quinta-feira, 7 de maio de 2020

Cuidem das crianças


As palavras de Fernanda Montenegro ditas alguns anos atrás teimam em surgir cada vez mais seguido. O triste de envelhecer é ir perdendo um a um os amigos e, com eles, as memórias, disse mais ou menos assim numa entrevista.
Além de perder os amigos, vão-se perdendo também pessoas que foram marcos na história do país. A proximidade com muitas delas não pertence ao círculo de amizade, mas a uma dimensão igualmente importante e fundamental na construção da identidade de uma geração. São símbolos luminosos de épocas importantes da história. Épocas de sofrimentos e de esperanças. E elas traduziram esses tempos com suas próprias criações. E os marcaram com músicas, com filmes, com peças de teatro. E foram se incorporando à superação de períodos dolorosos e à conquista de um pedaço de caminho em direção à realização de esperanças.
De repente, em poucos anos, perdemos esse pedaço de caminho, entramos num túnel que nos tritura e não vemos luz à frente. Caminhamos quase sem fôlego. Então, para tornar essa caminhada ainda mais difícil, sabemos da morte de uma dessas referências do passado. A lista está ficando longa e pesada.
Nos últimos dias, perdemos Aldir Blanc. Morreu pelo covid19, poderia não ter morrido, nem chegara aos oitenta anos. Hoje, é possível viver muito mais. Ele escreveu uma das canções mais importantes a marcar a história do país: O bêbado e o Equilibrista. Ele é um ícone da resistência do povo brasileiro à brutalidade e à injustiça.
Há tempos recolhido, Flávio Migliaccio também se foi. Artista inesquecível, também representou uma época de luta por um país melhor. Sua atuação encantou muita gente. Ele resolveu sair de cena por vontade própria. Não suportou os rumos do país. O sofrimento o venceu, acreditou que não valeu a pena ter vivido para ver o que está acontecendo no país.
Dois exemplos perdidos, dentre os muitos da mesma geração, que outros estão  testemunhando. Envelhecer é também isto. Ser testemunha.
Um jovem pede desculpas num vídeo, porque a geração dele também fracassou como aquela de Lima Duarte e Flávio Migliaccio. Diante de tudo o que aconteceu no passado e, mesmo assim, muitos não aprenderam nada. Considera que está em nós a realização do fracasso, apesar de tanta gente ter lutado por um mundo melhor. Está em nós o bem e o mal. E deixamos que o mal fosse mais forte. Ele não citou, mas existem muitas narrativas que o respaldam.
Então lembro as palavras de um grande escritor: Mia Couto. Perguntado sobre as previsões de um mundo mais solidário após esta pandemia, ele não se mostrou esperançoso. Em síntese expressou o temor de que, se as condições existentes de embrutecimento do ser humano continuarem, não poderão ocorrer mudanças. É necessário mudar nosso modo de vida, caso contrário produziremos subjetividades que seguirão no mesmo caminho, sem aprender com o que está acontecendo. Em alguns lugares, talvez saiamos ainda piores, há quem preveja com pesar.
Por onde começar? Volto às palavras de Migliaccio na sua carta de despedida: cuidem das crianças. Quem cuidará das crianças? Quem puder, faça-o mais e melhor do que já o fez.


domingo, 3 de maio de 2020

Inaceitável é a injustiça (Na redoma 3)




Há um limite para suportar sentimentos dolorosos. Quando soa o alarme no sono agitado, no corpo que se recusa a obedecer, na sensação de impotência, volto-me para o que me ampara e ajuda a resistir ao que está posto.
Além das notícias ruins sobre as quais não tenho poder, cruzam as fronteiras da redoma energias boas, como gosto de chamar. Para minha sorte. Vem de outras redomas ou de espaços que não se podem fechar, porque necessários à sua própria sobrevivência. E sustentam a sobrevivência dos outros. E a minha. E fazem contraponto à intrusão da impotência, erguendo-se com a sua própria potência.
Uma vez por semana, recebo verduras e legumes orgânicos de assentamentos. Há amigos meus lá. Recebo cada sacola com gratidão. Sei quanto mais têm que trabalhar nas novas condições, mas não vejo desânimo no rosto curtido pelo sol, nem no olhar determinado que a máscara não oculta, nem nos gestos firmes. Guardo conversas anteriores, na feira que ocorria às quartas na esquina de casa. A consciência e o orgulho do que são e da importância do que fazem lhes dá uma força singular. Respeito, admiração amizade me unem a eles.
O celular também ajuda muito, apesar das contradições que seu uso produz. Angustia-me com as notícias, mas é o cabo que rompe parte do meu isolamento.
Ele traz a voz da neta maior com um assunto que emenda no outro, fazendo-me partícipe do tempo que ela também tem de viver diferente. Com suas palavras vem também afeto. Na tela vejo meus netos em situações corriqueiras que fazem toda a diferença no tempo atual. Recebo vídeos com macaquices, fotos e desenhos de um e de outro. Mando-lhes gravações de voz e em vídeos. Recebo opiniões do meu neto maior sobre meus textos do blog. Encanto-me com o que ele diz.
Através do whatsapp, encontro-me com amigos. Descubro uma nova poeta (para mim) com palavras entrelaçadas em ritmos suaves ou explosivos, dependendo do que quer lançar ao mundo. Recebo seu primeiro livro solo. Conheço as mãos criativas de uma artesã, encomendo-lhe uma boneca para a neta menor.  A Pascoa não precisou do supermercado. Uma mulher habilidosa ajudou-me a presentear os netos com chocolates saborosíssimos.
Meus filhos conseguem enfrentar a situação de maneiras diversas. Um deles providencia o que preciso do supermercado. Poupa-me saídas. Torço por eles.
Tenho o conforto de internet e contas bancárias (mesmo que reduzidas). Posso encomendar medicamentos e produtos, pagando on-line. Inclusive posso ajudar algumas pessoas, utilizando o teclado do computador. Meu risco de contágio é mínimo. Estão arriscando os muitos rapazes que transportam as mercadorias pelas ruas. E toda a rede de pessoas que ainda podem e devem trabalhar para produzir e fazer circular os produtos que chegam aos que respeitam a quarentena.
Não há como queixar-se. Pelo contrário, agradeço todos os dias o que tenho. Quando algum lamento teima em me mostrar o que estou perdendo, faço-a calar. Inaceitável é a injustiça de muitos não terem o mínimo para se proteger dessa pandemia.