quinta-feira, 26 de março de 2020

Não somos iguais


Há semanas que se sabia. Lia-se em diversos sites, mensagens de celular, conversas, análises apocalípticas. Estas últimas, talvez, nos tenham afastado da ideia, no início, de que ele realmente iria chegar até aqui. A tendência era descrer do excesso. Só os hipocondríacos ou os paranoicos é que deram importância para as antecipações. Outros ousaram se beneficiar com a dúvida. Ou, ao menos, as temperaturas daqui não o deixariam se procriar, diziam.
Uma manhã, soube-se que uma pessoa estava infectada a apenas dezenas de quilômetros. Muito próximo. Ele agia há milhares e milhares de quilômetros daqui. A tão enaltecida globalização o favoreceu. Além de agressivo, os humanos o tornaram veloz. Como eles, viajou fácil até aqui. Aliás, um humano o trouxe consigo. E continuará viajando. Com a diferença de que não sabemos quais traçados que ele escolherá.
Então, começaram as análises. Faça isso, Não faça aquilo. Limpe isso. Limpe aquilo. Use tal produto. Use o outro. Ele dura um dia. Ele dura dois dias. É uma gripe. Não é uma gripe. Os americanos o criaram. A China o criou. Tal remédio cura. Nada cura. Mata só os idosos. Mata os adultos. Criança é imune. Criança não é imune. Um espirro dá sinal dele. Um espirro é só alergia. Sem sintomas não contagia. Contagia sem sintomas. Tomas vitamina C + Z . Não adianta tomar. Gargareja água com sal. Não adianta gargarejar. Toma sol do meio-dia. Tomar sol a essa hora dá câncer. Faz exercícios regularmente. Não se faz sem personal. Ouve música. Só música dançante. Deixa um sapato na porta. Não adianta. Sai só pra levar o cachorro a passear. Não pode, o cachorro também vai se infectar. Bicho não se infecta. Os idosos devem ficar em casa. Eles precisam de ar ao aberto. As crianças devem ser isoladas. Elas também precisam de espaço aberto. Quem pode, trabalhe em casa. Quem não pode também não sai.
Quem é autônomo já foi dispensado. Quem acreditou no sonho do pequeno empreendedor, no negócio próprio, independente, dono de si mesmo, sem patrão,  terá que se virar.
Fecha escola. Fecha academia. Fecha salão de beleza. Fecham pequenos negócios.
Circulam os entregadores. O que transportarão além dos pedidos? Riscos?
Vai chegar o inverno. Vacinas da gripe foram antecipadas. Idosos podem ir para as redes de farmácias. Grandes regiões da cidade nem farmácias têm. Alguns Postos de Saúde foram fechados.
Dizem que vamos aprender com essa tragédia. O coronavírus atingirá a todos igualmente de uma ou de outra maneira. Vamos aprender os verdadeiros valores da vida, aprenderemos a ser solidários, a gastar menos, a valorizar a amizade e a própria família, a não desperdiçar, a sermos generosos, a nos vermos como iguais.
O covid19 atingirá a todos de uma ou outra maneira. Sim. Mas, não somos iguais. Haverá quem não entenderá sequer o que seja isolamento, porque seu espaço comporta muitas pessoas, jovens e velhos.  O transporte público nem chega lá, muito menos um táxi ou um carro de aplicativo. Não tem como estocar um alimento, nunca conseguiu. Água, luz, coleta de lixo, esgoto, um policial fazendo ronda, são coisas, vistas funcionando nas novelas da televisão.
Então, há quem nem tenha ouvido que ele chegaria. Ou, se ouviu, não acreditou. Ou se acreditou, seria uma gripezinha. Reforçado pelo desvario de um presidente que nega a ciência e qualquer ideia de racionalidade. Se a Justiça neste momento funcionasse como deveria, já o teria destituído. Não somos iguais.
Talvez, ainda pior, seja porque há quem tem acesso a toda informação e apoia o mandatário tresloucado. Todos eles deveriam ser mandados para seu líder, quando fossem atingidos, para que pudessem compartilhar ideias e consequências, num grande congraçamento particular, em isolamento, sem fazer os outros sofrerem. Porque eles também serão atingidos com certeza. Embora não sejamos iguais.
            Mas, infelizmente as coisas não funcionam assim. Eles serão socorridos por aqueles que acreditaram e se prepararam. E o custo será muito alto. E será maior para alguns do que para outros, porque não somos iguais.
           
