Recebo o vídeo
com o depoimento de um agricultor. Não planta mais a terra que cultivou por
dezenas de anos no interior do Estado. É um remanescente da região que foi
sendo tomada aos poucos pela monocultura de eucaliptos para a celulose. O país
é um grande exportador de celulose. A terra, que aquele agricultor ama e não
quis abandonar, foi esgotada, sacrificada, exaurida de seus nutrientes, não
pode mais ser cultivada.
Essa realidade é
a de qualquer região que tenha trocado seus diversos cultivos pela monocultura
de eucaliptos. Depois de esgotada, vão-se também os eucaliptos. Resta o nada. Há
anos foi denunciado processo de desertificação no interior com o desmatamento
acelerado.
Leio sobre o
próximo acordo entre EU e Mercosul, ao qual o Brasil pertence, e que resultará
em venda no país de mais agrotóxicos proibidos na Europa. Ainda consigo ficar
estupefata diante do crime contra a população brasileira. Nem todos poderão se
mudar para Miami.
Uma
forma de resistência a tudo isto está no cultivo de orgânicos liderado pelo MST
e por pequenos agricultores. À margem das monoculturas direcionadas mais ao
mercado externo, conseguem sobreviver apesar dos ataques sofridos desde sempre.
Há
poucas semanas, incursões de aviões despejando nuvens de agrotóxicos sobre um
assentamento do MST no interior do Estado mostraram a que ponto está
chegando a ousadia dos ataques.
Atingiram diretamente plantios, pessoas e animais. Um crime contra a vida sem
nenhum disfarce, porque quem o pratica aposta na impunidade. É provocar doenças
que matam. É assassinato programado. O mal está feito, mas torço para que o
processo na justiça resulte em medidas de proteção eficiente para quem manda
produtos saudáveis para a mesa do cidadão. Torço por justiça, apesar de saber
que essas ousadias sentem-se autorizadas pelos horrores praticados pelo próprio
presidente do país que continua sua cruzada genocida sem que ninguém o detenha.
Por um lado,
exaurimos a terra. Por outro, a envenenamos. E, ainda, lideranças que fazem
frente a tudo isso são assassinadas com frequência. Esta é uma história antiga
que se atualiza sempre.
Apesar de tudo,
no dia do trabalhador houve entrega de produtos orgânicos do MST para quem tem
fome em várias cidades. Fome que recrudesceu em tempos de pandemia. Imagens de
distribuição de alimentos deram uma mensagem forte de que os agricultores, além
de não se renderem, ajudam quem mais precisa.
Isto me faz
lembrar uma afirmação ouvida numa viagem ao interior da Itália. “Onde existem
papoulas não há agrotóxicos”. Pude ver muitos campos de trigo enfeitados de
corolas vermelhas. Alguns eram uniformemente amarelos. As cores estavam
denunciando que a terra estava sendo tratada de forma, no mínimo, diferente.
Aqui, nossas
papoulas são os assentados e pequenos agricultores. Minha gratidão a eles
manifesta-se em ter presente sua história e contá-la para que não seja
esquecida, comprar seus produtos e em me aliar às suas lutas por justiça. Tenho
amigos entre eles e me comovo com sua capacidade de trabalho que acompanho há
cerca de trinta anos.
O trabalho na
terra, cuidando para que não seja contaminada, para que permaneça fonte de
alimentos orgânicos é um dos bastiões para salvar, não só o país, mas o planeta,
da voracidade autodestrutiva de quem só vê o lucro diante de seu nariz. Este
argumento deve ser suficiente para que procuremos saber onde estão “nossas
papoulas” e os alimentos saudáveis. Além de ser em nosso benefício, as gerações
futuras agradecerão.
Parabéns, Maria Rosa pela defesa resistente, pela escrita das causas da vida, contra a morte, o veneno, a exploração e ganância capitalista. As papoulas haverão de voltar bem vermelhas, fortes e vivas.
ResponderExcluirQue as papoulas vençam e tragam um colorido de esperança.
ResponderExcluirSejamos todos papoulas, o momento é extremo, só assim nossos "campos" terão chance de sobrevivência. Muito bom,Rosa!
ResponderExcluirGosto dos contextos que aborda na tua escrita. Mergulho na leitura com facilidade. Gratidão!
ResponderExcluirMaria Rosa, conheci recentemente teu blog pelo Rogério. Te parabenizo pelo elegante e extremamente sensìvel estilo de escrita que tens. Estou adorando acompanhar tuas ideias e indignações: elas reverberam em mim! Um forte abraço, Fernanda.
ResponderExcluirOi, Fernanda, muito obrigada pelo teu comentário. Tuas palavras me animam a continuar escrevendo. Escrever me ajuda a suportar estes tempos tão sombrios. Beijo.
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