domingo, 26 de abril de 2020

A pergunta de Levi (Na redoma2)




Ouvi o arquiteto Stefano Boeri afirmar em entrevista que procura viver o isolamento de forma a não sentir que perdeu tempo, quando este período terminar.
Continuo confinada e também não quero perder esse tempo. A guerra do coronavírus continua. À sua sombra ocorre outra, a da informação. Então, procuro lidar da melhor maneira com as horas às vezes pesadas e com o que me chega de fora.
Alcançam-me dados esparsos de diferentes noticiários, jornais, sites, a maioria independentes. As informações oficiais são postas em dúvida. O silêncio do atual Ministro da Saúde é ensurdecedor.
Recorro à literatura para fazer do meu tempo um terreno onde semeio. A redoma em que estou tem que ser uma estufa onde plantas frágeis se desenvolvem. Não uma gaiola onde pássaros sonoros deixam de cantar.
Leio e relembro. Primo Levi narra de uma maneira tremendamente dolorosa o que ocorria no campo de concentração. Um preso disputava qualquer coisa para comer. Às vezes, uma casca de batata, porque ela poderia significar ter mais algumas horas de vida. E a disputava com todas as suas forças. Naquele momento nada mais importava. Talvez fosse sua última chance de se salvar. O outro não existia, como não existia principalmente para o algoz.  Levi foi dos poucos sobreviventes, e sua terrível experiência o fez perguntar mais tarde: É isso um homem? Anos depois pagou um preço caro por ter continuado a viver, apesar de tudo.
            As narrativas do momento sobre a situação mundial dizem que estamos à beira de um colapso nunca experimentado, mesmo que alguns insanos o neguem. Somos atingidos por um vírus agressivo e grande parte da população encontra-se na miséria. Há quem tenha banalizado a morte anunciada dos mais frágeis: pobres, velhos e doentes. Seres humanos que poderão cair diante da indiferença de quem tem a obrigação de protegê-los. Numa lógica de guerra, há quem tenha se referido a eles como perda inevitável, para justificar a negação de isolamento social.
No nosso país, a situação é particularmente cruel e inacreditável. Somos governados por um grupo temerário. Parte dos apoiadores refletem suas ideias e ações. Alguns deles, tão ou mais cruéis e insanos, pedem de dentro de seus carros a abertura dos negócios. Outros vão às ruas sem proteção, repetindo a leviandade de seu líder. Este continua a dizer disparates criticados no mundo inteiro. O ministro da Economia não quer gastar demais. O ministro da Saúde, que tentava dar um rumo correto para lidar com o contágio que se está espalhando pelo país, foi demitido. O atual resolveu não mais falar à imprensa, mas já se declarou contrário à compra de muitos respiradores, porque perdem seu uso após a pandemia. A negação do perigo é seu mantra. Felizmente, existe desobediência em nível estadual e municipal.
De todo modo, continuam banalizando os campos de concentração existentes hoje. No país, são aqueles onde o Estado não está presente. São os bolsões de miséria que não têm infraestrutura sanitária, moradia adequada, trabalho, água potável, segurança. Mesmo que estejam próximos a espaços e gentes com todas as condições necessárias para se defender dignamente. Não são delimitados por cercas de arame farpado, nem por guardas armados, mas pelo abandono e pela inanição.
Por isso, a pergunta de Levi continua atual. Mas não deve ser feita para a população presa às condições em que vive, e no meio da qual podem explodir atos extremos. Ela tem que ser feita para aqueles que têm poder de interferir e mudar a realidade e não o fazem.
Responder àquela pergunta talvez possa ajudar a usar bem o tempo de isolamento. E a reagir às arbitrariedades inaceitáveis.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Papoulas e margaridas (na redoma 1)




