Vejo adolescentes que imagino com quatorze ou quinze anos e lembro de meu neto, o primeiro. Reconheço-o em tudo o que de bom há neles e rejeito as malcriações que eventualmente façam. Sei que o idealizo e não quero deixar de fazê-lo, é o meu amor que fala mais alto. Rio da parcialidade desnecessária com que o retrato, porque nada nele me faria amá-lo menos.
Não esqueci que já fui adolescente. Tive meus segredos e minhas transgressões, ele também deve tê-los, são os voos necessários e os terá numerosos, uns fáceis, outros difíceis. Foi leitor incansável, hoje está em fase de certo distanciamento, tenho certeza de que se reconciliará com a literatura. A escola, que ele diz ser cansativa, lhe é fácil. Na certa, tem limitações e conflitos – já fui testemunha de um ou outro -, por isso, torço para que as dificuldades enfrentadas o fortaleçam e possam ser superadas com o menor custo. Sempre há um preço para crescer e se tornar adulto.
Sinto-me sua cúmplice, quando, aos domingos, com seu jeito que não é mais de um menino e já me ultrapassou na altura, vem perguntar se não há um salgadinho enquanto espera o almoço ficar pronto. Às vezes, esqueço de suprir o canto do armário que ele conhece e encontra vazio. Desculpo-me e vou rapidamente cortar um pedaço de queijo que ele gosta. Mas, ele diz logo: Tudo bem, vó! Mesma resposta que me dava quando íamos ao supermercado, no final de semana, aos seus cinco ou seis anos e nosso acordo era de que ele poderia comprar apenas uma “porcaria” que todos gostavam, salgadinho ou doce.
Quando vem dormir aqui em casa – agora, mais espaçadamente do que quando pequeno –, e esquece os chinelos, vou em busca de um par deixado por seu tio que se mudou para outra cidade e cujo quarto continua intacto, com coisas deixadas para trás, como fazem os filhos quando se vão. Agora ele o ocupa, mantendo-se a corrente de outras crianças que nascem, crescem e povoam esta casa. Bendito ciclo da vida.
Há também alguns momentos de resmungos meus, quando ele não atende aos vários chamados para jantar, porque absorto no computador. Ou, quando não quer comer a fruta que insisto em oferecer. Ou, ainda, quando lhe digo para colocar um casaco, pois está frio, e ele responde com um: Pô, parece minha mãe! Raras ocasiões de tensão.
Ele vem e traz poesia para o meu envelhecimento. Ele nem imagina quanto lhe agradeço por todas as horas que gastei ao longo de sua existência, aos sábados, quando vinha “me fazer companhia”, trocando fraldas, banho, mamadeira, remedinhos, algum choro noturno pedindo pelo papai ou pela mamãe, conversas com carinho e apaziguamento. Tudo foi ficando aos poucos para trás, agora é o corte de cabelo e o cuidado com as espinhas que partilho com ele.
Sempre tive presente que chegaria o momento em que os amigos seriam mais importantes. Este tempo chegou e quase não dorme aqui em casa aos sábados. Vem almoçar aos domingos junto com os pais e irmãzinha. Chegará um tempo em que também aos domingos não o verei. Estará tudo bem.
Quero-lhe um futuro onde os tropeços sirvam para torná-lo melhor e os sucessos sejam sempre acompanhados de afeto. Para o tempo vindouro, incluo a esperança de que a casa da avó seja a lembrança a ser partilhada com os próprios filhos, como um lugar onde sempre chegou sem reservas e com a confiança de ter recebido amor incondicional.

Quanto afeto! Afetei-me! Bj Caroline Galvão
ResponderExcluirMuito bom o teu texto, Maria Rosa, linguagem correta, acessível,envolvente.
ResponderExcluirOs avós tem uma função de continuidade na educação,são os avós q carregam essa herança,e, ao repassar,ajudam na construção das raízes. O neto cresce mas o afeto ñ diminui,muda apenas a forma de demonstrá-lo. Sabemos q todo adolescente quer alçar voos de liberdade antes de ter asas emplumadas, mas no futuro saberão sair do casulo e como as borboletas observarão o mundo e adquirirão valores imperecíveis, necessários à felicidade do ser. No entanto, Amiga, sabemos q eles,filhos e netos,serão sempre para nós o melhor e + caro presente.
Continue nos brindando c/teus textos.bjs.
Zaira
Oi Maria Rosa!
ResponderExcluirLindo!!! Fiquei emocionada...
Beijos,
Titi
Texto sensível, nos remete ao crescimento, a vida.
ResponderExcluirAbraço, Márcia.