segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Qual parte do inferno?




Em tempos líquidos onde não se encontram ancoradouros, volto-me ao passado como uma das formas de conter a ansiedade. Vários autores vêm em meu socorro. Dante é um deles. A Divina Comédia nos conta a história da sociedade vivida por ele até então através dos mais importantes personagens. Uns aprisionados no Inferno, outros, esperando sua redenção, no Purgatório, e outros, tendo alcançado um final feliz, o Paraíso. Ele escreveu o livro porque queria salvar moralmente a humanidade. Julgou que alguns homens de seu tempo não teriam salvação, mas outros, sim.
No tumulto em que nos movimentamos atualmente, procuro desesperadamente compreender o que acontece. Todo o dia somos atingidos por descalabros que fazem desaparecer o ponto de luz que teimei em ver no fim do túnel no dia anterior. Então obrigo-me a buscar com um resto de energia, as análises mais diversas. Converso com amigos. Situo-me, mas há momentos em que preciso tomar distância e, então, busco a arte. No caso, a literatura. Pergunto-me onde Dante colocaria o presidente, se andasse por aqui hoje. Permito-me não ter dúvidas quanto ao Inferno. Deixo de fora a turma que o circunda. Não haveria lugar para todos. Mas há categorias de internos, distribuídos conforme a classificação dos pecados que cometeram. Também existem subdivisões, por isso o poeta desenhou círculos e, neles, valas. Assim, encontro-me em dificuldade, porque passo e repasso as listas e o presidente se enquadra na maioria das infrações, segundo o que sei de sua vida. Como ignoro boa parte dela, pode ser que ele pudesse ser enquadrado em mais alguma. A vida pública dele permite este raciocínio.

Enfim, valho-me da lista de Dante para escolher. O presidente tem manifestado “Violência e Bestialidade” de forma usual ao longo de sua vida, o que o levaria para o Círculo VII. No entanto, mais apropriado seria o Círculo IX, o último, o mais profundo, lugar da “Traição” contra a Pátria e os Benfeitores (Jesus Cristo), e junto a Lúcifer, para permanecer pela eternidade. Seus apoiadores se revoltariam com minha escolha, mas as provas existem em abundância.
Minha opção não exige poesia nem rimas. Dante me perdoaria.  Numa realidade cruel é preciso imaginar, e exorcizar o que a razão é incapaz de resolver. Aposto no alívio de um sortilégio contra o poder escorado na ignorância, na alienação, no egoísmo, que destroem as sementes de humanidade.  Conto com a força das ideias de solidariedade e de um mundo melhor para merecer o purgatório com a aquiescência de Dante. O Paraíso é inalcançável.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Felicidade, onde?




Os livros trazem infelicidade, trazem dúvidas. Não precisamos de pensamentos diferentes, nossa felicidade está na certeza de uma só verdade. Nós queremos ser felizes. Estas são algumas das crenças do mundo narrado no filme do homônimo livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, escrito em 1953. Um mundo onde ter um livro é considerado um crime e pago com a morte.
            Poucos anos antes, George Orwell, escreveu 1984, e trata de tema semelhante. Não narra a queima de livros, mas a eliminação do pensamento divergente.  O controle do sujeito numa sociedade onde deve prevalecer também uma verdade única.
            Bradbury se inspira na sociedade americana. Orwell faz uma crítica ao regime soviético. As duas realidades com ideários distintos.

            Sem aprofundar as semelhanças e diferenças entre os dois sistemas, chamou-me a atenção a ideia de felicidade propagandeada na sociedade descrita por Bradbury. Ela me remeteu a uma crônica de Umberto Eco de 2014 “O direito à felicidade”. Nela, o autor coloca a suspeita de que muitos dos problemas que nos afligem hoje seriam devidos à formulação da Declaração de Independência  americana de e de julho de 1776 onde está escrito que “todos os homens são dotados do direito à vida, à liberdade e à felicidade”.
Eco nos agracia com um retorno a alguns filósofos que tratam da questão da felicidade desde antes da era Cristã. Falam de sua efemeridade e, principalmente, do seu caráter individual. Hoje, destaca como ela se enraíza no mundo da publicidade e dos consumos. Comprar alguma coisa é ser feliz. Publicidade nos alcança a todo o momento e jamais mostra um produto relacionado ao trabalho que o produziu. Parece que esta história precisa ser negada. No entanto, ao menos na Constituição Italiana, o artigo primeiro afirma que o país está fundado no trabalho.
Voltando à questão da felicidade, Eco encerra sua crônica dizendo que a Declaração de Independência deveria ter reconhecido o “direito-dever de reduzir a cota de infelicidade no mundo, inclusive naturalmente a nossa”. A história dos E. Unidos mostra estar mais próxima do livro de Bradbury e de ter seguido o princípio da felicidade individual, sem dever para com o outro. Apesar do acúmulo de riquezas e dos seus progressos científicos, alguma coisa está dando errado na sociedade americana. O sonho de felicidade não é alcançado por milhões de seus cidadãos. Não bastasse o conjunto das estatísticas, a expectativa de vida do americano está caindo e está aumentando a mortalidade por suicídio, acidentes e overdoses de drogas ilícitas.  
No nosso país, a mortalidade tem estatísticas muito tristes. A nossa história sofre contínuos apagamentos, numa diversidade de queimadas. Defender os livros, simbolicamente e materialmente, mostra-se, hoje, uma necessidade tão urgente quanto na realidade de Bradbury e Orwell. Nem a Declaração de Independência americana é defendida por aqui.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Águas

A água fria desce abundante sobre meu corpo. O calor é temporariamente afastado. Posso repetir quantos banhos quiser ao longo do dia. É só abrir a torneira. Mas não o farei. Agora, interrompo a delícia de imaginar-me numa cascata, porque não posso desperdiçar o que muitos não têm. Serei parcimoniosa. Agradeço à vida este prazer negado a milhões de seres humanos. Isto é um privilégio esquecido no banal ato de todo o dia ter o corpo limpo e de lavar tudo o que for necessário. Isto determina haver seres humanos cheirosos e outros que fedem. Apesar de não ser só uma questão de ter ou não ter água. Lembrando que a vida surgiu da natureza líquida, o que a humanidade fez para chegarmos onde estamos? Nós tratamos a água, e não só, como bem infinito. Nós a poluímos e a desperdiçamos. Nós a negamos a grande parte dos seres humanos. No entanto, não há como não misturarmos cheiros apesar das distâncias e das ilhas onde teimamos em nos isolar. Nós somos uma só ilha que voa pela galáxia, embora redonda e não plana como alguns voltam a afirmar.  Quanto tempo durará para que não haja mais fuga possível para ninguém? Há quem negue esse futuro. Há quem projete a compra de um terreno na lua ou em Marte. Se eu fosse uma divindade, neste primeiro dia de 2019, não distribuiria títulos e dividendos, carros e viagens, cartões de crédito e títulos honorários. Limparia todas as águas e as distribuiria igualmente para cada ser humano. Haveria extensa limpeza e, com a equidade, muitos se sentiriam prejudicados. Imagino o rebuliço. Correria o risco de ser apedrejada como comunista.