As palavras de
Fernanda Montenegro ditas alguns anos atrás teimam em surgir cada vez mais
seguido. O triste de envelhecer é ir perdendo um a um os amigos e, com eles, as
memórias, disse mais ou menos assim numa entrevista.
Além de perder
os amigos, vão-se perdendo também pessoas que foram marcos na história do país.
A proximidade com muitas delas não pertence ao círculo de amizade, mas a uma
dimensão igualmente importante e fundamental na construção da identidade de uma
geração. São símbolos luminosos de épocas importantes da história. Épocas de
sofrimentos e de esperanças. E elas traduziram esses tempos com suas próprias criações.
E os marcaram com músicas, com filmes, com peças de teatro. E foram se incorporando
à superação de períodos dolorosos e à conquista de um pedaço de caminho em
direção à realização de esperanças.
De repente, em
poucos anos, perdemos esse pedaço de caminho, entramos num túnel que nos tritura
e não vemos luz à frente. Caminhamos quase sem fôlego. Então, para tornar essa
caminhada ainda mais difícil, sabemos da morte de uma dessas referências do
passado. A lista está ficando longa e pesada.
Nos últimos dias,
perdemos Aldir Blanc. Morreu pelo covid19, poderia não ter morrido, nem chegara
aos oitenta anos. Hoje, é possível viver muito mais. Ele escreveu uma das
canções mais importantes a marcar a história do país: O bêbado e o Equilibrista.
Ele é um ícone da resistência do povo brasileiro à brutalidade e à injustiça.
Há tempos
recolhido, Flávio Migliaccio também se foi. Artista inesquecível, também
representou uma época de luta por um país melhor. Sua atuação encantou muita
gente. Ele resolveu sair de cena por vontade própria. Não suportou os rumos do país.
O sofrimento o venceu, acreditou que não valeu a pena ter vivido para ver o que
está acontecendo no país.
Dois exemplos
perdidos, dentre os muitos da mesma geração, que outros estão testemunhando. Envelhecer é também isto. Ser
testemunha.
Um jovem pede
desculpas num vídeo, porque a geração dele também fracassou como aquela de Lima
Duarte e Flávio Migliaccio. Diante de tudo o que aconteceu no passado e, mesmo
assim, muitos não aprenderam nada. Considera que está em nós a realização do
fracasso, apesar de tanta gente ter lutado por um mundo melhor. Está em nós o
bem e o mal. E deixamos que o mal fosse mais forte. Ele não citou, mas existem muitas
narrativas que o respaldam.
Então lembro as
palavras de um grande escritor: Mia Couto. Perguntado sobre as previsões de um
mundo mais solidário após esta pandemia, ele não se mostrou esperançoso. Em
síntese expressou o temor de que, se as condições existentes de embrutecimento
do ser humano continuarem, não poderão ocorrer mudanças. É necessário mudar
nosso modo de vida, caso contrário produziremos subjetividades que seguirão no
mesmo caminho, sem aprender com o que está acontecendo. Em alguns lugares, talvez
saiamos ainda piores, há quem preveja com pesar.
Por onde
começar? Volto às palavras de Migliaccio na sua carta de despedida: cuidem das
crianças. Quem cuidará das crianças? Quem puder, faça-o mais e melhor do que já
o fez.