Ela começou a perder suas
folhas. Sei que as primeiras a cair são poucas. Depois, a quantidade vai
aumentando e, em alguns dias, o chão fica coberto de pequenos corpos amarelos
quase o tempo todo. Não adianta varrer. Não guardei quanto tempo isso demora. No
final, a árvore fica totalmente desnuda com seus galhos espetados para o alto e
para os lados.
Não sei o nome da árvore,
a que espécie ela pertence.
Mas sei bem o que ela me
faz pensar. No país, estamos perdendo aceleradamente milhões de pessoas. São
aqueles que ficam sem emprego, ou passam a um trabalho informal. São os que não
conseguem ser atendidos por um médico e, muitas vezes, morrem por banalidades.
São as crianças e jovens que ficam sem pais em condições de protegê-los, e o
futuro interrompido. São os velhos aos quais lhe roubam o direito de serem cuidados
após terem trabalhado toda a sua vida. São as folhas na ponta de um sistema
corrompido e cruel.
As folhas que caem adubarão
o solo onde se enraíza a árvore e outras reaparecerão tenras e vivas até
completarem um novo ciclo. Diferentemente, as mulheres e homens que caem no
sofrimento e na injustiça não terão outra vez. Há uma só vida para ser vivida. Para
esse, há uma só varredura.
Há pessoas que pensam
jamais cair, porque o país não é uma árvore. Enganam-se. De alguma forma todos
caem, mesmo aqueles que se fecham nas máscaras e entre os antolhos do egoísmo e
da indiferença por terem acesso a bens materiais. A estes, no mínimo, é
reservada a impossibilidade de se tornarem na parte melhor de si mesmos, a de
completarem o primeiro mandamento de uma grande religião. Ou preceitos de
outras tantas crenças. Aquelas às quais muitos dizem pertencer. A indiferença e
ódio também ressecam e provocam caídas, talvez, não reconhecidas.
A diferença está na
existência de um destino para a árvore e na possibilidade de não se realizar para
os humanos. Esta é a tragédia. Poderia ser evitada.
