Ouvi o arquiteto
Stefano Boeri afirmar em entrevista que procura viver o isolamento de forma a
não sentir que perdeu tempo, quando este período terminar.
Continuo confinada
e também não quero perder esse tempo. A guerra do coronavírus continua. À sua
sombra ocorre outra, a da informação. Então, procuro lidar da melhor maneira com
as horas às vezes pesadas e com o que me chega de fora.
Alcançam-me dados
esparsos de diferentes noticiários, jornais, sites, a maioria independentes. As
informações oficiais são postas em dúvida. O silêncio do atual Ministro da
Saúde é ensurdecedor.
Recorro à
literatura para fazer do meu tempo um terreno onde semeio. A redoma em que
estou tem que ser uma estufa onde plantas frágeis se desenvolvem. Não uma
gaiola onde pássaros sonoros deixam de cantar.
Leio e relembro.
Primo Levi narra de uma maneira tremendamente dolorosa o que ocorria no campo
de concentração. Um preso disputava qualquer coisa para comer. Às vezes, uma
casca de batata, porque ela poderia significar ter mais algumas horas de vida.
E a disputava com todas as suas forças. Naquele momento nada mais importava.
Talvez fosse sua última chance de se salvar. O outro não existia, como não
existia principalmente para o algoz. Levi foi dos poucos sobreviventes, e sua terrível
experiência o fez perguntar mais tarde: É isso um homem? Anos depois pagou um
preço caro por ter continuado a viver, apesar de tudo.
As
narrativas do momento sobre a situação mundial dizem que estamos à beira de um
colapso nunca experimentado, mesmo que alguns insanos o neguem. Somos atingidos
por um vírus agressivo e grande parte da população encontra-se na miséria. Há
quem tenha banalizado a morte anunciada dos mais frágeis: pobres, velhos e
doentes. Seres humanos que poderão cair diante da indiferença de quem tem a
obrigação de protegê-los. Numa lógica de guerra, há quem tenha se referido a
eles como perda inevitável, para justificar a negação de isolamento social.
No nosso país, a
situação é particularmente cruel e inacreditável. Somos governados por um grupo
temerário. Parte dos apoiadores refletem suas ideias e ações. Alguns deles, tão
ou mais cruéis e insanos, pedem de dentro de seus carros a abertura dos
negócios. Outros vão às ruas sem proteção, repetindo a leviandade de seu líder.
Este continua a dizer disparates criticados no mundo inteiro. O ministro da
Economia não quer gastar demais. O ministro da Saúde, que tentava dar um rumo
correto para lidar com o contágio que se está espalhando pelo país, foi
demitido. O atual resolveu não mais falar à imprensa, mas já se declarou
contrário à compra de muitos respiradores, porque perdem seu uso após a
pandemia. A negação do perigo é seu mantra. Felizmente, existe desobediência em
nível estadual e municipal.
De todo modo,
continuam banalizando os campos de concentração existentes hoje. No país, são
aqueles onde o Estado não está presente. São os bolsões de miséria que não têm
infraestrutura sanitária, moradia adequada, trabalho, água potável, segurança. Mesmo
que estejam próximos a espaços e gentes com todas as condições necessárias para
se defender dignamente. Não são delimitados por cercas de arame farpado, nem
por guardas armados, mas pelo abandono e pela inanição.
Por isso, a
pergunta de Levi continua atual. Mas não deve ser feita para a população presa
às condições em que vive, e no meio da qual podem explodir atos extremos. Ela tem
que ser feita para aqueles que têm poder de interferir e mudar a realidade e
não o fazem.
Responder àquela pergunta talvez possa ajudar a usar bem o tempo de isolamento. E a reagir às
arbitrariedades inaceitáveis.