sexta-feira, 11 de maio de 2012

Anestesia do olhar


Mais um dia  começa, as mesmas notícias travestidas. Largo o jornal, não posso sair, porque estão arrumando a janela da sala. Volto ao jornal, desta vez, ao caderno de artes.  Reanimo-me, como náufrago que está a desistir, esgotado, e encontra um pedaço de madeira onde se agarra com um sopro de esperança.  Leio: coletivos realizam performances urbanas, festivais, peças de teatro ao ar livre, para combater a “anestesia do olhar”, não procuram os melhores lugares, mas os lugares feios da cidade para atuar e sacudir os sentidos dos passantes. À margem do sistema, não procuram  patrocínios, fazem campanhas entre grupos e vão tentar mexer com o mundo. Vem a lembrança de incontáveis ações semelhantes no interior de comunidades marginalizadas. Também, a recente manifestação de Theo Angelopoulos, que, pouco antes de morrer em trágico acidente,  afirmou ser necessário à Grécia, neste tempo de crise e caos,  viver a solidariedade como no pós-guerra. A solidariedade como acontecimento. Lembro meus estudos teóricos, os esforços para encontrar ideias que me fortalecessem, seguir, buscar. O acontecimento em Deleuze, como algo que irrompe e produz necessariamente desdobramentos, a diferença na realidade. Estar atento, agarrar a fagulha inesperada, imprevisível, potente, capaz de negar o destino, criar outros caminhos. Está sempre na relação entre dois pontos. Retorno às performances e às interferências, é preciso sacudir o “olhar anestesiado”, é preciso fazer da indiferença um desejo de voltar para Ítaca, abandonar o oceano do desamparo no exacerbado individualismo, voltar para casa, voltar a olhar o outro como seu semelhante, à responsabilidade por si e pelo outro, a melhor forma de ser humano. O outro que está sempre próximo, dentro de casa, no apartamento ao lado, ao andar pela rua, no ônibus, na fila para alguma coisa. O outro que é aquele sem o qual não existo. O  outro que me dá os parâmetros do que é minha vida. Para enxergá-lo, um dos caminhos é a arte que, com o processo criativo, com o mostrar o que o cotidiano empalidece e oculta, com a revelação de mundos diferentes, com o rir, mas também, pensar as mazelas da natureza humana, nos sacode e arranca da “anestesia do olhar”, produzida pelos hábitos do viver o cotidiano. Arte como antídoto para a anestesia. Arte como fonte de energia.