Acredito no
poder da arte. Mesmo quando fico em dúvida se uma obra seja arte ou não. Quando
isso acontece fico a pensar sobre o efeito que ela me provoca. Às vezes, um
efeito de desconforto, de inadequação, de desperdício.
Não é que eu seja
daqueles que julgam uma obra pelo conceito de beleza, de harmonia, de
superioridade. Sou alguém que, simplesmente, gosta de visitar mostras onde olha
de perto e de longe um quadro, uma escultura, uma instalação. Saboreia as
cores, os traços, os volumes. Enfim, gosta de mergulhar no ambiente de
exposição artística. Isto me faz bem, porque me leva a um mundo além das
pressões do cotidiano e me permite alimentar um outro gosto de sentir a vida.
Foi com esta
perspectiva que visitei uma mostra fotográfica. Um amigo expunha fotos dele, e
em outras ocasiões não pude prestigiá-lo. Era uma questão de honra fazê-lo,
além da certeza de poder usufruir de momentos especiais de comunicação com a
criação artística.
Minha certeza
foi recompensada. Neste tempo tumultuado e revirado em que vivemos, onde
valores e compromissos são destroçados em nome da ganância e da
irresponsabilidade social, encontro-me diante de imagens que me falam com
cumplicidade.
Vários fotógrafos
expunham suas obras. Trabalhos primorosos. Uma, de meu amigo Leonardo Kerkhoven,
se sobressaiu e colou em sentimentos que me acompanham diuturnamente. Ao ver aquela
imagem veio-me imediatamente a frase dita muitas vezes com algumas variações “uma
imagem vale mil palavras”. O título era “Abandono”.
A Galeria onde
está aquela mostra fica a poucas quadras da Praça da Matriz. Aqui, há semanas, a
presença de professores e de outras categorias de servidores públicos do estado
acusa o descalabro do governo. Estão protestando contra o massacre promovido
pelo executivo do Rio Grande do Sul em nome de mentiras e artifícios para
encobrir o desejo de um estado mínimo que se desobriga de suas responsabilidades.
Nada mais têm a perder, porque seus locais de trabalho estão sendo
vilipendiados e nem os salários estão sendo pagos em dia.
Volto à imagem sob o título de Abandono: uma grande janela com grades numa parede desgastada. Por detrás dela, na
base, o busto de uma jovem com os braços levantados e mãos agarradas aos
ferros. Os tons e as esfumaturas emolduram a presença humana e são a materialização
de parte do tanto que ela sugere. Esta descrição é precária, as palavras lhe são
insuficientes, serve apenas de convite para visitar a mostra.
Para mim, além
do gosto do olhar e dos sentimentos que me despertou, a fotografia comprovou-me
mais uma vez a capacidade criativa do ser humano. E reafirmou a crença nos
caminhos da arte para não nos destruirmos.
Maravilhoso, Rosa. A arte denuncia e nos salva. Projeta aquilo que as palavras não conseguem descrever. Continuamos, sem desistir de ver a arte retratando um mundo melhor, que seja real.
ResponderExcluirBelo texto, Rosa.
ResponderExcluirCertamente, a arte é o caminho para a reflexão e busca de caminhos.
Penso que é por meio da arte que se desvenda os mistérios da vida, a arte é capaz de mostrar todo o sentimento de angústia que está intalado na garganta, quanto o riso solto no rosto da gente. A arte e a a última são capazes de anunciar e denunciar a opressão do povo desde sempre...
ResponderExcluirObrigada