sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Presenças

Minhas palavras foram escassas quando minha amiga foi embora porque compactuo com ONDJAKI:

"Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança"

            Ficou um vazio em minha casa e o preencho com o pensamento pelo caminho por onde ela vai no interior do país. Eu sei que ela está em solo brasileiro, mas quase tão longe quanto seria já na sua terra. Na nossa terra. O que são as distâncias? Estamos perto ou longe quanto nossa capacidade de partilhar pensamentos, gostos e esperanças. Esta é a rede que se construiu imediatamente quando nos reencontramos dois anos atrás depois de dezenas de anos de afastamento. Lá onde mora ela. E a vida nos propiciou repetir a aproximação aqui onde moro eu. A gratidão por revê-la e partilharmos um tempo longínquo da infância e da adolescência me conecta com o que há de melhor para viver.
            Seu retorno ao país em que viveu, na Serra, e depois, aqui na capital onde eu vivo, trouxe-lhe apreensões e tristezas pela situação político-social existente. Não havia compreendido as reais perspectivas de retrocesso, compartilhamos análises e comparações com outros tempos. Nos solidarizamos, enquanto andamos juntas pelas ruas da cidade cuja natureza a encantou. Os ipês, cuja florada estava desaparecendo, e os jacarandás iniciando a colorir as calçadas e praças. Encantou-se com os testemunhos arquitetônicos do centro histórico, da Independência e de outros lugares. Ela que convive com uma história milenar. Lamentou a substituição de outros prédios por edificações de estética duvidosa. Enfim, sentiu Porto Alegre com algumas de suas contradições.
            A partir de agora, o afastamento físico nos dará a dimensão do quanto podemos estar juntas em nossa amizade, por isso a reafirmação da desnecessidade de despedida. E, quando a rede de confidências se esgarçar pelas distâncias e ausência do olhar, deixando escorrer nossa cumplicidade diante da visão de mundo e da vida, olharei o camafeu. Ela se restabelecerá como se nos encontrássemos a meio caminho sobre o oceano, com a mágica da imaginação e da confiança na amiga onde estiver.

Ondjki tem razão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Andantes

A palavra está me servindo de antídoto à rendição.
Resistir é preciso, então compartilho alguns redemoinhos de meu pensamento. 


Andante

Corri uma corrida desesperada.
Quase alcançada,
Uma força estranha me alçou
No topo de uma ramada.
Pausa negada,
Ouvi a serra e balancei,
Na queda  voei
Para a próxima retomada.
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Sempre andante

Uma primavera sorriu
E eu esqueci o rolar do tempo
Como a cigarra me lambuzei de canto.
Direito teu, o grilo assoprou,
Preguiçosa a formiga acusou.
Desmemoriada, não teci com o canto
O manto
Da alegria e do pranto
Que veste os humanos
Em qualquer canto.
Vejo-me à cata dos esquecidos
Para remendar os rasgados,
Colorir os esmaecidos,
Juntar os retalhos largados
Para cobrir o inverno
Com novo canto
Até a primavera recomeçar.