem. Elas levantam a bandeira contra os imigrantes que fogem da guerra.

            O ódio ao imigrante desesperado está ligado a outros fatos, o ressurgimento de grupos nazifascistas e o recuo das ideias de um estado voltado para o bem estar social que provê a educação, a saúde e os direitos dos trabalhadores em boa parte do mundo. Embora jamais realizada plenamente, a ideia de estado como provedor constituiu durante muito tempo a bússola a guiar boa parte da política. Com o recuo destes ideais,  parece ter brotado o negacionismo na ciência, na cultura, na política e em toda narrativa que implique olhar o outro como seu semelhante. Neste contexto são discutidos os paradoxos do viver em sociedade e defender o conceito de liberdade como o poder do indivíduo acima de tudo. É o individualismo exacerbado que destrói as relações sociais, criando muros físicos e virtuais com a grande dificuldade de se reconhecer no outro.

 

            Particularmente, no recorte de minha cidade, Porto Alegre, além de muros físicos, pode-se ver grades de todo o tipo. Num retrospecto desde final da década de 1970 e início de 1980, dou o exemplo da rua onde moro, em bairro não muito distante do centro. Quando me mudei com a família, as crianças da vizinhança se reuniam e brincavam na rua. A hora de voltar estava marcada para as 21h. Já na década de noventa as brincadeiras passaram a ser nos espaços dos edifícios, quando começaram a receber grades e, pouco a pouco todos os edifícios antigos que tinham livre acesso à rua, passaram a ser isolados. Interfones, portarias e centrais de atendimento começaram a aparecer e intermediar o contato dos moradores com visitantes e entregadores. O contato com alguém que podia nos alcançar para pedir alguma coisa foi terceirizado. Diversos tipos de barreiras preservam o sossego dos que podem morar de forma digna num espaço particular.

            A organização habitacional e social das cidades em geral tem lembrado a dos feudos da Idade Média. Não temos castelos, mas temos agrupamentos de casas e de edifícios em condomínios com sistema de proteção e de serviços que dispensam boa parte da dependência do exterior. Em zonas residenciais, os movimentos que prevalecem são a saída e entrada de carros das garagens, pessoas que levam seu cachorro de estimação para passear, prestadores de serviços, empregados e zeladores.

Voltando a Porto Alegre, existem alguns parques e espaços da orla que podem ser usufruídos  com alguma segurança. Sem esquecer que grande parte da população da periferia nem chega até eles. No entanto, muitas praças deixaram de ser frequentadas porque inseguras. Ou, tornaram-se inseguras, porque não frequentadas? A rua de uma forma geral, deixou de ser um lugar de socialização, transformou-se no lugar de trânsito e, conforme o bairro, um lugar  mais ou menos temido, e que só usamos por necessidade de locomoção. São muros invisíveis que todos sabem de sua existência e do condicionamento que eles impõem.

As notícias que lemos todos os dias, ao menos no nosso país, não nos dão esperança de que caminhamos para a derrubada de algum desses muros. Por isso mesmo temos que continuar a falar sobre isso. Como disse alguém, as palavras são o farol que ajuda na noite escura no meio da tempestade. Continuamos no meio dela.

 

3 comentários:

  1. Ana Maria da S.Teixeira19 de outubro de 2021 às 18:08

    Linda crônica, minha amiga. Nestes tempos trevosos realmente as palavras tem função salvadora na condução da vida. Agem como luz na tempestade quando denunciam erros, quando lutam por liberdade, quando clamam por justiça.

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  2. O individualismo manda e o egoísmo determina o modo de viver isolado. Os feudos voltaram. Haja visto Golden Lake, Ponta do Arado e Country Club. Retrocesso civilizatório. 0

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  3. Que bom reencontrar teus textos, Maria Rosa! Isso! Há que se derrubar os muros cotidianos, tecendo territórios de afeto expansivo da nossa potência de ação coletiva!

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