Nota: Escrito antes do pronunciamento do ministro da Saúde contra a quarentena.

sábado, 14 de março de 2020

Botar o pé na porta



            Fui para o encontro com algumas expectativas: Mulheres artistas: questões atuais – Interseccionalidade. Não conhecia as palestrantes.
Os feminicídios continuam nas notícias diárias, acusando uma situação que nenhum progresso científico conseguiu mudar. É muito duro presenciar tudo isso, não apenas por ser mulher, mas por ser parte da humanidade, neste momento tremendamente insana e cruel.
Mulheres artistas, um chamamento duplo, porque associo mulher e artista a uma abertura maior à criatividade e às questões do mundo. Quando governos ditatoriais se instalam, a classe artística é uma das primeiras a serem reprimidas. As mulheres têm sido sempre reprimidas e em primeiro lugar.
Questões atuais, isto me anuncia encontrar fontes para alimentar as esperanças que ainda tenho. Sinto-me num liquidificador a cada vez que acesso as últimas notícias. Rodopio em giros de palavras grotescas e em ideias vergonhosas. Sofro num labirinto do qual não consigo sair. Busco brechas nos muros que incessantemente são levantados.
Por fim, Intersccionalidade, palavra que não circula desenvolta nas conversas diárias, mas sugere novas conexões. Principalmente novas. Misturo desejo e especulações sobre o tema enquanto aguardo as falas.
            Pouco a pouco  as três palestrantes me oferecem percursos de mulheres e rede de proteção, mulheres e sexualidade, mulheres e gênero, mulheres e escrita, mulheres e formação intelectual, mulheres e angústia, mulheres e submissão, mulheres e esperança, mulheres e protagonismo. Histórias de mulheres. Algumas das incontáveis que constroem a história. A expansão do espaço e tempo em que as mulheres se mostram, se afirmam, se dizem mulheres, se protegem. Lutam.
            Há, no entanto, uma bifurcação nas narrativas.
Duas mulheres falam de experiências fortes dentro de um mundo predominantemente de pele branca. Suas lutas e desafios soam conhecidos, ampliam histórias, criam empatia, mas não sacodem o já sabido.
As outras duas mulheres, que falam por último, no entanto, funcionam como um ímã para onde minha atenção se expande. Suas histórias têm a ver com o que foi dito pelas antecessoras, mas há nelas um tempo e um espaço que não se regem pelas mesmas medidas. Contam-nos de lutas por cotas nas universidades, por um lugar social ainda não conquistado, por um redobrado esforço por qualquer direito. Um poema, declamado com a emoção saindo de cada poro, uma poeta nos escancarou tantas coisas, mas resumo na frase: “Eu sou uma mulher negra vinte e quatro horas por dia”.
Estas mulheres, todas artistas, mostraram interseccionalidade entre as várias questões. Mas ser negra marca seu lugar primevo, mesmo que a escravidão tenha sido abolida há mais de cem anos. Sua origem marca-a antes de qualquer reivindicação.
As lutas destas mulheres, que é minha, precisa incorporar todas as lutas diferenciadas dentro delas. Há diferenças que exigem voz para se juntar a uma voz mais potente. As mulheres negras ali representadas escancararam que, para se fazer ouvir, têm que botar o pé na porta antes de tudo. Haverá um “botar o pé na porta antes de tudo” também para outras vozes.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Estarei aqui



