Os raios de sol que alcançavam
a parede sul se encurtaram com o fim do verão. O outono chegou. Então, levei o
vaso para o lado norte onde o sol ainda chega a entrar na sala. O verde do
manjericão e da hortelã ficou mais vivo, e o perfume das folhas se espalha por
ali.
Abril se foi. Neste mês,
a sombra do espigão erguido a alguns metros começou a substituir a luz que
chegava durante todo o dia. O tempo de sombra do edifício vai aumentando à
medida que o outono avança. Maio também se foi. Estamos próximos do ápice: dia
de solstício de inverno. E também do tamanho da sombra no nosso edifício. O sol
nos alcança um tempo antes e um tempo depois de fazer sua rota atrás da enorme construção.
Gosto de pensar que ele
parece pedir desculpas por nos abandonar justamente quando mais precisamos dele,
enquanto ilumina o tempo todo aquele espigão. Mas não foi ele a decidir isso. A
sua rota continua a mesma, derramando luz e calor indistintamente para todos. A
sombra ficou ainda pior para as casas que ainda existem próximas e do lado sul.
Elas ficam sem sol direto todo o inverno.
Gosto de pensar que vai
começar o período em que o sol volta a iluminar nosso edifício um pouco mais a
cada dia. No início nem se nota. É pouco a pouco, como quando o fomos perdendo.
É todo ano assim. Ele volta sempre.
Não deveria ser assim. O
espigão não seguiu o plano diretor na época de sua construção, tomou caminhos
estranhos, embora legais. Com isso, privatizou-se a luz solar neste recorte da
cidade.
Lembro que um grupo de
moradores do bairro tentou bloquear a construção pelas vias legais, mas já era
tarde. O mais triste é que muitos outros não quiseram participar da denúncia,
nem de manifestações por escrito, nem de caminhadas pelas ruas próximas. Talvez
uma grande mobilização pudesse ter feito a diferença. Talvez. Fica o fato de
que a maioria ficou isolada em sua indiferença. Depois do acontecido ficaram
queixas e a sensação de impotência. E a descrença em tudo.
Existem muitos outros
fatos dessa natureza pela cidade. São exemplos de como funciona cada um ficar
resguardado no seu canto. Os motivos devem ser vários, mas acredito que o
principal deve ser o medo do enfrentamento. Medo que advém de uma visão
individual do que seja lutar por alguma coisa. A história nos mostra que os
avanços sociais são resultados de muitas lutas. Muitas derrotas e algumas vitórias.
Mas sempre de trajetórias com a mesma esperança e o mesmo objetivo.
Enquanto mantivermos
nosso modo de viver assentado em consumismo intimamente ligado ao
individualismo, ao egoísmo, e a diversos outros ismos, todos separatistas, não
vejo como possam acontecer mudanças. São todas sombras das quais necessitamos
emergir.
Resta a esperança de
emergir nas manifestações, às vezes surgidas inesperadamente em diferentes
lugares, e que se conectam em rede para gerar força na mesma direção. Que esta
história se concretize com urgência.