Testemunho a história sob a redoma do meu confinamento. Ela é trespassada pelas notícias que chegam via web. Não é a mesma coisa que estar circulando pela cidade sob a direção dos meus interesses ou do acaso. Dizem que o acaso não existe, só se mostra se temos olhos e ouvidos para encontrá-lo. Talvez. De qualquer forma, ele oferece muitas vezes visões singulares do cotidiano que teimamos em consumir com pressa.
                Na ausência de contato com o mundo físico, o tempo muda o ritmo, as lembranças substituem o acaso e a música toma lugar cada vez mais no espaço reduzido do confinamento.
Hoje ouvi várias vezes a mesma, de De André: “Dormi sepolto in un campo di grano / Non è la rosa non è il tulipano”, A  imagem do soldado lembrado pelo cantor produz uma dor que atrai lembrança de tantos outros jovens mandados ao sacrifício numa Europa devastada. Sempre eles, na primeira leva. A juventude que teria toda a vida pela frente, mas alguém decide o contrário. O soldado imortalizado pelo cantor simboliza todos os jovens esquecidos e sepultados nos campos de batalha: “Che ti fan veglia dall'ombra dei fossi / Ma sono mille papaveri rossi”. A imagem das papoulas vermelhas das brincadeiras de infância é entristecida pela tragédia das mortes inúteis para as quais aquelas flores são o único sinal de companhia.
Eis que somos atingidos por outra guerra. Uma guerra identificada com outras em séculos anteriores. Relativizada e menosprezada, já sabíamos como enfrentá-la. O progresso no atual estágio, com sua potência na medicina e nas tecnologias, enfrentaria o novo vírus com rapidez e eficiência. Mas ele se fez mais veloz em desmontar as certezas existentes. A ciência teve que se curvar e admitir que não o conhece suficientemente. É um novo inimigo, há que se estudar, pesquisar, experimentar. Com o que existe não se consegue derrotá-lo.
A música continua e mimetiza o que o mundo vive agora. “Sparagli Piero, sparagli ora / E dopo un colpo sparagli ancora / Fino a che tu non lo vedrai exangue / Cadere in terra a coprire il suo sangue.” É preciso atingir o inimigo de hoje, quantas vezes for necessário, aniquilá-lo em cada corpo humano, isolá-lo para abatê-lo. Foram convocados os soldados. E eles responderam prontamente como nas outras guerras. Mas, seu fardamento é outro, não mais verde oliva, mas branco. Logo se viu que não existiam as armas apropriadas e necessárias. Logo, muitos foram abatidos nas trincheiras dos hospitais junto a seus pacientes. Como Piero, muitos caíram sem pensar que poderiam sucumbir e sem lamentar-se “Cadesti in terra senza un lamento”. E outros mais o serão. Outros soldados, os mais necessitados, colhidos nas suas fragilidades, sem defesas, serão outra presa fácil.
Logo se viu que esta guerra será longa. E não será igual para todos, embora atinja a todos. As reações dos governos dos países atingidos são diversas. Uns foram atacados primeiro, tardaram a se equipar, tiveram perdas maiores. Outros beiraram a loucura da negação do que estava acontecendo, mas renderam-se e mudaram o roteiro.
No Brasil, no entanto, o caminho é lamentavelmente inusitado. Temos um presidente inclassificável na sua teimosia em ignorar as leis, a ciência, as informações de todos os cantos do mundo; de fazer do seu mandato uma chacrinha de quintal com seus três filhos; de tratar os que dele divergem com crueldade perversa; e de arregimentar apoiadores na base de mentiras e parvoíces que fazem eco em parte de semelhantes espalhados pelo país. Não parece haver lucidez em algum ponto de sua equipe. O único colaborador, que ousou de algum modo encarar de modo profissional a pandemia no país, foi descartado. Sem surpresa.
Qual música será composta quando tudo isso terminar? Será um dos nossos grandes compositores ou um dos talentosos rappers de periferia a criá-la? Quais palavras lamentarão a estupidez desta guerra? Onde serão enterrados os seus mortos? Serão extensos os campos sem ninguém a lhe fazer vigília. De novo, serão as flores a testemunhar sua morte. Mas não serão papoulas. No nosso clima, talvez sejam margaridas. Brancas. Amarelas. Mas as dores serão iguais, apenas multiplicadas.







