quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Não dá para fechar

 

             

Vivo no mesmo endereço há quarenta e dois anos. O bairro passou por muitas mudanças, existe uma que pode passar despercebida para quem apenas passa por ele. Ou morou por pouco tempo. É o fechamento de pequenos negócios.

Lembro quando começaram a construir grandes centros comerciais. Alguns duvidavam que poderiam dar certo. O Iguatemi, por exemplo, foi construído em área afastada. Uma das perguntas de então: “Quem irá até lá para comprar alguma coisa?”. No entanto, novos hábitos foram sendo construídos pouco a pouco e a população foi redirecionada. Com novos atrativos, muitos pequenos negócios de calçada minguaram e foram obrigados a fechar. As aglomerações de lojas sob o mesmo teto prosperaram e continuam a prosperar. Um lento, irracional e inexorável fluxo para um comércio mais longe de casa. São chamados de grandes templos do consumo. Pode-se comprar e consumir de tudo naqueles nichos requintados de mercadorias, ao abrigo das intempéries e com segurança. Tudo brilha, tudo é limpo, os aromas das lojas de perfumaria e cosméticos envolvem quem transita pelos corredores ladeados de vitrines com mil tentações para quem pode e não pode comprar. Tudo aberto em horários estendidos, até à noite, até nos finais de semana.  Um convite sedutor que faz confundir desejo com utilidade. Lugar fértil para a impotência e a inveja de quem não tem dinheiro.

Eu gostava de passar pelo mercadinho na volta da academia. Havia sempre frutas da estação compradas de fornecedores próximos. Lembro também da padaria onde ofereciam um bufê de comidas para levar. Na volta de meu trabalho, passava por ali e levava para casa a refeição. Um alívio diante da impossibilidade de cozinhar todo dia para a família. Muito mais longe no tempo, lembro de uma loja de tecidos e de todo tipo de artigos para costura e bordados. Encontrava-se de tudo, não precisava ir ao centro, na matriz. E, uns cinquenta metros distante, uma bela e sortida loja de artigos para presente, encontrava-se algo de todo preço e tudo era muito bonito. Esta, não fechou, mas transferiu-se para um espaço menor e próximo, e nunca mais foi a mesma. Foi substituindo a mercadoria por uma miríade de quinquilharias vindas da China. A senhora mais velha e sua filha continuaram a atender até venderem o negócio para alguém de fora.

E o caso da loja de chás! Encontrava-se a espécie mais inusitada, oferecida com uma encantadora explicação de sua origem e de suas propriedades pela senhora dona do negócio. Em embalagens especiais, vendido em gramas, levava-se junto um aroma saboroso. Entrar ali era um encanto, era viver um ritual que nos envolvia em momentos de estar num outro mundo. Esta loja fez o movimento inverso, saiu de centro comercial para aquela loja de calçada. Mas não sobreviveu. O afã do mundo de hoje foi mais forte que os atrativos do ritmo e prazer que ela oferecia.

Os locais fechados reabrem com novos negócios, duram algum tempo e depois fecham de novo.

Há alguns anos, havia um dia da semana, penso que era terça-feira,  no qual uma fila se formava junto à sala na lateral da igreja e se estendia até a calçada. Era o dia do sopão para os sem teto, predominância de homens, alguns velhos, todos maltratados pelas ruas, sujos, roupas gastas, deixando um cheiro desagradável no entorno. A atividade era exercida por paroquianos voluntários. Algumas vozes se manifestavam contra aquele espetáculo no bairro de classe média alta. O pároco exercia suas funções há muitos anos e sua autoridade prevalecia, mas aposentou-se. Outro sacerdote ouviu os clamores dos que frequentavam a missa dominical. Fechou o espaço. Aqueles serem humanos desprezados devem ter encontrado outro local para saciar a fome um dia por semana. Ou não.   

Na mesma época, a algumas quadras daquela paróquia, a prefeitura tentou utilizar um pequeno sobrado como local de acolhimento de sem teto. Desta vez não havia nem o velho pároco a defender a ideia. A experiência durou poucas semanas. Mendigos não foram bem vindos. Enfeavam as ruas bem cuidadas e ladeadas de verde. O local fechou. As mesmas vozes vigilantes deram a sugestão de algum bairro  distante, afinal, não dava para misturar os problemas deles com as necessidades da região.

Então chegou o tempo da pandemia.

E chegou a vez dela. No outro dia, passei por ali e estava tudo escuro, mas os móveis estavam dentro. Pensei que abririam mais tarde, afinal, era fevereiro e o movimento é tradicionalmente mais escasso. A padaria tinha começado a funcionar cerca de um ano antes. Eu gostava dos seus pães, dos sonhos, do bolo de iogurte.

Antes, fechou a pequena livraria do bairro, fechou a pequena lavanderia, fechou a pequena loja de roupas, fechou a pequena farmácia (até a farmácia, lugar mais procurado hoje em dia), fechou a pequena loja, antigamente chamada de 1,99. Fechou. Fechou. Fechou. Palavra pesada, vestida de fracasso. Quando tantos pequenos negócios fecham, a questão do mérito ou demérito individual não se sustenta. A gravidade está na falta de reservas do pequeno empreendedor, da situação limite em que ele logo vai se encontrar, da dificuldade de sustento, da dificuldade de recuperação e de novas oportunidades. Aí entra o papel do Estado, que, atualmente, está encolhendo cada vez mais e deixa ao desabrigo os que mais necessitam que ele cumpra seu papel.

Há outro movimento mais trágico que ultrapassa o bairro e a maioria da população não toma conhecimento. Ele é provocado pelo Senado, pela Câmara de deputados, pelas Assembleias estaduais e municipais. Não freiam o “presidente” da República, nem os governadores aliados no lamaçal de promiscuidade em que jogaram o país. Estes que deveriam ser os representantes de toda a sociedade, estão acabando com direitos dos trabalhadores, das minorias, das verbas para a educação, para a cultura, para a saúde. Desmontam uma rede de proteção social construída ao longo dos anos e com muitas lutas. Defendem portas abertas para interesses de poucos. Continuam a fechar portas para quem mais precisa, mas toda a população sente de alguma forma. A ponta do iceberg são as crianças, as mulheres e os homens que voltaram para as sinaleiras, junto aos supermercados ou outros pontos onde imaginam conseguir algum auxílio.

Desta forma, longe dos olhos da maioria, o Estado está desobrigando-se cada vez mais de suas funções, com a cumplicidade de políticos a serviço de particulares e de grandes grupos econômicos.  Só porque o Estado é sempre necessário para que uns poucos continuem no poder é que ele não “fecha”.

O desafio para quem tem a visão do que está acontecendo é furar as barreiras da desinformação e da cooptação por falsos profetas. Uma disputa que continuará árdua e longa. Cabe a cada sujeito consciente da situação fazer o que pode, mesmo que se veja como uma formiga no meio da imundície.  A mídia alternativa é quem continua a manter as portas abertas para a resistência das instituições e quem dentro delas continua a lutar.

            Não dá para fechar os olhos, os ouvidos e a boca para a tragédia de nosso país.