sábado, 20 de junho de 2020

Não deveria ser assim




Os raios de sol que alcançavam a parede sul se encurtaram com o fim do verão. O outono chegou. Então, levei o vaso para o lado norte onde o sol ainda chega a entrar na sala. O verde do manjericão e da hortelã ficou mais vivo, e o perfume das folhas se espalha por ali.
Abril se foi. Neste mês, a sombra do espigão erguido a alguns metros começou a substituir a luz que chegava durante todo o dia. O tempo de sombra do edifício vai aumentando à medida que o outono avança. Maio também se foi. Estamos próximos do ápice: dia de solstício de inverno. E também do tamanho da sombra no nosso edifício. O sol nos alcança um tempo antes e um tempo depois de fazer sua rota atrás da enorme construção.
Gosto de pensar que ele parece pedir desculpas por nos abandonar justamente quando mais precisamos dele, enquanto ilumina o tempo todo aquele espigão. Mas não foi ele a decidir isso. A sua rota continua a mesma, derramando luz e calor indistintamente para todos. A sombra ficou ainda pior para as casas que ainda existem próximas e do lado sul. Elas ficam sem sol direto todo o inverno.
Gosto de pensar que vai começar o período em que o sol volta a iluminar nosso edifício um pouco mais a cada dia. No início nem se nota. É pouco a pouco, como quando o fomos perdendo. É todo ano assim. Ele volta sempre.
Não deveria ser assim. O espigão não seguiu o plano diretor na época de sua construção, tomou caminhos estranhos, embora legais. Com isso, privatizou-se a luz solar neste recorte da cidade.
Lembro que um grupo de moradores do bairro tentou bloquear a construção pelas vias legais, mas já era tarde. O mais triste é que muitos outros não quiseram participar da denúncia, nem de manifestações por escrito, nem de caminhadas pelas ruas próximas. Talvez uma grande mobilização pudesse ter feito a diferença. Talvez. Fica o fato de que a maioria ficou isolada em sua indiferença. Depois do acontecido ficaram queixas e a sensação de impotência. E a descrença em tudo. 
Existem muitos outros fatos dessa natureza pela cidade. São exemplos de como funciona cada um ficar resguardado no seu canto. Os motivos devem ser vários, mas acredito que o principal deve ser o medo do enfrentamento. Medo que advém de uma visão individual do que seja lutar por alguma coisa. A história nos mostra que os avanços sociais são resultados de muitas lutas. Muitas derrotas e algumas vitórias. Mas sempre de trajetórias com a mesma esperança e o mesmo objetivo.
Enquanto mantivermos nosso modo de viver assentado em consumismo intimamente ligado ao individualismo, ao egoísmo, e a diversos outros ismos, todos separatistas, não vejo como possam acontecer mudanças. São todas sombras das quais necessitamos emergir.
Resta a esperança de emergir nas manifestações, às vezes surgidas inesperadamente em diferentes lugares, e que se conectam em rede para gerar força na mesma direção. Que esta história se concretize com urgência.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Colorido um pouco desbotado




