A água fria
desce abundante sobre meu corpo. O calor se esvai. Posso repetir quantos banhos
quiser, é só abrir a torneira. Milagre do progresso, ao menos para alguns. Mas interrompo
a delícia de imaginar-me numa cascata. Serei parcimoniosa. Agradeço à vida este
prazer negado para muitos, um privilégio esquecido no banal ato de todo o dia.
Nossos antepassados deixaram vestígios de valorização da água. Há as moradias
árabes, há os aquedutos romanos, há divindades protetoras das águas. O que a
humanidade fez para chegarmos onde estamos? Nós a desperdiçamos como bem inesgotável.
Nós a poluímos sem pudor. De que valem os testemunhos da história? Nós a
negamos a grande parte dos seres humanos. No verão sufocante, alguns se
refrescam em piscinas particulares. Um direito que não põe questões. Outros
reclamam na rua empoeirada da periferia a torneira seca a um poder público
indiferente. Na escassez sentida onde nunca antes foi imaginável, a ganância
cresce, procura-se privatizar o bem fundamental de onde surgiu a vida.
Apossar-se de algo que tende a desparecer é a suprema insensatez. E depois? A visão
deturpada por aquilo que há de pior no ser humano não permite questionar. A
ciência nos mostrou que somos uma ilha a voar por uma das bilhões de galáxias, embora redonda e não plana como alguns
voltam a afirmar. Quanto tempo durará
para que até as piscinas sejam privilégio de muito poucos e não haja mais fuga
possível para ninguém? Há quem negue esse futuro. A literatura é ampla no
anunciar o que pode acontecer. A surdez e a cegueira imperam sobre quem tem o poder
do dinheiro. Há quem projete a compra de um terreno na lua ou em Marte. Recorro
à fantasia. Dizem que nossos pensamentos podem se realizar um dia. Se eu fosse
uma divindade, neste ano que recém começou, voaria sobre a superfície dos
continentes e limparia todas as águas que restam e as distribuiria igualmente
para cada ser humano. Imagino o rebuliço que causaria. Imagino um caos na ordem
estabelecida. Que sujeito emergiria dali? Antes, correria o risco de cair em
desgraça, ser apedrejada como comunista e destituída de minha divindade.
A palavra continua sendo um caminho poderoso para estar no mundo. Ela tem sido de ajuda para resistir a tudo o que tem acontecido no entorno mais próximo e mais longínquo. Companheira sempre à disposição, embora nem sempre eu consiga aceitar seu convite para usá-la. Às vezes, ela me ajuda a seguir em frente. Sempre me coloca em contato com o outro. Isto é um privilégio. Compartilho-a com quem desejar me honrar com sua leitura.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
domingo, 19 de janeiro de 2020
As cores da história
Já o observei inúmeras vezes e sempre me
causa novas impressões. Lembro-o em imagens cinza, não sei qual é sua cor
verdadeira. Verdadeira não é exatamente a melhor palavra, mas é a que me ocorre
agora. Talvez seja porque é a cor da argamassa, mas naquela época não havia
argamassa. Ou será que a memória me
oferece uma fakenew. De qualquer modo
sua cor não é sempre a mesma, depende de como se apresenta o céu. Depende da
estação do ano. Depende da hora do dia. Depende do meu olhar mais ou menos
atento. Hoje ele se apresenta dourado. Hoje, estou diante dele ao vivo, não é
uma imagem em papel ou no computador. E parei para contemplá-lo sem pressa. Não
é um dourado uniforme, no alto há uma faixa de cor mais intensa e, à medida que
o olhar escorre para baixo, o dourado suaviza até se tornar opaco, quando a
sombra o recobre. Nem a sombra, no entanto, o desmancha. No fundo de seus arcos
vazados vê-se o céu de um azul claro, esmaecido, próprio daqueles momentos que
anunciam o entardecer. A sombra vai subindo.
Lembro
de ter lido que originalmente fora recoberto de mármore. Durante séculos foi despido
dele para recobrir outras construções em diferentes partes do país. As marcas
que ficaram em toda a sua superfície parecem buracos de projéteis e testemunham
a depredação. Em algum momento da história foi dito um basta. Ele começou a ser
preservado, cuidado, reparado para estancar a ação do tempo. Nas imediações,
vestígios do que foi o império que o construiu. Milhões de pessoas o visitam
todo o ano. Dizem que é o lugar mais procurado no mundo. Pode ser. Mais de dois
mil anos de história se espalharam pelo planeta sob sua influência.
No
entanto, o vivido nos dias de hoje com seus modos atualizados de fazer as guerras,
suas contradições, seu retorno a formas arcaicas de pensar e de se relacionar,
alimenta o desânimo. Tudo o que o império
representado neste Coliseu que resiste ao tempo parece não ter sido capaz de
ensinar às gerações que se sucederam. A história e a memória não atingem
igualmente os seres humanos. A ciência e o progresso não foram capazes de
disseminar igualmente as experiências do passado. Sem isso, a história se
mostrará sempre em fragmentos e o caminho de muitos será sempre a partir do
zero.
É
como se perguntar qual a cor do Coliseu a cada vez que o contemplamos.
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