            Não tive vontade de escapar deste mundo até pouco tempo atrás. Não é questão de idade. Não é questão de depressão. Encaro bem os anos vividos, vejo-me até privilegiada dadas as condições em que me encontro. Muitas vezes fiquei triste e encolhida diante do presencio e ouço. É o preço que pago por continuar vivendo, digo a mim mesma. Alegro-me com o que tenho, com um prato de massa al dente ou um aroma de flores (coisa rara numa cidade grande) ou uma gentileza na fila do supermercado ou no ônibus. Sou profundamente agradecida por isso, e por todas as pequenas manifestações cordiais testemunhadas em minhas andanças pela cidade no dia a dia.
No entanto, a profusão de acontecimentos ignóbeis no meu entorno e no país – sem falar na situação mundial –, nos últimos tempos, estão se apresentando em tal volume que conseguiram sacudir e rachar minha confiança na humanidade. A vida se encarregou de destruir a certeza de que o bem vence o mal, construída através da leitura das histórias em quadrinhos de minha infância. Troquei a certeza pela esperança, mas hoje, ela está tão desnutrida que, se pudesse, voltaria àquele tempo dos heróis que vencem sempre. Bobagem, digo-me, não tem retorno. Naquela época eu tinha medos e ansiedade por outros motivos. Eu sei.
            Junto às questões sem resposta que me tenho colocado, emerge um sentimento de impotência que me faz estrangeira por onde ando. Momentos de suspensão deste sentimento corrosivo são os que convivo com meus netos. É onde me sinto útil enquanto ajudo os pais a protegê-los e a amá-los. Dois atos fundamentais para que cresçam da melhor forma possível. Eis que, um dia, no espaço de uma conversa da qual nem lembro, meu neto de oito anos perguntou: “Tu vai tá aqui quando eu tiver um filho, vó?” Ele me pegou tão de surpresa que só respondi: “Acho que não”.
Só depois que ele foi embora é que a pergunta voltou. Feitas as contas, há possibilidades matemáticas, mas minha longevidade não é só uma questão de números. Minha negativa talvez estivesse associada a uma questão de resistir ao esfacelamento do mundo globalizado que testemunho. A minha geração apostou na interferência política, mas esta foi tragada pelo poder econômico. O mundo que vejo e no qual já vivi a maior parte do meu tempo mostra progresso geométrico incrível. A medicina cura, a engenharia constrói obras fantásticas, a indústria lança novos produtos em tempo recorde, máquinas cada vez mais sofisticadas oferecem mais e mais conforto, estamos a um passo da comercialização de robôs para afazeres domésticos, a astronomia desvenda os segredos do universo. Tudo isso, no entanto, para uma minoria. Como a história nos mostra, as beiradas estão sempre distantes apesar de próximas. Inatingidas, desprezadas. Apesar de todo avanço científico, milhões de seres humanos continuam a não ter acesso sequer à agua potável, quando temos casas inteligentes onde o chuveiro lança seu jato por um simples gesto de erguer a mão. Milhões não sabem o que é uma rede de esgotos, enquanto outros nem precisam mais premer o botão da descarga do seu vaso sanitário.
 Lutei de diferentes maneiras para que o mundo fosse melhor. E não vejo que isso esteja acontecendo. Não sei o que faltou para a minha geração fazer, foi feito o possível e não foi suficiente.  Hoje, aposto nas lutas das mulheres, dos trabalhadores, dos intelectuais, de todos os considerados diferentes pelos que se acham a referência do bem. Aposto também que encontrarão novas formas de fazê-lo. O que mais tenho feito é apostar. É minha maneira de seguir a vida.
Então, mesmo com a perspectiva de um mundo instável, com temor pelos meus netos e por todos os netos do mundo, admito o desejo de receber e abraçar um bisneto. No equilíbrio instável de querer abandonar este mundo que se desagrega, e a aposta na renovação da vida com todas as suas possibilidades, respondo a meu neto: se depender de mim, estarei aqui.