Eles se foram.
Como Cazuza cantou, o tempo não para. Este não parar colore de irrealidade a sequência de acontecimentos e lembranças que se revisita aos saltos. O pensamento não é linear e ali reside sua beleza e sua criatividade. Repasso o dia em que me telefonaram e disseram: daqui a dois anos vamos te visitar. Essa antecedência povoou o tempo de expectativas e sentimentos diversos, culminância de um convite feito tantas vezes, concretização da esperança de ser aceito, oportunidade de retribuição do carinho recebido quando eu e meus filhos, e amigos nos acompanharam na ida à cidade e a sua casa. O que estava tão longe foi se aproximando até poder ser tocado. Enfim, revê-los, chegando ao aeroporto e poder abraçá-los como ocorreu comigo mais de dez anos antes.
Muitas foram as vezes em que antecipei sua chegada e de como seria. Igualmente, antecipei que a alegria de tê-los terminaria. Antecipei imagens e sentimentos. No entanto, nada se igualou ao realmente acontecido, ao contato, aos sorrisos, aos gestos, à proximidade compartilhada.
Com eles vivi quinze dias intensos, o primeiro almoço, feito com especial atenção. As risadas que se seguiram, dias depois, quando soube que um deles odiava sopa e eu havia feito uma receita única de creme de ervilhas, servido na chegada e na janta.
A descoberta, aos poucos, de suas preferências e a expulsão da sopa do cardápio. O oferecimento dos pratos típicos daqui. A apresentação a nossas castanhas do Pará e caju. O encanto com a goiabada, por eles denominada “marmellata di goiaba”, o sabor diferente das bananas e do mamão formosa. Levá-los a conhecer nossos restaurantes com bufê abundante, saboroso e possibilidade de repetir à vontade. A surpresa e incredulidade diante da contínua oferta de carnes, as mais variadas, em churrascarias e galeterias, enquanto houvesse o desejo de comê-las, coisas inimagináveis no lugar de onde vieram.
A recepção e congraçamento com meus filhos, noras, genro e netos, amigos, numa rede de expectativas e descobertas do modo de vida daqui, tão longe.
O centro histórico de Porto Alegre com belezas que se igualam a outros centros de sua própria terra, o bric da Redenção, mesmo sem o costumeiro e esplendoroso sol.
O passeio turístico pela zona sul da cidade, mostrando outras paisagens urbano-rurais desconhecidas até por mim. A visão da cidade de longe e do alto, numa mistura de concentração de prédios, o rio Guaíba costeando e a moldura dos morros.
As visitas à Serra Gaúcha, num dia de chuva que literalmente nublou a paisagem do Vale dos Vinhedos e que não foi vista no seu esplendor. Noutro dia ensolarado, a subida pela BR-116 até Caxias e no interior dela, permitindo uma vista do alto de um morro, restaurante atendido pela terceira geração de famílias de imigrantes italianos. O depoimento de que aquela paisagem lembrava a Umbria.
O Beira-Rio foi visto de fora, mas foi assistida uma partida no estádio do Grêmio.
Faltaram muitas visitas, no entanto, ficou a promessa de “isto fica para a próxima vez”, uma longa lista. Pode haver sempre uma próxima vez e desejos a realizar, encanto que nos move e continua a nos unir.
Tudo isso refere-se a parentes que vieram de Nervesa dela Battaglia / Provincia di Treviso, lugar onde nasci. Desde a primeira vez que para lá retornei, convidava-os a conhecer a terra que acolheu minha família na década de 1950 e aquela em que vivo com a família que constituí.
Enfim, realizou-se um tempo de estreitamento de laços, realização de sonhos, compartilhamento de afetos, há tanto esperado, no extremo sul deste “meu atual” país.


Mirosa!
ResponderExcluirque alegria deves ter vivido com teus parentes queridos!
Lindo depoimento.
Grande abraço
Maria Rosa,
ResponderExcluirQue bela visita! Revigorando a alma...
Beijos,
Carol Galvão
A convivência com os parentes distantes revive. Te fez enlaçada novamente com a tua Italia, mas de uma forma que, desta vez, eles que vieram a conhecer e entender um pouco mais de ti, enquanto vieram ver onde e o quê vives.Beijo. Vinicius
ResponderExcluirFamília, a cada encontro aproxima mais, vincula, gostinho de quero mais...
ResponderExcluirBelo texto!
Abraço,
Márcia