domingo, 12 de julho de 2020

Não quero esquecer



Perdi a conta de quantas vezes tive esta sensação de incredulidade nos últimos quatro  ou cinco anos, especialmente nos últimos dezoito meses. A cada manhã faço a mesma pergunta: este pesadelo não terminou ainda?
            Desta vez, foram as palavras do novo ministro (minúsculo) da Educação no seu discurso de posse. A máxima deste senhor é de que é salutar infringir castigo físico a uma criança para corrigi-la. Mais ainda, ressaltou que ela precisa sentir dor para ter resultado neste ato de educar. E ainda, porque ela é incapaz de entender argumentos para ser convencida de algo. Isto é dito com o respaldo do presidente (também minúsculo) do país. Aquele senhor é religioso, foi reitor de universidade, professor, tem alguma carreira acadêmica.
            Não busco teorias para contrapor, existem muitas. Prefiro lembrar minha história, vasculhar nas minhas lembranças, o que ficou marcado.  Meus pais foram de uma geração em que bater nos filhos diante de uma desobediência era  inquestionável. Nunca sofri uma surra. Nas escolas em que estudei, o castigo físico jamais foi uma questão. Imagino que seria avaliada como uma cidadã de bem pelo atual ministro. Não me importo com a sua possível avaliação, apenas um raciocínio seguindo suas convicções.
            Perseguem-me imagens da situação das escolas públicas (deixarei de lado as particulares) sofrendo um longo e incessante processo de desestruturação nos seus recursos e dos seus professores. Recordo alguns testemunhos dos últimos anos sobre as dificuldades com alunos em situação de risco na própria família. Situação esta que deve ser vista a partir de um problema social e não como julgamento das ações dos pais. Recordo lamentos, porque algumas crianças só conheciam a linguagem da violência e o diálogo era muito difícil de estabelecer, um gesto de compreensão por parte do adulto era visto como fraqueza, a lei do enfrentamento estava arraigada como única forma de defesa.
Recordo da agitação das crianças recebidas por uma ong com a qual pude colaborar por um tempo. As questões que os educadores se faziam diante da dificuldade de estabelecer relações de confiança e de entendimento sobre o que elas mais necessitavam. Ali também, crianças em situação de risco e com dificuldades de concentração e aprendizagem.
Recordo histórias de pais desesperados por não conseguirem controlar os filhos e usarem a violência física para não os deixar cair nas mãos de traficantes. Única forma que viam para encaminhá-los para o caminho do bem. E não entendiam seu fracasso. Há incontáveis registros de trajetórias semelhantes. E outras tantas não registradas.
Recordo relatos sobre o modo violento com que são tratados jovens infratores reclusos. Única forma encontrada para controlá-los. Jamais vou esquecer o que uma assistente social falou um dia sobre a situação presenciada: “Aqueles jovens vivem no inferno”.
E o ministro da educação vem falar de aplicação de castigo físico para ensinar? Justo no lugar onde deveriam ser feitos os questionamentos sobre o que está ocorrendo com a educação. Por que não se perguntar sobre o mecanismo de produção da violência na nossa sociedade? Qual a origem? Como a violência perpassa todas as instituições, inclusive a escola? O que deveria ser feito para interromper esta máquina mortífera que é a violência? Ocorreu-me perguntar se ele foi educado da maneira que prega. Se acha que deu certo. E sobre o seu conceito de “dar certo”.
Não quero esquecer o discurso do ministro. Não quero que se torne mais uma sandice por parte de quem faz parte do governo do país e a ser relativizada. Quero ligar-me a narrativas que ajudem a encontrar o que de melhor há no ser humano. Quero reafirmar os caminhos da educação para produção de um ser humano capaz de ser poeta, cientista, astronauta, pai e mãe capazes de proteger seus filhos. Quero enaltecer os dizeres de poeta das ruas que pintava nos muros: “Gentileza gera gentileza”