segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Onde estão as ideias?



Onde estão as ideias? Não há futuro. Grita a personagem da peça. E o desenrolar do texto de ESTREMEÇO da Cia. Stravaganza nos provoca a pensar o mundo em que vivemos. Há perguntas, não há respostas, há que se buscá-las  dentro de cada um de nós. Mas, nós não somos corpúsculos que dançam soltos no ar, fazemos parte deste mundo, nas suas tantas frações que estão conectadas, quer saibamos disso ou não. E o problema é quando não se sabe ou não se quer saber.
As lágrimas correram mais de uma vez ao ver o filme de Maria de Medeiros REPARE BEM. O poder e a crueldade de torturadores, alguns ainda hoje a desafiar a justiça com seu silêncio ou reafirmação do que fizeram. A dor e a impotência de pessoas submetidas pela força, bem como a busca para a superação de sua condição desfilaram durante quase duas horas. Pensei que sabia o que foi a ditadura de 64, mas percebi meu equívoco, muito ainda tenho a responsabilidade de saber. Algumas pessoas, que ainda estão vivas, sofreram o que nenhum ser humano merece sofrer, e foram divididas no mundo, mas continuam convivendo com seu passado e procurando até hoje superar os traumas. Uma luta contínua e que não acabou. O pedido de perdão feito pelo Estado Brasileiro é um bálsamo e faz com que a luta daqueles que pereceram não tenha sido em vão, tenha valido a pena, como afirmou a filha de um preso político – que não chegou a conhecê-lo – torturado e morto nas dependências do sistema repressor.  Na saída do cinema, a troca de algumas palavras emocionadas com alguém que também foi preso e torturado e, da plateia, reviveu os horrores passados.
“Aqueles meninos estavam à toa na vida, entediados, frustrados por serem repetentes, acovardados diante da segunda-feira...”  Leio essas palavras de Nilson Souza sobre o incêndio de uma escola por ex-alunos, que são entremeadas com a música de Chico Buarque “Ah, se alguém, em algum momento pretérito, os tivessem chamado para ver a banda passar, cantando coisas de amor.” E declara sua dúvida sobre se teriam feito o que fizeram com sua escola. Um pensamento que foge da simples acusação e penalidade. Seres humanos jovens com seu futuro barrado e que lembram tantos em mesma situação.
Dentre muitos outros, alguns olhares sobre o sofrimento do outro, sobre a  luta para que a impotência não ganhe espaço. Algo está sendo feito. Sempre. As ideias circulam no teatro, no cinema, nos textos de articulistas lúcidos, no desejo das pessoas que buscam estas ideias e que não se conformam com o mundo que está aí. São agenciamentos que lutam todo o tempo contra o rancor, ódio ou indiferença de quem se fecha nestes sentimentos e não quer saber. A recusa em ver e tentar compreender é um caminho para a impotência. Impotência para defender a vida.
Ideias e futuro, lhes sinto o cheiro e lhes vejo as cores, no lusco-fusco do caminho de viver com o outro.

Um comentário:

  1. Só uma pessoa com tanta sensibilidade pode escrever o que, quando e como quiser...belo texto! Sou suspeito para falar, pois sempre é um deleite ler as tuas palavras.

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