sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Apenas curativos


 

            A ferida se abre cada vez que vejo um carroceiro nas ruas da cidade cheias de veículos. Não sei em que parte do corpo ela está, sei que dói. E a dor vem junto com imagens de escravos carregando pedras, puxando cordas, arrastando-se até o último suspiro. Nenhum sinal deles nas obras grandiosas que ergueram. Pirâmides, templos, palácios, aquedutos, estradas. Uma força extraída de músculos e sangue com a autoridade e indiferença que o poder outorga sobre o outro. Dói, porque passam por mim e tudo está em ordem. É assim mesmo no século XXI. A diferença está que estes não constroem obras, mas limpam a cidade do lixo que cada um de nós faz. Eles também desparecem. E nada.

Não lembro de ter visto o mesmo carroceiro duas vezes ao longo dos anos que presto atenção a eles. Cheguei a imaginar que eles não ficam muito tempo neste trabalho, que conseguem arrumar alguma coisa melhor para fazer. Mas sei ser meu desejo a falar. São substituídos por outros. Sempre há outros de sobra.

Hoje é diverso, dizem. O trabalhador pode escolher o serviço que quiser, se não gostar de uma coisa, pode fazer outra.  Alguns não o fazem por incompetência ou preguiça. O carroceiro é carroceiro, porque quer. Mas são livres. Livres. Ouvi esta afirmação muitas vezes no discurso cotidiano Vejo homens substituindo cavalos na tração de seus carrinhos ou carroças, porque era indigno o tratamento dado aos animais, diziam os defensores destes últimos. E eles foram livres para substituir o animal. É obsceno invocar a palavra liberdade.

Então, penso que a ferida que dói se chame impotência. Ela não se cura com a caridade. Precisa de algo muito maior. Solidariedade no olhar, alcançar-lhe um dinheiro pedido, denunciar sobre sua situação são todos apenas curativos.

Tenho visto novos carroceiros, ainda não muito sacrificados pelas ruas. É possível constatar pela pele ainda livre de estragos fundos e pelas roupas em condições decentes. E o olhar vivo à procura de material que lhe sirva, identificar o saco de lixo promissor, a distância necessária a percorrer, um ou outro gesto amigo, a indiferença, a hostilidade. É o olhar que mais nos dá a medida do tempo nas ruas, porque ele vai se encolhendo e perdendo o brilho, a experiência da busca torna-o raso. A rua vai lhe desenhando também as marcas do rosto e no corpo.  Nem precisava da notícia de que o número deles aumentou em 21% nos últimos meses. Homens mais jovens estão nesta cifra.

Um dia, um homem me pediu um trocado para comer. Alcanço algumas moedas sempre com vontade de sair correndo depois. Mas ele começou a falar da filha. E o olhar raso ficou profundo. Ela estava terminando o segundo grau, ele tinha conseguido ajudar, orgulhoso de si. Não consegui falar nada, a garganta fechada, feliz por ele, imaginando onde e como conseguira aquela façanha. Vieram-me perguntas e dúvidas sobre o futuro desta mocinha, senti vergonha de não compartilhar suas esperanças, por conhecer o mundo de um outro lugar. Desejei-lhe sorte.

Em outro momento, ouvi a pergunta: “Por que querem nos tirar das ruas, se ajudamos a limpar a cidade?” A resposta oficial seria uma estupidez e a verdadeira, uma agressão. Não conseguiria explicar em poucas palavras. Então resolvi dizer-lhe que ainda havia políticos que se interessavam por eles, estavam cuidando da lei. Eu havia assinado um abaixo-assinado a favor deles. Não seriam tirados das ruas.

Outro modo de produção e de consumo é a questão seminal. E carregar lixo seco pelas ruas deixaria de ser sequer uma questão. Como poderia falar-lhes sobre isto?

Enquanto a impotência continua a falar mais alto, resolvo ter algum dinheiro sempre à mão, quando saio à rua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                               Em geral são homens que arrastam a carga. Às vezes, é acompanhado pela mulher. Às vezes tem criança junto. Nos últimos tempos, vi homens jovens, ainda não tão maltratados, nem no físico, nem nas roupas. Poderiam ser sujeitos indo para o trabalho qualquer. Não que puxar uma carroça para ir em busca de materiais recicláveis não seja um trabalho. Penso num emprego fixo, lugar certo, vínculos empregatícios, que requer uma aparência dentro de certas normas.

 

Para que serve viver uma vida assim? Será a espécie humana tão cruel a ponto de gerar crianças do mesmo modo, mas de modo tão diferente negar-lhes a sua plena realização?