Isolamento. Pertenço a grupo de risco. Minha maior contribuição à sociedade é não adoecer, embora alguns gestores bem que gostariam que velho aposentado desaparecesse para, segundo eles, dar uma ajuda nas contas públicas.
O isolamento tem preço. Enquanto a angústia me cutuca pelas tragédias diárias no país, vou limpando aqui e acolá, conforme a vontade do momento. Uma peça por dia, devagar, vou cuidando de tudo.
Limpeza e arrumação são um jeito de cansar o corpo e despistar a tentação de abandonar-me num canto. Hoje, escolhi os enfeitas da prateleira da sala (coisa que não faço normalmente). São vários objetos acumulados ao longo dos anos. Na altura da vida em que me encontro, deixo para a diarista fazer. Neste período de pandemia, continuei pagando, mas pedi para que ficasse em casa como eu.
Limpar os objetos pequenos é uma tarefa demorada, alguns são delicados. Escovinha, pano macio, cotonetes, meus apetrechos. Todos tem valor afetivo. Concentro-me em cada um, mas alguns acabam me atraindo, não sou eu a escolhê-los. Um relógio de sol, em pedra sabão, encaixado num suporte (quando conheci Ouro Preto), uma ampulheta (presente na defesa de minha pesquisa sobre o tempo), algumas bolas que espalham neve quando agitadas e recobrem um pedaço de cidade ali encerrado (de diferentes lugares da Europa), uma bruxinha de cabeleira espevitada (presenteada por uma amiga, para me proteger, quando viajei para estudar fora). Todas lembranças prenhes de significados, porque por trás de cada uma existe história. Assim, vou me perdendo neste recanto protegido pelas recordações numa espécie de quarto de brinquedos onde posso ficar o tempo que quiser, escolhendo um ou outro, repetindo-os à vontade, no desejo de reviver de alguma forma momentos cheios de vida despreocupada.  
Detenho-me na estátua de porcelana. Tenho vontade de chamar de bibelô pela delicadeza do conjunto, mas a moça deve ter uns 25 centímetros de altura sobre uma base de mesma medida. Ela segura com uma mão um carrinho cheio de flores. Faz 19 anos que a recebi, na despedida de um longo período de estudo no exterior. Muitas vezes, vinha dela uma ponta de tristeza, porque perdi contato com quem me presenteou. Seu lugar era o canto esquerdo, sem alguma razão para a escolha. Foi colocada lá e lá permaneceu. Algumas vezes eu a olhei de raspão, como se costuma dizer, ao passar para ir para outro cômodo. Uma ou outra vez, perguntei-me se não estaria acumulando muita poeira com tantos detalhes, tantos relevos, tantas reentrâncias. Eram perguntas como fagulhas que logo apagam.
Devagar, com cuidado, passei a tirar a poeira das dobras do longo vestido, do franzido do avental, dos enfeites do chapéu, dos cabelos longos e encaracolados de um castanho claro suave. Passei às rosas, margaridas e pequenas flores do campo, num arranjo que transbordava o carrinho. O colorido já um pouco desbotado pelo tempo, mas em nuances que formavam um conjunto harmonioso de rosa, branco e lilás. Nesta passagem, intui estar entrando em mundos esquecidos, onde hibernam sentimentos colados a histórias de encantamento da minha infância. Princesas, bosques, montanhas, brincadeiras, cirandas, fantasias vestidas para cenas de teatro em férias de verão. Sem precisar qual história ou quando me foi contada, ou quando a li. Uma sensação no limiar entre estar dormindo e acordar. Um entremeio de passagem.
O tempo que dediquei a limpar a moça com carrinho cheio de flores me conectou com aquele espaço de alegrias, de expectativas, de sonhos vividos lá atrás na linha de tempo de minha própria história.
Deixei o rosto da moça para o final. Ela olha para cima, braço direito livre e erguido na mesma direção do olhar que brilha. O brilho me surpreendeu. Depois de tantos anos. Não lembro de ter reparado nele. Talvez eu não precisasse ver antes. Este brilho não fez ponte com o passado. Fez-me pensar no presente e no futuro. Fez-me pensar em tudo o que fiz e vivi para chegar até aqui e remeteu-me à necessidade de largar tristezas e desesperanças.
Lembrei-me de alguém me dizer um dia: o mundo não é como gostaríamos, temos de achar o nosso modo de viver nele. Nos últimos tempos, tem sido muito difícil achar esse modo para qualquer um que enxergue os rumos que vem tomando o país. A cada manhã encontramos notícias do desmantelamento das nossas instituições e da perda de direitos.
Ausentar-me do presente por alguns minutos foi providencial. Fazê-lo junto a referências de etapas de minha história não pode ter sido casualidade.  O que limpei foi muito mais do que a poeira, talvez outra poeira etérea e asfixiante.  Teve o poder de me fazer enfrentar medos escondidos. Sei que outros virão, terei que continuar limpando, porque não há possibilidade de retorno.