A
ferida se abre cada vez que vejo um carroceiro nas ruas da cidade cheias de
veículos. Não sei em que parte do corpo ela está, sei que dói. E a dor vem
junto com imagens de escravos carregando pedras, puxando cordas, arrastando-se
até o último suspiro. Nenhum sinal deles nas obras grandiosas que ergueram.
Pirâmides, templos, palácios, aquedutos, estradas. Uma força extraída de
músculos e sangue com a autoridade e indiferença que o poder outorga sobre o
outro. Dói, porque passam por mim e tudo está em ordem. É assim mesmo no século
XXI. A diferença está que estes não constroem obras, mas limpam a cidade do
lixo que cada um de nós faz. Eles também desparecem. E nada.
Não lembro de
ter visto o mesmo carroceiro duas vezes ao longo dos anos que presto atenção a
eles. Cheguei a imaginar que eles não ficam muito tempo neste trabalho, que
conseguem arrumar alguma coisa melhor para fazer. Mas sei ser meu desejo a falar.
São substituídos por outros. Sempre há outros de sobra.
Hoje é diverso,
dizem. O trabalhador pode escolher o serviço que quiser, se não gostar de uma
coisa, pode fazer outra. Alguns não o
fazem por incompetência ou preguiça. O carroceiro é carroceiro, porque quer. Mas
são livres. Livres. Ouvi esta afirmação muitas vezes no discurso cotidiano Vejo
homens substituindo cavalos na tração de seus carrinhos ou carroças, porque era
indigno o tratamento dado aos animais, diziam os defensores destes últimos. E eles
foram livres para substituir o animal. É obsceno invocar a palavra liberdade.
Então, penso que
a ferida que dói se chame impotência. Ela não se cura com a caridade. Precisa
de algo muito maior. Solidariedade no olhar, alcançar-lhe um dinheiro pedido,
denunciar sobre sua situação são todos apenas curativos.
Tenho visto
novos carroceiros, ainda não muito sacrificados pelas ruas. É possível
constatar pela pele ainda livre de estragos fundos e pelas roupas em condições
decentes. E o olhar vivo à procura de material que lhe sirva, identificar o
saco de lixo promissor, a distância necessária a percorrer, um ou outro gesto
amigo, a indiferença, a hostilidade. É o olhar que mais nos dá a medida do
tempo nas ruas, porque ele vai se encolhendo e perdendo o brilho, a experiência
da busca torna-o raso. A rua vai lhe desenhando também as marcas do rosto e no
corpo. Nem precisava da notícia de que o
número deles aumentou em 21% nos últimos meses. Homens mais jovens estão nesta
cifra.
Um dia, um homem
me pediu um trocado para comer. Alcanço algumas moedas sempre com vontade de
sair correndo depois. Mas ele começou a falar da filha. E o olhar raso ficou
profundo. Ela estava terminando o segundo grau, ele tinha conseguido ajudar,
orgulhoso de si. Não consegui falar nada, a garganta fechada, feliz por ele,
imaginando onde e como conseguira aquela façanha. Vieram-me perguntas e dúvidas
sobre o futuro desta mocinha, senti vergonha de não compartilhar suas
esperanças, por conhecer o mundo de um outro lugar. Desejei-lhe sorte.
Em outro
momento, ouvi a pergunta: “Por que querem nos tirar das ruas, se ajudamos a
limpar a cidade?” A resposta oficial seria uma estupidez e a verdadeira, uma
agressão. Não conseguiria explicar em poucas palavras. Então resolvi dizer-lhe
que ainda havia políticos que se interessavam por eles, estavam cuidando da
lei. Eu havia assinado um abaixo-assinado a favor deles. Não seriam tirados das
ruas.
Outro modo de
produção e de consumo é a questão seminal. E carregar lixo seco pelas ruas deixaria
de ser sequer uma questão. Como poderia falar-lhes sobre isto?
Enquanto a
impotência continua a falar mais alto, resolvo ter algum dinheiro sempre à mão,
quando saio à rua.
Em
geral são homens que arrastam a carga. Às vezes, é acompanhado pela mulher. Às
vezes tem criança junto. Nos últimos tempos, vi homens jovens, ainda não tão
maltratados, nem no físico, nem nas roupas. Poderiam ser sujeitos indo para o
trabalho qualquer. Não que puxar uma carroça para ir em busca de materiais
recicláveis não seja um trabalho. Penso num emprego fixo, lugar certo, vínculos
empregatícios, que requer uma aparência dentro de certas normas.
Para que serve viver uma vida assim? Será a espécie humana
tão cruel a ponto de gerar crianças do mesmo modo, mas de modo tão diferente
negar-lhes a sua plena realização?
O carroceiro odeia a morte? Na sua ignorância de mundo ou
extremo conhecimento, porque mergulhado nele todos os segundo que vive, segue
puxando o peso que o mantém vivo.