quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A árvore



Ela começou a perder suas folhas. Sei que as primeiras a cair são poucas. Depois, a quantidade vai aumentando e, em alguns dias, o chão fica coberto de pequenos corpos amarelos quase o tempo todo. Não adianta varrer. Não guardei quanto tempo isso demora. No final, a árvore fica totalmente desnuda com seus galhos espetados para o alto e para os lados.
Não sei o nome da árvore, a que espécie ela pertence.
Mas sei bem o que ela me faz pensar. No país, estamos perdendo aceleradamente milhões de pessoas. São aqueles que ficam sem emprego, ou passam a um trabalho informal. São os que não conseguem ser atendidos por um médico e, muitas vezes, morrem por banalidades. São as crianças e jovens que ficam sem pais em condições de protegê-los, e o futuro interrompido. São os velhos aos quais lhe roubam o direito de serem cuidados após terem trabalhado toda a sua vida. São as folhas na ponta de um sistema corrompido e cruel.
As folhas que caem adubarão o solo onde se enraíza a árvore e outras reaparecerão tenras e vivas até completarem um novo ciclo. Diferentemente, as mulheres e homens que caem no sofrimento e na injustiça não terão outra vez. Há uma só vida para ser vivida. Para esse, há uma só varredura.
Há pessoas que pensam jamais cair, porque o país não é uma árvore. Enganam-se. De alguma forma todos caem, mesmo aqueles que se fecham nas máscaras e entre os antolhos do egoísmo e da indiferença por terem acesso a bens materiais. A estes, no mínimo, é reservada a impossibilidade de se tornarem na parte melhor de si mesmos, a de completarem o primeiro mandamento de uma grande religião. Ou preceitos de outras tantas crenças. Aquelas às quais muitos dizem pertencer. A indiferença e ódio também ressecam e provocam caídas, talvez, não reconhecidas.

A diferença está na existência de um destino para a árvore e na possibilidade de não se realizar para os humanos. Esta é a tragédia. Poderia ser evitada.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Recorte

Um retrato do país pode ser visto em poucas dezenas de metros da rua da Praia. Onde antigamente passeavam os abastados, esparramam-se pelo chão panos estendidos com as mais variadas quinquilharias: brinquedos baratos,  objetos eletrônicos, relógios, CDs e uma colorida espécie de roupas e tênis de marca. Arrisca-se afirmar que sua procedência é o sudeste asiático pelas vias eternas das margens do sistema fiscal.
As lojas que margeiam esta fileira central da rua também mudaram. Não existem mais aquelas que fizeram sucesso e atraíam a parcela da população próspera. Sobram uma ou outra, mas tudo se popularizou.
O comércio da rua lembra o apinhado de bancas da Mal. Floriano junto à Praça XV antes de ser varrido para o horrendo camelódromo suspenso sobre o terminal de ônibus entre a Voluntários da Pátria e a Júlio de Castilhos. Prédio que parece ser antigo, e ser necessária a sua demolição para dar lugar a algo melhor para o centro da cidade e para os trabalhadores que diuturnamente passam por ali. No entanto tem poucos anos de vida e uma história escusa para a sua construção.
Este comércio informal é desobediente, porque em poucos segundos desaparece com a chegada de uma van da fiscalização municipal. Deve existir algum código de aviso antecipatório. Tudo é muito rápido. Um tempo para a rua ficar à disposição só dos pedestres, de algum artesão autorizado e do grupo de indígenas com seus produtos. Mas volta depois, conforme os hábitos já conhecidos do surgimento e saída dos homens da lei. Parece um movimento pendular arbitrário de um relógio invisível e desconjuntado.
            Um incessante caminhar acontece pelos lados destas mercadorias expostas.
          Quem compra ali?, pergunto. Já sei a resposta, são aqueles que dificilmente ou nunca teriam acesso a brinquedos dentro das normas de segurança e a produtos com controle de qualidade. No entanto, a origem das mercadorias em qualquer loja pode ser a mesma, e as mãos que os fabricam podem sofrer a mesma exploração. O que une tudo isso é a invisibilidade da produção.

           Cada vez mais, este tipo de comércio é uma saída para quem está na ponta mais exposta do desarranjo do mundo do trabalho, da perda de direitos sociais, de abandono das políticas públicas de inclusão social. É um termômetro do que sucede no país em nível macro, mesmo que a população envolvida nem sempre entenda porque está ali. E a temperatura da exclusão continua subindo. Como se desdobrará esta história?

sábado, 2 de setembro de 2017

Mutação


Rosa pálido,
e às vezes branco
 entre o verde,
rosa brilhante e também amarelo
em espaços só seus.
Atrás vem o lilás, que goteja no chão,
o fúcsia e o vermelho despontam,
se derramam.
Outros tons,  amarelo e alaranjado
se misturam.
É o arco-íris que um dia
se entristeceu,
e se despedaçou,
e se derramou
sobre a cidade.
Reaparece aos poucos
de jeito atrapalhado
pelas ruas
em cada estação.