quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Paradoxos

 

O tempo passa devagar quando somos jovens Às vezes, muito, muito devagar. Mas quanto mais velhos ficamos, mais depressa ele anda. Estas ideias alimentam muitas conversas. Também fazem lembrar teorias de cientistas e filósofos. A questão do tempo é um desafio para todos, teóricos ou não.

Para ficar apenas no círculo cotidiano, quem não  lembra de ter dito ou ouvido: Deixa o tempo fazer seu trabalho. Com o tempo tudo passa. O tempo cura qualquer ferida. É como se pudéssemos deixar alguém nos inocular um remédio muito poderoso, e bastasse ficar à espera. No entanto, o tempo é uma abstração tão enigmática que fica difícil entender até uma simples experiência de Einstein quando nos explica a sua relatividade através da observação de um objeto no interior de um trem em movimento. Ou então, viajar pela galáxia retardaria o envelhecimento do ser humano. O tempo no espaço não seria o mesmo da Terra. Questões que nos dizem ser o tempo uma categoria com múltiplas explicações.

Permanecendo na análise do que acontece na nossa sociedade, podemos afirmar que temos a percepção do tempo como em contínua aceleração. Fazemos mais atividades num dia do que faziam nossos antepassados. Conseguimos transpor em poucas horas distâncias inimagináveis há algumas dezenas de anos. Conseguimos saber o que acontece do outro lado do mundo em questão de minutos. Mesmo assim, as diferentes sociedades continuam obrigando grande parte do povo à imobilidade social, com acesso restrito à escola, à cultura, a viagens, ao consumo. Um tempo de espera e de não realização. Por outro lado, a escassez e as guerras obrigam aglomerações inteiras ao êxodo, movimento involuntário e predador.

Eis que, neste ano, a pandemia obrigou todos à imobilidade e distanciamento, todos foram igualados. E o tempo mudou de figura violentamente. No entanto, tempo e movimento continuam sentidos de forma desigual, desta vez, conforme as condições do distanciamento/isolamento. Ficar em casa, para quem mora precariamente, é duplamente punitivo. Sair para o trabalho ou simplesmente andar por aí, pode oferecer um tempo de estar num lugar melhor. Um exemplo visível é um passeio pelo shopping num dia escaldante. É o paraíso para quem não tem sequer um ventilador. Para quem pode armazenar comida e para quem tem que providenciá-la dia a dia, um fazer tremendamente diverso. Para quem tem condições de se proteger, pode ser apenas um tempo duro que vai passar.

Li, não sei quando, nem em que contexto, que não podemos estar distraídos. Hoje, penso que não distrair-se é dar atenção para o que faz, ou não, a vida valer a pena. Não sei se esta era a ideia de quem escreveu a frase, mas encaixa-se com harmonia neste tempo em que nossos movimentos foram cerceados bruscamente. Instalou-se um tempo de espera, um tempo de balanço sobre as reais necessidades para se ter uma vida digna. Um tempo de muita atenção.

Não distrair-se, ou prestar atenção, pode ter o sentido de desacelerar o tempo e inverter a rota. Ao menos para quem tem a sobrevivência garantida. Mesmo para estes, a garantia é ilusória na perspectiva histórica, porque nosso planeta está pedindo socorro, está sendo destruído de forma acelerada. E, de alguma maneira, todos sentem seus efeitos. Os avisos têm sido repetidos por cientistas de vários países, mas ignorados por quem detém poder econômico e o poder político. Talvez, o maior paradoxo do nosso tempo seja termos a capacidade de produzir tanta riqueza e tanta destruição simultâneas. Talvez nem seja um paradoxo. Há quem afirme ser uma equação necessária.

Na verdade, micromundos formam-se com novas alternativas de consumo e de relações sociais capilares. O modo de viver a natureza, e de usufrui-la com gratidão como muitos ancestrais, está sendo recuperada. Um tempo fora dos eixos vai se conectando à margem da exploração destrutiva da terra e do poder que continua a explorá-la. Um tempo cuja medida não é a aceleração, mas a solidariedade e a resistência, que desafia a ordem estabelecida. Talvez sejam estes micromundos a salvação do planeta. Não há tempo a perder. Tempo de acordar, de não se distrair.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Esquecimento é derrota

 


Chega ao fim mais um ano, um ano de pandemia, um ano letivo. Como serão as férias?

