quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Relâmpagos inesperados




Vazio. Letras com B bonito, burro, bosta, banfletário (pronúncia de quem está gripado – panfletário). Panfletária, foi assim, que um dia meu ex-marido me chamou, nem lembro mais porque. O vazio que sinto deixa escapar o que tenho de pior, mágoa, nada mais me vem para escrever. Nada. Nada. Nada. Imobilismo. Indiferença, que se foda tudo. Assim é que deve se sentir alguém deprimido. Estou deprimida?
Dizem que se a gente faz essa pergunta, é porque não se está. Então o que é? Enfado, sensação de inutilidade em discutir sempre as mesmas coisas sobre a estupidez do mundo. E eu o que sou? Incapaz de enfrentar isso que eu classifico de estupidez. Pertenço ao grupo que pensa, que escreve, que reage diante da desfaçatez de políticos que estão destruindo o estado e o país. Eu consigo só apoiar. Incapaz de reagir. Reagir como? Reagir a quê? Interessante, volto à primeira linha e vejo que escolhi o B sem qualquer titubeio. Nada realmente é arbitrário. Logo o B, letra do inominável. Reagir ao que é inominável em mim?



Hoje me senti velha. Não falo dos anos, tenho muitos e estou feliz com isso. Falo de sensações e de perdas. Pedi notícias de um amigo que nunca mais vi depois de deixar a cidade. Foi meu padrinho de casamento. Ele está numa casa de repouso com Alzheimer. Bomba. Um pouco mais velho que eu, estatisticamente possível. Há quinze dias morreu uma amiga dos tempos de lutas sindicais. Bem mais jovem do que eu.
No mês anterior nos deixou o marido de uma amiga na minha faixa etária. Alguém que eu conhecia há poucos anos, mas era como se fossem muitos. Um número do tamanho da admiração e respeito que eu sentia por ele e sua história. A lista está ficando extensa se juntar as perdas do ano que passou. E do anterior. Ouvi há tempos que envelhecer significava perder as memórias que se iam com os amigos. Construí o significado disto aos poucos. Hoje coloquei mais um tijolo. Um edifício que não terá fim. É uma construção singular, cada um tem a sua.  Não é casa, não é monumento, não é museu. É como uma sombra que nos acompanha. As nuances ficam por conta da consciência de cada um. A construção será interrompida quando eu me for. Por enquanto, dói erguê-la. Dor que é suavizada pela gratidão em viver, tendo ao redor a família e os amigos. Como me sentirei amanhã?