E
enquanto marchavas com a alma nos ombros
Viste
um homem no fundo da vala
Que
tinha o teu mesmo, idêntico, humor
Mas
a farda de uma outra cor
Fabrizio
De Andrè
(Letra
completa ao final do texto)
Esta
música de De Andrè emociona-me toda vez que a ouço, como se fosse a primeira. É
um lamento e uma homenagem ao soldado que tomba, símbolo dos milhões que foram
sacrificados e continuarão a sê-lo em inaceitáveis e odiosas guerras.
Faz-me
pensar na morte em sua infinidade de manifestações, principalmente nos dias de
hoje. O soldado titubeou, porque, mesmo na guerra viu outro homem como ele,
embora a farda fosse do inimigo. Este instante, em que sua humanidade impediu-o
de disparar, custou-lhe a vida. Mas ganhou não ver o olhar de um homem que
morre por suas mãos. Não há titubeios nos que decidem as guerras e seus
fornecedores de armas.
A
imagem de seu repouso sob a terra onde cresceram papoulas vermelhas faz pensar
em gratidão da natureza. Não sei se esta foi a intenção do autor. Não importa.
Importa os sentimentos que ela transmite. Sentimentos que não são de rancor ou
de vingança porque o outro executou a ordem recebida. Sentimento de tristeza
por uma jovem vida interrompida, tristeza de quem o esperava de volta, tristeza
pela inutilidade daquela guerra. De qualquer guerra. Gratidão por não se render
ao embrutecimento do ato de matar o outro, mesmo que lhe custe a própria vida.
Hoje,
impera um sentimento de banalização da vida. Há uma potência de morte tão
generalizada no país – embora com núcleos de concentração em vários espaços do
planeta –, que faz questionar as crenças sobre tudo o que se aprendeu até agora
sobre o gênero humano.
As
imagens de mortes que poderiam ser evitadas são continuamente veiculadas contaminam
e emporcalham o olhar. E o coração. Não há titubeio, não há dúvida, não há
pesar, há apenas o desejo de morte por parte de quem nos governa.
Imagens e
notícias em tempo real nos colocam a todo o momento numa realidade que se está
tornando cada vez mais insuportável. Se é que existem graus de
insuportabilidade. E, no entanto, acabamos apagando-as, mesmo que
temporariamente para alguns. E continuamos a comer, a fazer exercícios na
academia, a dormir, a acordar e a repetir a rotina diária. Afinal, para que
nascemos e vivemos? Cuidamos dos nossos filhos e netos. Agradecemos poder
fazê-lo. E os filhos e netos dos que não podem ser cuidados? E os filhos e
netos que são assassinados nas periferias porque nasceram ali e não noutro
lugar? A impotência diante desta realidade acaba gerando um isolamento
dolorido, extenuante, autopunitivo, mas aceito para poder sobreviver. As mentes
são exigidas a justificar as próprias escolhas, a buscar sentido para o que
ocorre, a encontrar motivos para os fatos jogados na cara a todo o momento.
Estas exigências comparecem nas doenças do corpo impotente para fazer outra
coisa, seguir outro caminho, ser capaz de interferir, mudar os rumos. Um corpo
impotente adoece.
A
impotência recebe um contínuo adubo no conhecimento das crueldades dos que governam
nosso país, e dos que continuam a apoiá-los, cujo resultado são centenas de
milhares de mortos durante a pandemia. Muitas delas evitáveis, se a equipe do
(des)governo tivesse tomado medidas adequadas a tempo. E não o fizeram por
opção, não por desconhecimento. São mortes que cobram um preço impagável
enquanto sociedade composta por boa parte de apoiadores insanos, boa parte de
indiferentes, boa parte de omissos e uma parte que se contrapõe, mas com algumas
vozes que querem a primazia de seu modo de ver e combater a situação e não
encontram uma forma de se unir. Juntas, seriam uma força poderosa.
É
uma pena que aqui exista o titubeio em reconhecer que o desejo de morte do
outro é o real inimigo comum. Tomara que o egocentrismo murche e aqueles que veem
e sofrem a dor do outro se unam o mais rápido possível. Não queremos campos de
flores a nos lembrar mortes inúteis. Enquanto isso, repetiremos à exaustão.
