domingo, 23 de março de 2014

Perdas



Ela se foi quinze dias depois do marido. Tudo aconteceu da melhor maneira, foi meu primeiro pensamento. A grande preocupação dele era morrer primeiro, porque ela já estava mentalmente se ausentando há alguns anos e cada vez mais não podia dar conta de si. Ele se mantinha a seu lado e queria continuar a fazê-lo.
Senti que perdera mais uma pessoa. Na verdade, eu a perdera há bastante tempo. Foi quando fui visitá-la e ela não me reconheceu. Mas, a maior surpresa na época foi ela falar de fantasmas que eu supunha inexistentes. Coisas  de perseguição por ser quem era. Desgosto por ter sido preterida num grupo de trabalho e outros delírios. Ouvi com tristeza que o que ela tinha para dizer contrastava com tudo o que ela foi em nossa convivência na escola. Só consegui falar-lhe de minhas lembranças que eram muitas e bonitas. Torci para que tenham chegado a sua frágil consciência. Foi com ela que aprendi a ver minhas próprias contradições no meu trabalho e a dar-me conta do que era fundamental perseguir. Ambas éramos professoras de geografia e ela me ensinou a ser melhor como profissional e como pessoa. Eu era jovem e ela, vinte anos mais velha, nos ultrapassava a todos com sua visão do que a escola deveria fazer e de como tratar os alunos. Sua falta de agressividade era inversamente proporcional à sua garra em defender ideias e à sua criatividade em sala de aula.
Com a notícia de sua morte, senti-me mais velha, no sentido que Fernanda Montenegro um dia expressou. O duro de envelhecer, dizia ela, é perder as memórias que se vão com as pessoas que amamos. Por isso, penso sobre o momento em que essas perdas se dão. Minha amiga morreu no mês passado e só fiquei sabendo agora. Lamentei não ter estado perto dela nos rituais de despedida, embora reforçando a ideia de que foi outro o momento, ou os momentos gradativos, em que a perdi. Lembro de tê-la encontrado passeando pelo Parcão alguns anos atrás. Cumprimentei-a com alegria e sua resposta não foi a mesma de sempre, uma frase curta e vagarosa acompanhada de um cumprimento do marido que foi afastando-a gentilmente sem dar espaço para maiores conversas. Só mais tarde, compreendi o gesto amoroso e protetor. Teria havido outros momentos em que ela se foi distanciando e eu não percebi? Não nos víamos com frequência, mas, quando acontecia, o afeto se fazia presente com naturalidade. Eu tinha por ela um profundo respeito e uma enorme admiração. Ela foi uma pessoa que marcou minha vida, embora não possa ser medido pelo tempo de convivência. Pode ser medido pela dor que sinto por não ser mais possível vê-la. Resta-me lembrá-la.
Nos últimos anos, respeitei o que entendi ser desejo do marido, o de preservá-la em seus limites. Na última vez que telefonei para tentar mais uma visita, intiuí o pudor em não mostrar, mesmo às amigas, o processo de desligamento do mundo em que ela se encontrava. Guardo suas preocupações e cuidados. Em vários momentos me perguntei como estariam os dois e lhes desejei o melhor que a vida poderia lhes proporcionar.
Até fevereiro deste ano, e apesar de tudo, existia sempre a possibilidade de vê-la e abraçá-la. Agora, só posso agradecer por termos caminhado juntas algum tempo de nossas vidas e por tudo o que ela me ofereceu. Não diminui a tristeza, mas consola ter podido conviver e partilhar experiências inesquecíveis com ela.

Esta é uma homenagem a REISLA UNIS, minha amiga e colega no Godói na década de 1970.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Antídoto





Descrer, lamentar-se, deprimir-se porque vemos as faces de um mundo que não queremos, é preencher um tempo sem futuro. Entristecer-se com os males que nos rodeiam é diverso, a tristeza é um sentimento que nos solidariza com a dor do outro.  Ou, indignar-se e lutar de alguma forma para mudar o que está aí. Descrer é abdicar da possibilidade de fazer. Lamentar-se é dar voz à queixa que nos tira do lugar de realizarmos alguma coisa. Deprimir-se é dobrar-se sobre a própria dor e ser incapaz de reagir.
Numa recente entrevista, Silvio Tendler analisava a questão do cinema no país, desenhava um quadro lúcido sobre a situação, nada boa para o seu trabalho e o de sua área. No entanto, ele falava dos seus projetos e de sua paixão pelo seu trabalho. Entremeava críticas com alternativas possíveis em termos de políticas públicas para o setor. Apresentava sua forma de lutar pelo que acredita.
Noutro recorte do cotidiano, o depoimento de Duca Leindecker sobre o fato de ter sido assaltado e terem levado seu carro. Uma declaração de que não podia se igualar aos bandidos, não poderia ter reagido porque não saberia fazê-lo e, portanto, havia entregue os seus pertences e defendido a vida. Evitou superestimar o ocorrido e enfocou no seu trabalho, cujas atividades exigiram que ele usasse uma moto para se deslocar. Afirmou sua decisão de seguir, tinha muito que fazer.
Releio a notícia da recente morte de Claudio Abbado, um dos maiores regentes de orquestra da Itália e do mundo. Revejo a entrevista dada à televisão italiana em 2010, onde expressa sua fé na cultura e sua paixão pelo trabalho numa história repleta de exemplos de capacidade de congregação de artistas, de experiências com diferentes orquestras em diferentes cidades e países, de formação de grupos, enfim de seu amor pela vida predominantemente através da música.
Na atual exposição de tapeçarias, que é um encanto, Zoravia Bettiol nos ofereceu uma apaixonada declaração de amor pelo trabalho que executa, com uma doçura que só é possível em alguém que está em paz consigo mesmo e que se concentra em criar beleza. Mas, não para por aí, tem mil projetos e seu pensamento corre acelerado.
Tudo isso faz lembrar mil outros exemplos de vida cotidiana, gestos e atitudes que compõem as miríades formas de viver o dia. Eles mostram outras paisagens deste multifacetado mundo que muitas vezes assusta. São um antídoto aos nossos temores e um chamamento para despotencializar o medo com a soma de esforços para construir o mundo que queremos, mais justo e fraterno. É tarefa conjunta, não solitária.
Abbado tem razão ao listar os motivos porque os governos devem valorizar a cultura, e nós também, para neutralizar o lado sombrio que nos acompanha. Seu último argumento: a cultura é como a vida, e a vida é bonita! Poderia ser acrescentado: a vida é uma tapeçaria esplêndida feita a muitas mãos através de urdiduras, tramas e cores.