Escolas atacadas por vandalismos, igrejas com portas cerradas, monumentos públicos depredados ou roubados, telefones coletivos inutilizados, prédios pichados, sinalização viária desfigurada, lixo nas calçadas escarafunchado.
Estaríamos nos tornando piores? Seriam as minorias marginalizadas o “mal” que ataca a parte mais beneficiada da cidade? Faltariam leis, ou modificações nas que existem? Haveria uma incompetência do Estado para gerenciar os diferentes segmentos sociais?
E a lista de “pequenas” irresponsabilidades em apenas um micro espaço urbano: um condomínio? A não seleção de lixo, o cigarro jogado pela janela, cachorros que latem insistentemente dentro do apartamento, o banho demorado, porque a conta de água é dividida.
Em todos os casos, percebe-se a não preocupação com o que provoco com minhas ações. Ou seja, vale o que eu quero fazer. Um individualismo em que o outro só existe na dimensão daquilo que pode me ser útil. Eu não preciso ser-lhe igualmente benéfico . Não há reciprocidade, porque não me vejo parte do seu mundo. Numa situação, eu depredo; na outra, eu ignoro.
A par de todas as explicações já veiculadas sobre o comportamento humano, pode-se destacar uma razão. Os que depredam não se sentem parte da escola, da igreja, da cidade, e, portanto, não precisam zelar por elas. Num condomínio, há também os que dizem o mesmo. Em outras palavras, só se interessam pelo seu nicho e por aquilo que, eventualmente, os possa incomodar.
Um exemplo de ação coletiva de maiores proporções, a última revolta em Londres, é vista como crime pelas autoridades, mas diferentemente por muitos, dentre os quais uma assistente social que lá trabalha. Segundo ela “Se você não se sente parte de um país, por que cuidar dele?” Isso nos remete à questão de que lá é o caso de uma juventude não totalmente empobrecida, mas na situação de que não lhe é permitido o consumo de produtos que se tornam fetiche numa sociedade bombardeada por propaganda destes produtos, uma sociedade que diz o tempo todo que você vale pelo que compra.
Respeitadas as diferenças, são todas questões de não pertencimento construídas numa sociedade de consumo globalizada. O mecanismo é a construção do individualismo, porque coopta pela ideia de ter, de possuir coisas, mas exclui, porque não cumpre a promessa para todos. Realiza o não pertencimento para muitos
Felizmente, um mapa de forças vivas, que se atraem e se repelem, está em contínua produção. Assim, ao mesmo tempo, um sem número de “contra ações” criticam o modelo de sociedade, defendem outras formas de viver e conviver, propiciam relações de aproximação e de solidariedade, movimentam grupos ao redor da criatividade artística. Tudo isso oferece a chance de compreender o lugar que cada um ocupa no mundo, bem como os mecanismos que o produzem.
Talvez, o mundo não seja nem pior, nem melhor, mas muito mais complexo e a tarefa de compreendê-lo, e a ele pertencer, mais complicada.
Olá Maria Rosa:
ResponderExcluirMuito obrigado por mais esta pérola, a qual me auxiliou no meu processo de ser/fazer gente cósmica melhor.
José Ubirajara de Castro - Alcântara - MA
Um belo apanhado das diversas formas de estar no mundo à maneira da humanidade. Os diversos olhares em relação ao outro: igual, inferior, superior, indiferente, hostil, ignorando o único modo justo, ou seja, não fazer ao outro o que não quer que façam a si. Parabéns, Mirosa! (Scyla)
ResponderExcluirUm belo texto para refletir em como nos comportamos e que ações praticamos dentro da sociedade. O melhor exercício que podemos fazer é nos colocarmos no lugar do outro e deixarmos de pensar que somos o centro do universo. Então,talvez possamos entender melhor o significado de conviver.
ResponderExcluirMaureen
Oi Rosa, um texto bem contemporâneo, pois o individualismo, a falta de sentido coletivo parecem muito acentuados. Fez sentido para mim. abraço, Rosângela
ResponderExcluirAgora mudaste a prosa. Penso que isto aí é crônica. Estás cronicando-falando a respeito-sobre um tem da atualidade e mostrando tua posição a respeito. Talvez ficasse mais perfeito se a isso acrescentasses alguma comprovação científica ou estatística para enriquecimento e crédito aos que leem.
ResponderExcluirÉ uma manifestação tão antiga quanto moderna. A violência já faz parte do cotidiano de todos, principalmente daqueles profissionais que fazem do público a razão de seu trabalho. O maior exemplo disso são os professores, os psicólogos e os artistas, de um modo em geral. Tua crônica está bem qualificada porque teus argumentos são pertinentes. Ou seja, não são mentirosos nem inventados. Mas, lembra-te, que a crônica também tem a função de informar o leitor de um tema da atualidade e em tela. E chega de aula, por hoje, senão vou pensar que sou professor. Baccios... Jorge Du