Interessante como funcionam nossas lembranças. Tal como uma rede assimétrica de linhas que se cruzam, se afastam, se reconectam mais adiante, num emaranhado que parece, mas não é, absolutamente caótico. Pelo contrário, organizadas qual rede clandestina que só se mostra/dá a ver quando desbaratada.
Estava eu lendo um artigo, imersa com prazer nos seus diferentes conceitos e exposições, quando surgiu a palavra tautologia. Tive dúvidas quanto ao seu emprego numa frase e busquei um dicionário.
No tempo que separou os atos de buscá-lo e encontrá-lo, lembrei-me, sem motivo consciente algum, de uma entrevista que fiz com um homem de mais de sessenta anos para um programa de alfabetização de adultos, o qual coordenava e no qual depositava muitas expectativas. Na ocasião, ele havia falado uma palavra que sua pronúncia e minha total ignorância dificultaram-me a compreensão. Veio-me o desejo de lembrar tal palavra, mas não conseguia. Encontrei um dicionário etimológico, não era o procurado, mas mesmo assim folhei-o: T... Tábua... Taifa... e, antes de encontrar tautologia, lembrei de repente, com luminosidade, a palavra era tafona. Era essa a palavra: tafona. Desviei-me do primeiro propósito e procurei-a com certo gosto. Gosto da lembrança? Gosto daquela experiência de outrora? Não deu tempo de responder. Meus neurônios a recuperaram, mas não existia naquelas páginas. Ela não estava lá e sua ausência trouxe-me de volta ao presente, para o termo inicial procurado. Havia tautó=o mesmo.
Fui em busca de tautologia no dicionário da língua portuguesa, perguntando-me o que haveria de conexão entre tautologia, que eu procurava, e tafona, que se interpôs intempestiva no curso do meu pensamento. Corte na cena, introdução de novo elemento. Talvez, algo mais que um dicionário possa me explicar, mas registrei significados encontrados. Tautologia: redundância, pleonasmo. Tafona (atafona): moinho, processamento de grãos.
Muitas coisas me vieram à cabeça, registro apenas uma: o inconsciente entende de semântica, me fez remoer e repetir momentos prazerosos, na redundância do processamento de minhas lembranças.
Uma delícia a leitura!
ResponderExcluirMirosa, parabéns pelo blog.
ResponderExcluirAdorei passear por ele saboreando teus textos, imaginando tuas imagens, teus personagens.
Carinho da Bel