quinta-feira, 2 de abril de 2020

Novo caminho


Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo em todos os países. Não sei se sonhei ou se li. No redemoinho de notícias que me chegam, há momentos em que me confundo. Não sei se li ou se sonhei que era preciso parar a guerra na Síria. Os fugitivos dela estavam se espalhando desamparados. Haverá mais desamparo do que na guerra?
            Então me perguntei: E na Líbia? E no Iraque?  E em outros países já esquecidos?
            Então me perguntei: E nas periferias das grandes cidades?  E nos cárceres? E nas casas onde existe violência doméstica?
            Então me perguntei: E na periferia de minha cidade? E nos cárceres que existem ali? E nas casas de onde ouvem gritos de socorro?
            Então me perguntei: E nos meus pensamentos de intolerância?
            Ouvi um médico do norte da Itália dizer que estava acontecendo num dia o que usualmente acontecia em oito meses.
            Então me perguntei se já não havíamos sido avisados de alguma forma do que iria acontecer? Avisados aos poucos. Uma inundação onde nunca havia acontecido, geleiras do norte e do sul derretendo ano após ano, termômetros acusando temperaturas endoidecidas, retorno de pragas a devastar plantações, retorno de doenças erradicadas há anos, contaminação cada vez mais extensa de rios e mares. Tudo veiculado na globalizada rede de informações.
            Vozes de diferentes cantos se fazem ouvir há muito tempo. Cientistas, ONGS, instituições, vozes isoladas, e vozes reunidas aos milhares e aos milhões já se pronunciaram. E continuam a se pronunciar.
            Mas continuamos a consumir mais do que necessitamos para viver com conforto. Consumir, porque nos acostumamos a fazê-lo. E continuamos a suportar as guerras externas e internas. As guerras necessárias para a posse de mais e mais recursos para sustentar o consumo. E continuamos a contaminar e a depredar a natureza para nosso consumo. E continuamos a consumir como se o pudéssemos fazer indefinidamente, enclausurados numa surdez e numa cegueira autofágicas.
Às vezes, até concordamos que alguma coisa tem que mudar, que não podemos continuar assim. Momentos de lucidez colocados de lado a seguir.
Então, chega um vírus. Enfrentamos tantos, daríamos conta deste também. Foi o dito no início. Este, no entanto, driblou conjecturas e antecipações. Os cientistas aceleram  suas pesquisas, dezenas de artigos são publicados e dados revistos. Não temos remédio para ele. Testamos medicamentos conhecidos. Apostamos na vitória da ciência em pouco tempo.
Enquanto isso, milhares de idosos morrem sem piedade. Milhares de pessoas com alguma patologia também são ceifados. E o vírus não se satisfaz, chega aos mais jovens. Tudo acontecendo muito rápido, desafiando a capacidade de atendimento dos infectados, apesar dos esforços e do trabalho heroico de médicos, enfermeiros, trabalhadores e voluntários.
Faz-me pensar que a natureza cansou dos avisos que vem dando aos poucos há anos. Faz-me pensar numa terra que cansou de ser maltratada. Enxergo tudo como se a terra escrava se rebelasse, gritasse basta e atacasse quem sempre a violentou.
Enquanto acompanho o que está ocorrendo, procuro fazer a minha parte. Permaneço isolada e ajudo no que me é possível para o atendimento daqueles que estão em situação mais frágil do que a minha.
Enquanto isso,  espero que daqui a algum tempo, não sei quanto, se possa dizer que a rebeldia da terra valeu, que a melhor parte da humanidade se fortaleceu e foi vitoriosa. Com isso, não imagino que a humanidade chegou ao fim de uma caminhada, mas ao início de outra. Espero.