quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Vale a pena


Lembro de quando um cachorro me derrubou e eu me defendi com os braços para que não atingisse meu pescoço.  Ele os mordeu em vários lugares. Chegou a arranhar minha garganta. Estava no jardim da casa de minha melhor amiga. O costume era trancarem o cão num depósito de ferramentas, quando recebiam visitas. Naquele dia, por certo não fecharam bem a porta e, de repente, me vi atacada. É assim que eu me sinto hoje. Atacada, porque deixaram uma fera solta. A diferença é que o ataque atual estava anunciado, não foi surpresa. Na época eu tinha dezesseis anos. Cheguei a pensar que não mexeria mais os dedos das mãos. Eu tinha o sonho de me formar em medicina, uma cirurgiã. A vida ainda tinha que ser vivida. O medo foi grande, mas continuei a ir para o colégio com a ajuda de minha amiga, dona do cachorro. Não sei quanto tempo levei para constatar que meus braços e mãos seriam curados. 
A vida me levou por outros caminhos e usos das mãos. Apenas marcas ainda persistem, pequenos sinais que foram suavizando com o tempo. Permaneceu por longo período, no entanto, o medo de cachorro. Até um pequeno e inofensivo era capaz de me fazer atravessar a rua. A diferença daquele tempo e de hoje é ter ampliado minha compreensão do mundo e saber lidar com meus medos. Hoje não duvido que vou reagir. Mas a dimensão do tempo mudou. Já vivi a maior parte que me cabe. Estou cuidando das feridas, elas não me inutilizaram. Assistir à última eleição, e seu resultado, foi terrível. E principalmente, conhecendo as formas torpes utilizadas, dão lugar à indignação. Junto à família e amigos, em sintonia com eles, estamos traçando estratégias para seguir. Não existe, porém, uma perspectiva de futuro que me acalme. Lideranças de minorias, os desfavorecidos e os marginalizados estarão em perigo maior. Serei solidária e farei o que for possível. O que me impulsiona a viver em meu lugar e o meu tempo é a esperança de que  filhos e netos tenham um mundo melhor. Quando afirmo o desejo e a esperança de um mundo melhor para eles, é porque o almejo para os outros também.  Ou o será para todos ou não o será.  É minha utopia. É para lutar por isso que acredito valer a pena viver.