Tenho acompanhado com uma tristeza sem fim o que está acontecendo com o sistema de ensino no país e, especificamente, com a escola pública estadual onde fiz minha carreira. Só depois, fui para o ensino universitário. Outras notícias são igualmente avassaladoras, mas as referentes à escola pública estadual e municipal – responsáveis pela entrada das crianças e jovens que não podem ir para uma escola particular –, são angustiantes. Não são poucos os estudos que comprovam a importância da escola para as camadas excluídas da sociedade. Além do seu papel central de oferecer e construir conhecimentos, para muitos alunos, ela foi e continua sendo o único lugar de socialização protegida fora de casa. Mas há mais. Para muitos, é garantia de uma refeição decente. Apesar de todos os limites que sabemos existirem, ela é fundamental na vida de boa parte da população.

            A escola particular para a camada da população que pode pagar, procura conectar-se às mudanças que têm acontecido de forma acelerada na sociedade nos últimos cinquenta anos. A escola pública segue aos trancos. Encontramos desinteresse e omissão do poder público e esforços cada vez mais extenuantes por parte dos profissionais dentro da escola para aproximar-se desta atualização. São atos de heroísmo de alguns de seus professores e funcionários.

A ideia de escola para todos, da escola como alicerce para o futuro do país, da escola como prioridade para uma sociedade mais equânime são todos princípios abandonados há muito tempo. A diferença está em que, agora, foram abandonados até nos discursos oficiais. O descaso com ela está escancarado. Sem a mínima vergonha. Com esse abandono, vê-se morrer a esperança de que novas gerações consigam superar-se e tenham condições de vida dignas. A escola pública tem sido tratada, nos últimos anos, apenas como um problema a gerenciar diante da “falta de “verbas”. Mantra para a venda do patrimônio público nos três níveis da administração pública. Argumento que encobre interesses de grupos  particulares.

Na primeira década deste século, tivemos um período em que sonhamos e vimos melhoras acontecerem. O Ministério da Educação foi reconfigurando a legislação a favor de uma escola básica plural e com recursos. Projetos para bibliotecas, infraestrutura, laboratórios, salários dos professores. Enfim, cuidados com a escola como um todo, como era necessários fazê-lo. Muito ainda havia a ser feito. Eis que o sonho ampliou-se. A descoberta de enormes jazidas de petróleo, o pré-sal, permitiu prever uma enorme fonte de recursos para a educação. Enfim, o país destinaria parte de sua arrecadação a um projeto grandioso. O país distribuiria ganhos para por em prática o que nações, hoje desenvolvidas, haviam feito para tornar-se o que são atualmente. Seriam recursos maciços no sistema educacional. Todo professor deve se lembrar do slogan adotado na época: Pátria Educadora.

O poder econômico daqui e de além fronteiras não permitiu, com a conivência da parte podre da política nativa. Foi dado um golpe na política, destituída a Presidenta eleita e em poucos anos os direitos sociais foram sendo retirados num retrocesso de décadas. A educação foi atropelada sem piedade, os ataques ao sistema de ensino da base às universidades se espalharam de forma tão virulenta que deixou todos atônitos e incrédulos. O pesadelo continua e a sanha da “Casa grande”, para usar a expressão de Gilberto Freire, continua feroz e não dá trégua. Leva de roldão toda manifestação das ciências e das artes, invadindo grosseiramente as instituições e tomando de assalto os cargos de comando para garantir a sua devastação.

Chegamos em 2020. Todos sabem, ou deveriam saber, que as camadas desprotegidas sofrem muito mais com o que está acontecendo. A escola pública também. Sem condições de atender adequadamente seus alunos on-line, também não lhe são destinados recursos para receber com segurança seus alunos em sistema presencial. E mais, uma guerra de informações do governo, seu gestor, coloca dúvidas sobre o desejo de trabalhar dos próprios professores e dirigentes escolares. Mais uma vez, resta a rua para muitas crianças e jovens.