O carroceiro odeia a morte? Na sua ignorância de mundo ou extremo conhecimento, porque mergulhado nele todos os segundo que vive, segue puxando o peso que o mantém vivo.

sábado, 12 de setembro de 2020

Cavalos marinhos

 

Sonhei com a visão do nascimento dos cavalos marinhos. Centenas deles,  poucos no início, depois uma erupção vulcânica sai da barriga do pai. O vivido atualmente ultrapassou o limite do suportável. O sonho deve ter sido eco de meu desejo de outro mundo. É belíssimo vê-los deslizar na água que os recebe prontos a viver no seu habitat, alguns por pouco tempo. Respiro devagar, não quero sair deste lugar de harmonia.  São os machos que gestam os óvulos da fêmea. Sabor de resgate, de salvação, está tudo certo, enfim, o mundo entrou nos eixos. Há outros motivos de encantamento diante da vida natural. Existem os dragões-barbudos, um tipo de pequeno lagarto que pode mudar de sexo quando exposto a altas temperaturas. Hoje, encontrado também como animal de estimação. E os peixes-palhaço (Nemo) com seu cuidado especial pelas fêmeas, acompanhadas por vários machos e, quando uma morre, um deles se transforma em fêmea.  Existem também os chocos, os labridae, os ariolimax, para citar alguns exemplos de animais com transformações na sua sexualidade.

A natureza cada vez mais distante para quem vive numa grande cidade como eu. Mais ainda, num apartamento e durante a pandemia. Felizmente, posso contemplar algum verde de minhas janelas. Sou agradecida por isto.

Natureza que oferece flores bissexuais, femininas e masculinas na cobertura da crosta terrestre grávida de enorme variedade de espécies. Muitas delas, queimando no inferno da devastação da Amazônia com o apoio do atual governo. Volto às plantas e lembro que ainda não chegou a estação da florescência do jacarandá. Por aqui, existe o jacarandá-roxo, responsável pelo lilás das calçadas todos os anos na primavera. Mas aprendi que em algum lugar crescem também: jacarandá-do-pará, jacarandá-amarelo, jacarandá-do-cerrado, jacarandá-paulista. Imagino-os espalhados pelas matas ainda não destruídas, mas também ameaçadas como quase tudo neste país.  Há também a acácia, o pinus, o ipê (há manchas rosa e amarelas ao redor de onde moro), a palmeira, a canela, para ficar com apenas algumas espécies.

E lembrei também das leguminosas, das verduras, dos grãos e das frutas.

Um mundo torturado pelo modo como os latifúndios passaram a explorar o campo. Monoculturas e agrotóxicos destruindo o equilíbrio existente na multiplicidade de plantas.

            Volto ao mundo dos humanos onde vivo e  a seu insano desprezo pela natureza. O mundo autofágico onde o presidente do país declara: homem é homem, mulher é mulher; bandido bom é bandido morto; o coronavírus é uma gripezinha. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, decreta que menina usa rosa e menino usa azul; e a gravidez de uma menina estuprada não pode ser interrompida; ignora o feminicídio existente no país; acusa professores de ensinarem as crianças a “virarem” gays; e por aí vai a lista de horrores. O ministro do meio-ambiente compactua com a devastação da Amazônia, declarando que o momento da pandemia é o de passar a boiada (leis que liberam a continuidade do seu aniquilamento), onde os indígenas remanescentes ainda convivem em harmonia com a natureza e são dizimados em nome de grotescas mentiras. O ministro da Fazenda manda vender as estatais a troco de bananas. A educação, a ciência e a cultura são atacadas de engenhosas maneiras.

Uma guerra diuturna e sem pausas. Uma força voraz para dobrar, emparelhar, domar o que foi classificado como diferente daquilo que o governo do país alçou como verdade. As denúncias existem, e muitas, contra o projeto macabro de poder que continua a avançar. Um esforço enorme de muitas fontes. E vão se multiplicando, muitas vezes carregadas de esperança. Como uma parte dos filhotes dos cavalos marinhos, no entanto, muitas morrem. Ou são esquecidas, ou são escrachadas pelo aplauso dos que, apesar de tudo, apoiam a barbárie como se lhes tivessem instalado um chip no cérebro. Tudo isso, apesar da luta que uma minoria dentro da política continua a enfrentar e sem a qual tudo estaria muito pior. Luta de David contra Golias. Claro que participo da luta junto a David, mas como não cair no desânimo e na impotência, ainda mais em tempos de isolamento?

Um dia, ouvi alguém dizer que o pobre não sabe o que é melancolia, não tem tempo para isso, gasta seu tempo para sobreviver. É uma das razões pela qual sinto vergonha de me lamentar. Tenho minha sobrevivência e isolamento garantidos, o que é muito nos dias de hoje. Do meu isolamento, então, também procuro a palavra para denunciar os horrores que acontecem todo o dia. Mas, muitas vezes, ela se esconde, porque estou cheia de raiva e de incredulidade. Por isso, refugio-me na potência de vida da natureza simbolizada no nascimento dos cavalos marinhos. Mas são momentos de trégua, de reabastecimento de energia, é preciso continuar.

            Evito o imobilismo de diferentes formas, como muitos de meus amigos. Uma delas é ampliar relações cooperativas, privilegiando o pequeno e o próximo:  produtor rural,  loja,  livraria,  restaurante, que  se reinventam para vir até a nossa casa. É um movimento vital de se aproximar do outro. Um movimento para continuar pós-pandemia. Talvez, isto seja uma das formas de microrrevoluções apontadas por alguns autores. Talvez, isto liberte a palavra engasgada e, com ela, novas energias para seguir adiante. Talvez, isto ajude a subir a montanha como Sísifo, não importa quantas vezes fomos derrubados. Talvez, isto se conecte com a macropolítica. Talvez.