sábado, 31 de março de 2018

Esterco


Estavam combinando jogar esterco nos ônibus da caravana. Ele ficou sabendo através de um dos seus grupos de whattsapp que incluía gente do Paraná. Estava contando  em conversa informal, em tom que podia ser ouvido por quantos estivessem por perto ou passassem por ali. Era uma conversa com cumplicidade de adolescentes em frente à escola que debocham de quem não faz parte de sua turma. A certeza da impunidade estava na displicência e naturalidade da conversa.
            O sujeito que compartilhou a notícia estava deitado num colchonete e obedecia às orientações de sua personal sentada ao lado. Uma cena comum numa academia. A naturalidade da conversa foi mais grave que o próprio conteúdo. Implicava ausência de qualquer dúvida sobre o direito de fazer e divulgar o que um grupo estava planejando. O rapaz forte e saudável, que cuidava do seu físico, transpirava familiaridade com o meio. Explicava em detalhes como um trator arrastava esterco destinado ao adubo de certas áreas da fazenda. Desta vez seria acumulado à beira da estrada para pulverizar quem passasse por ali. Não foi narrado o desfecho. Nem precisava.
            Este fato foi um dos tantos veiculados ao longo do percurso da caravana de Lula. A mediação da palavra, da argumentação, do confronto de ideias foi abolido. A mediação simbólica de quem pensa diferente foi esfacelada. A agressão direta de indivíduos à revelia do estado foi assumida sem cerimônia. Os freios de uma sociedade civilizada mostraram-se ausentes. A barbárie mostrou suas várias faces com a certeza da impunidade. Uma barbárie que ignorou quantos, apesar de tudo, mostraram seu acordo, sua solidariedade e seu agradecimento pelas políticas sociais implantadas por Lula. Os frutos estão disseminados ao longo do caminho que ele percorreu, estão vivos e se manifestaram.

            O perigo do transbordamento do ódio, tal como foi exemplificado, é assustador. Para execrá-lo, lembro-me dos esforços de quantos lutam para enfrentá-lo sem ceder à facilidade do revide. Alinho-me com eles e continuo a pensar que cada um oferece o que tem. Uns, esterco. Outros, reconhecimento. E torço para que o esterco cumpra sua função, independente do desvirtuamento que alguns desejaram dar.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Irreverências mil


“Deus é uma palavra” diz De André ao sacerdote que lhe pergunta como o definiria. Era uma aula de religião ou filosofia, a pergunta e o diálogo que se seguiu entre os dois marcaram a adolescência do cantor. E a palavra de De André derramou-se em canções belíssimas, tornando-o admirado na Itália e no mundo. De suas letras escorrem sentimentos e emoções que comungam com os que o ouvem, porque tratam do amor, da injustiça, da estupidez humana, da vida que pulsa no cotidiano.
É impossível não se emocionar ao ouvir:

Dormi sepolto in un campo di grano
non è la rosa non è il tulipano
che ti fan veglia dall'ombra dei fossi
ma sono mille papaveri rossi

            Os versos acima pertencem a La Guerra di Piero, música que chora a estupidez humana capaz de levar um jovem a matar outro, seu igual. Uma homenagem aos soldados sacrificados por uma guerra insana como são todas as guerras.
            Outros lembram uma prostituta assassinada:

questa è la tua canzone Marinella
che sei volata in cielo su una stella
e come tutte le più belle cose
vivesti solo un giorno, come le rose

            Não escrevo canções, mas gostaria de ter palavras para cantarem aos céus a resistência de quem trabalha, de quem denuncia, de quem grita sua indignação e só pode ser derrubado pela força, jamais por ter deixado de lutar.
            Sirvo-me da memória e alcanço Elis Regina como se estivesse cantando no tempo enlouquecido de agora o mesmo lamento de então. Um lamento que não deveria ser repetido:

Louco, o bêbado com chapéu-côco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil, meu Brasil

            A memória em tumulto também me traz o que li em algum lugar, a única derrota é ter desistido. Então recupero Geraldo Vandré com:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

            Agarro-me à esperança de que as atuais gerações e as que se seguirem possam descobrir os caminhos para conquistar mais do que a minha geração não conseguiu e não conseguiu garantir. Os avanços sociais conquistados num passado recente esfumaçaram-se num tsunami de bandalheiras, mas a história continua e com ela possibilidades nem sempre previsíveis. Quem sabe esteja em gestação um saber fazer a hora.
            Neste percurso, que a palavra de indignação e de contestação continue a ser pronunciada. Que a palavra seja resgatada da imundície da ignorância e dos preconceitos. Que a palavra seja o amálgama do desejo de um mundo mais justo onde o outro é meu semelhante, não meu inimigo. E que a palavra amor seja sempre mais poderosa que o ódio.
            Hoje há uma sensação generalizada que o ódio está vencendo. Ou estará apenas fazendo mais barulho? Tomara que seja a segunda hipótese.