O que transmite a força para continuar a acreditar na mudança de rota, por longínquo que seja o dia, são as ações de gente lutadora, que não aceita os desmandos e as injustiças. Algumas são visíveis, outras não. Para quem não está mais em linha de frente, uma das formas de continuar junto, de se solidarizar,  é  servir-se da palavra para que nada seja esquecido. Registrar e denunciar são uma das formas de enfrentar a impunidade hoje robusta. É preciso fazê-lo sem descanso. É preciso lembrar. A lembrança fortalece outras formas de lutas.

O esquecimento seria a maior derrota.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Cactos

 

            Uma manta espessa sobre o solo pedregoso entremeada de ramos secos, arbustos e árvores baixas, tudo da mesma cor bege amarelada a perder de vista ao redor do estreito caminho. Vi Riobaldo e Diadorim rastejando no solo protegidos apenas pelo couro de suas roupas, desvencilhando-se das espetadas inevitáveis, rosto quase tocando a poeira a dificultar a respiração que também deveria ser silenciosa, cena de páginas lidas muito tempo atrás. Esta primeira visão ao vivo do sertão do Nordeste se sobrepôs às imagens da literatura e permanece intacta. Fiquei estupefata quando o guia nos perguntou: “Vocês acham que tudo isso está morto?”. Sem esperar resposta, ele seguiu: “Olhem aqui” e nos mostrou minúsculas folhas verdes esparsas, despontando nas junções dos galhos secos, invisíveis a olhos desacostumados. “Está tudo vivo” disse, enquanto falava da chuva abundante e extensa de uma semana atrás. “A natureza é paciente e renasce sempre”.

Continuou contando com paixão como ela era generosa, jamais deixava de gerar vida, atendia os que permaneciam teimosos ali, e não tardava em recompensá-los após qualquer água que recebesse. “Brotar era a resposta daquela vegetação áspera, seca, sem brilho, espinhosa e arisca ao contato humano” disse. Consegui aproximar-me do sentido das palavras de Guimarães Rosa, do que deveriam ser “vidas secas” de Graciliano Ramos, das pinturas de Portinari e Tarsila do Amaral. O tom apaixonado do guia ligou-me  àquela terra muitas vezes incompreendida. Ele desfiou histórias de vida de um povo que ama sua terra e seu modo de ser é lutar por ela. Mesmo quando tem que se distanciar dali.

            Outra visão nos esperava junto a um local hoje preservado. Uma pequena encosta, um arranjo de enormes pedras e o testemunho de uma antiga passagem de indígenas por aquela região. Andou-se entre um conjunto de cactos e vegetação de pequeno porte cuja serventia era explicada com encanto e reverência. Tudo ali tinha uma história e não podia ser arrancado sem razão. Nada de carregar uma lembrança dali. Só a necessidade de cura permitia retirar alguma folha ou ramo. A natureza era reverenciada.

Estas lembranças vêm em meu socorro porque tenho buscado motivos para continuar a ter esperanças, continuar a acalentar meus sonhos,  continuar a acreditar que um mundo melhor é possível. Continuar a acreditar.  Palavras amigas, doses de sabedoria ancestral, experiências vividas e compartilhadas, um arsenal de imagens e palavras já chegaram até mim. No entanto, os sistemáticos, ininterruptos e cruéis acontecimentos que ceifam vidas sem piedade têm abalado minhas esperanças sobre o futuro. Dói muito presenciar tudo isso. Posso fazer pouco agora. Faço. Várias vezes, pensei em desistir. Apresenta-se o vazio.

Eis que voltei a prestar atenção num vaso com alguns exemplares de cactos. Sua beleza espinhosa trouxe-me o Sertão de volta. Senti-me insignificante e covarde. Minha condição de isolamento físico criou o hábito de acercar-me daquelas pequenas plantas toda vez que desanimo. Elas me conectam a uma resistência distante, mas também próxima, tramada pelo país afora em lugares que conheço e que desconheço, onde a palavra desistir não existe, porque ocupada por resistir. Desejo espelhar-me nos pequenos cactos. Leio neles a mensagem: resiste.