Basta de genocídio.
A Guerra De Piero – Fabrizio De Andrè
Dormes sepultado em um campo de trigo
Não é a rosa, não é a tulipa
Que te velam da sombra dos fossos
Mas são mil papoulas vermelhas
Ao longo das margens do meu rio
Quero que desçam os peixes prateados
E não mais os cadáveres dos soldados
Levados pelos braços da corrente
Assim dizias e era inverno
E como os outros, na direção do inferno
Tu vais triste como quem deve
E o vento te cospe, na face, a neve
Para Piero! Para agora!
Deixa que o vento passe um pouco por
você
Dos mortos em batalha, te levas a voz
Quem deu a vida ganhou em troca uma cruz
Mas você não o ouviu e o tempo passava
Com as estações a passo de Java
Até que chegaste a atravessar a
fronteira
Em um belo dia de primavera
E enquanto marchavas com a alma nos
ombros
Viste um homem no fundo da vala
Que tinha o teu mesmo, idêntico, humor
Mas a farda de uma outra cor
Dispara-lhe Piero! Dispara-lhe agora!
E depois de atingi-lo, dispara-lhe
novamente!
Até que tu não o vejas, exausto
Cair na terra a cobrir o seu próprio
sangue
E se dispara-lhe na fronte ou no coração
Possuirá apenas o tempo para morrer
Mas restará, para mim, o tempo para ver
Ver os olhos de um homem que morre
E enquanto lhe dedica esta atenção
Aquele volta-se, te vê e tem medo
E abraçado à artilharia
Não te retribui a cortesia
Caíste por terra sem um só lamento
E te dás conta em um só momento
Que o tempo não te havia bastado
Para pedir perdão por cada pecado
Caíste por terra sem um só lamento
E te dás conta em um só momento
Que a tua vida terminava aquele dia
E não haveria retorno
Ninetta minha, morrer em Maio (na primavera)
Requer tanta, coragem demais
Ninetta bela, direto para o inferno
Haveria preferido partir no inverno
E enquanto o trigo te estava a ouvir
Com as mãos apertavas um fuzil
Dentro da boca apertavas palavras
Geladas de mais para derreterem-se ao
Sol
Dormes sepultado em um campo de trigo
Não é a rosa, não é a tulipa
Que te velam da sombra dos fossos
Mas são mil papoulas vermelhas
Tão lindo e triste.
ResponderExcluirRealidade que dói na alma.
Parabéns por descrever tão poeticamente as dores do mundo.
Dolorosamente lindo.🌹❤
ResponderExcluirQue texto poderoso. A imagem do soldado que tomba porque o i nimigo não lhe tem compaixão é o símbolo da atrocidade da guerra. E neste tempo feroz e triste que vivemos, os que tombam sequer são números para o desgoverno que tomou conta do nosso país. Cruelmente significam economia para o sistema previdenciário. Excelente o teu texto, retratando à perfeição as sombras e as insanidades que nos cercam.
ResponderExcluirMuito triste. Não tem como não relacionar com os tempos sombrios que vivemos!🙌🏼🙋🏼♀️
ResponderExcluirÉ, minha amiga. Estamos(no coletivo) banalizando a vida e potencializando a morte, de alguns mais que de outros, porque afirmamos as diferenças para marcar a pretensão de superioridade de raça, de sexo, de classe, de berço. Seu texto é duro e sensível, porque estamos sendo forçadas a sê-lo, nós que recorremos às palavras para gritar que estamos vendo, sim, estamos vendo e mantendo nossa indignação, ainda que tantas vezes impotente. Mas é na palavra que "empunhamos utopias" (Lelei Teixeira) contra tudo isso, como em seu texto forte e significativo. Vou citar novamente a Lelei: "a fala organiza o espanto". Ela o faz e, para continuar com Lelei e nos juntando a ela, pensamos "pela necessidade de entender a razão de um existir absurdamente na contramão". Estamos juntas, com as nossas palavras e as nossas emoções, graças a Deus!
ResponderExcluirComo falar de dor e tristeza pode ser belo? Mas teu texto é. Vai fundo, rasga o peito, mas precisa ser dito e ser lido. ⚘
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