Neste período de
distanciamento (ao menos para quem se sente responsável por si e pelos outros),
algumas palavras chegam com mais potência e se reproduzem, e se espalham como
marolas na beira de um lago, como agitação das folhas nos galhos sobre as
árvores no desvario do vento, como ecos entre montanhas. Em incontáveis
momentos qualquer um de nós pôde comprovar que a palavra é movimento, é força,
é fonte de impulsos contra a estagnação e o desânimo. Infelizmente, há também quem
a prostitua.
Em diferentes situações
dos últimos anos, bem antes da pandemia, quando começaram a arrastar o país para
o atraso e o negacionismo com a deposição da presidenta eleita
democraticamente, meu coração quis se
desfazer e não mais pulsar como na poesia de Eugenio Montale em 1919. Mas,
também, como na poesia: E sentes então, /
mesmo se te repetem que podes / parar em meio do caminho ou em alto mar, / que
não há pausa para nós, / mas estrada, ainda estrada, e que o caminho deve sempre recomeçar.*
Então volto a
pensar que os infortúnios são companheiros na longa ou curta passagem pela vida
de todos nós. Cada um tem sua própria medida de resistência diante deles, seu
próprio tempo de elaboração. Os efeitos também são únicos como cada sujeito é
único, porque não há uma vida sequer igual à outra. A vida é diferença e
produz-se na diferença.
Lembro também do
antídoto ao esmorecimento, a busca da similitude no outro, a dos amigos que
vibram nas mesmas alegrias e sofrem as mesmas tristezas. O convívio com quem
confiamos e podemos falar de nossos temores e angústias é suporte fundamental para
pensar, repensar, construir alternativas, encontrar pontos de apoio como numa
escalada que damos por impossível. De novo o poder da palavra, seja ela escrita,
ou dita, ou sussurrada. Ela é ar puro que limpa nossos pulmões das desistências.
Os amigos que
nos socorrem nem sempre são as pessoas que conhecemos e convivemos há mais ou
menos tempo. Às vezes é o poeta cujos versos sorvemos com ânsia, como escrito
acima. Outras vezes é um jornalista que está em linha de frente, onde nós não
podemos estar, mesmo que tivéssemos vontade de estar. Muitas leituras tiveram a
força de me impedir da desistência e fui agradecida por isso como se agradece a
um amigo próximo. São todos amigos do mundo em defesa da vida.
Sei que
continuam a existir outras e muitas narrativas que permitem não soçobrar. Felizmente.
É imprescindível que assim seja. Agora, quero destacar um pequeno trecho de
Eliane Brum, mulher e jornalista que admiro muito e, através dela, quero
homenagear todos aqueles que continuam a usar sua palavra para que o país volte
ao caminho da construção de uma sociedade mais igualitária: Talvez tenha chegado o momento de
compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais
difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. Teremos que enfrentar os conflitos
mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido.
Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético.** Isto foi escrito em
2015 e houve momentos em que hoje é mais necessário, se é que se pode afirmar
um mais.
Muita coisa tem acontecido
nos últimos meses. Sem querer iludir-me, talvez possamos escrever que o
enfrentamento que se dá no país hoje fez alterar a correlação de forças e fez
nascer uma tímida e frágil esperança. De qualquer forma, é preciso continuar a
fazer mesmo sem acreditar, porque o caminho deve sempre recomeçar.
* E
senti allora,
se
pure ti ripetono che puoi
fermarti
a mezza via o in alto mare,
che
non c’è sosta per noi,
mas
strada, ancora strada,
e
che il cammino è sempre da ricominciare.
Trecho
de A galla – Eugenio Montale in Poesie Scelte (poesia escrita em 1919)
** Eliane
Brum em El País, dezembro de 2015 e citado por ela no livro Brasil Construtor
de Ruínas em 2019
Ótimo texto! Compartilho de todos esses sentimentos. Continuemos a fazer mesmo sem acreditar então. Ou a nutrir essa tímida e frágil esperança. 💜😘
ResponderExcluirMuito lindo.
ResponderExcluirNenhuma vida é igual..
Adorei, mãe! Sigamos em frente!
ResponderExcluirTempos difíceis são os forjadores das grandes esperanças. Alentador teu texto. Como disse o poeta,sempre é tempo de recomeçar. Na dor sempre acabam florescendo apren dizados, e muitaa vezes a percepção dessas lições nos chega em outro tempo.Lutar sempre, ainda que tudo pareça impossível. Resistir sempre. Desistir jamais. Parabéns por tuas belas palavras.
ResponderExcluirBeleza de texto, Maria Rosa. No elemento mesmo em que nos encontramos e com o qual "organizamos nosso espanto", como escreveu Lelei Teixeira. E assim fazemos, e assim continuamos, "por imperativo ético". Ou, para citar Maturana, que se foi dia desses e que era um "dos nossos": "porque a vida não tem propósito, mas nós temos". Grande e saudoso abraço.
ResponderExcluir