A beleza do lugar dá-se a conhecer pouco a pouco.
O brilho do sol torna-se mais intenso ao toque das tantas nuanças das folhas que balançam preguiçosas. Há um tempo que se completa aí em cada instante. Um pulsar de cores e sons vai crescendo e, naquela hora da manhã em que a brisa se torna mais forte e pode-se ouvi-la, ela também refletida de verde, ao trespassar as ramagens. Um som delicado e contínuo como um sussurro de fundo ao cantar dos passarinhos. Eles brincam de esconde-esconde, ou em jogos de amor aos pares em voos frenéticos, com a urgência dos amantes, ou nas pausas para tocar o solo e alimentar-se de sementes e outros manjares invisíveis ao olhar humano. Acasalando-se com o verde, enrodilhados nele, o branco, o fúcsia e o rosa das três-marias despontam aqui e ali numa grande árvore orgulhosa de servir-lhe de sustentação em abraços coloridos.
A natureza generosa oferece araçás amarelos e vermelhos, jamelões e jabuticabas, que cobrem o solo, já que nem os humanos, nem os habitantes voadores não dão conta de comê-los. Gosto perdido de fruta recém colhida remete à infância. Um pulsar de cheiros e sabores em que a interferência humana se mostra também nos canteiros cultivados com a salsa, o alecrim e manjerona e parecem dizer que tanto mais ofereceriam, quanto as mãos quisessem plantar.
A grama reveste o solo e oferece a pés indiferentes uma maciez conseguida por incontáveis pequenas folhas aparadas e próximas uniformemente. Revela um pulsar de cuidados que faz nascer um verde homogêneo abraçando o contorno das árvores, da casa ao meio do terreno, dos canteiros, das pedras e dos caminhos, como se um pintor metódico houvesse derramado com cuidado uma tinta mágica e reluzente.
Uma caminhada de uns cinquenta metros une o lugar às margens da lagoa. Há um pulsar nas águas convidativas com seu ondular tranquilo, às vezes encrespadas ou levemente agitadas, dependendo dos caprichos do vento que igualmente lhe muda a cor predominantemente esverdeada. Tépidas e límpidas envolvem o corpo sem susto e permitem se encantar com os peixes, os juncos, os barcos, os mil efeitos na sua superfície. Os morros ao redor como colo materno a embalar a concha de diferentes pulsares da vida.
Tudo isso, no entanto, tem o sentido que o olhar e a ação humana lhes dão. Usufruir o que a natureza oferece numa harmonia que a preserve, desgastá-la como se fosse infinita, ignorá-la ou menosprezá-la. Tantos caminhos!
Esta é uma homenagem em agradecimento aos amigos Bia, Marcos, Vera e Niúra, que generosamente me possibilitaram estar neste lugar por alguns maravilhosos dias.
