Fotografia de Luciano Rodrigues Soares - FloraRS
Sua forma escandente lembra um “chorão”.
A erva-de-passarinho enche os olhos, enfeita galhos, confunde-se com a estrutura de copa da planta hospedeira, desce com elegância do meio do verde e misturada em abraços.
Mostra-se vigorosa e saudável. Saudável ela é, o problema é que adoece quem ela parasita sem que pareça fazê-lo. Alimenta-se do outro. Realiza sua condição de abastecer pássaros com seus frutos e eles retribuem, dispersando-os e fazendo-a proliferar-se. Ela não é preconceituosa, é democrática, cresce onde seu fruto for depositado. É preciso arrancá-la logo que apareça, para que a sua hospedeira dela se livre. Seu mal feito é lento e inexorável, seus estragos são cruéis. Mas, para quem não a conhece é um enfeite. O florescimento intenso e o perfume agradável dificultam expor seu poder e sua extirpação. A aparência oculta-lhe a dependência de quem ela explora, porque ela não se basta, sem usurpação ela não existe.
Este parasita, com suas dezenas de espécies, lembra o consumo desenfreado a cujo canto de sereia os seres humanos estão expostos e mantidos escravos. Escravos que o sustentam e de quem lhes são dependentes. Excessos contaminam e misturam-se à estrutura da mente, que acaba detectando apenas seu brilho e prazer. Promessas ilusórias proliferam incontroláveis na mídia e conquistam corações, modificam canais de percepção, mimetizam-se numa desejada forma escandente de viver. A partir deste ponto, difícil o retorno. Uma erva-de-passarinho mental difícil de arrancar, alimenta os que se aproximam e prolifera consumidores, confunde satisfazer necessidades com multiplicá-las compulsivamente e vê-las como um inevitável modo de vida.
A diferença é que a erva-de-passarinho cumpre seu destino inevitável. O ser humano cria seu futuro.