terça-feira, 14 de maio de 2024

A medida da água


A palavra se escondeu de mim nestes últimos longos dias. Ela voltou há pouco e está me ajudando a elaborar o que está acontecendo e a dor imensa que causa.

Há quem se cerque de um ou mais animais de estimação dentro do apartamento. Há quem prefira se cercar de plantas. Estou no segundo caso.

Gosto de olhá-las todo o dia, tirar as folhas secas, ver quando aparece alguma flor, no caso das violetas e orquídeas, ou quando aparecem as folhas novas e o verde muda de tonalidade à medida que cresce. E vejo elas se virarem para a luz da janela. Nem todas eu sei o nome, nem todas querem a mesma quantidade de água, o que fiz antigamente e perdi algumas delas. As violetas precisam de umidade, mas menos que outra planta parecida com elas, com ramos que se esparramam e descem do vaso. Tenho uma folhagem com desenhos lindos que parecem feitos por um artista, disseram-me que é planta do mato, quer a terra sempre úmida, suas folhas se juntam num feixe vertical à noite e se abrem com a luz do dia. Lindo de ver o movimento das plantas. E as espadas de são Jorge (tenho outras parecidas, com outro nome), também precisam de bastante água, elas seguem sempre na vertical independente do lugar onde estejam. Precisa dar bem menos água para as orquídeas. E para os cactos nem se fala (ainda não consegui acertar, já afoguei alguns deles). Depois de ter dado água demais para minha zamioculca, e depois de ver mais de um broto definhar, aprendi que ela precisa de pouca água, até menos que as orquídeas. Custei a dosar a água necessária para cada espécie.

Nos dias que estamos vivendo, a água está presente em cada momento, diante dos olhos, nas preocupações, na falta, nos pesadelos. Ela nos faz repensar o passado e nos empurra a planejar o futuro. Vivemos um presente que joga a conta dos nossos erros. Quando muitos de nós ficaram sem água potável e, alguns como nós, só precisaram racionar, recolhi água da chuva para as minhas plantas. A ironia de termos água por todo o lado, chuva forte e incessante, rios transbordando e sem ou pouca água na torneira.

Aprendi no ensaio e erro. Deveria ter buscado informações para aguar corretamente minhas plantas. Por descuido, por achar que sabia, por ignorar informações (algumas não lhes dei importância), enfim, negligência com algo que sempre afirmei gostar muito. Depois de bastante tempo, talvez meses, vejo dois brotos no vaso da zamioculca. Um deles no mesmo lugar do outro que não deixei crescer. Fui acariciá-los de leve, com cuidado, senti sua superfície lisa e fria de folha. Agradeci sua vinda. Lembrei os que foram atingidos e lhes desejei também renascer mais fortes.

Estes instantes em que escrevo, os primeiros durante os quais consigo chegar ao teclado, são um bálsamo à dor pelos amigos atingidos e à de todos os que tiveram a perda de alguém ou de coisas materiais. Um mundo de horror diante de olhos impotentes que sequer podiam transformá-lo em palavras.

Estou na torcida para que os que estão no poder tratem do sofrimento de todos com o cuidado de seres delicados e frágeis que precisam de alguma forma renascer como brotos no terreno social. Ressalto “no poder”, porque há milhares de voluntários que fazem o que podem, desde os primeiros momentos, para ajudar os que precisam independente de erros dos outros. Trabalham movidos pela sensibilidade diante da dor do outro.

Há uma chuva de narrativas, não só de gotas de água, sobre a ação humana desastrosa com nossas matas e rios. E não é de agora. Não foi por falta de aviso de cientistas e estudiosos da natureza próxima e distante. A palavra foi teimosa e  circulou por inúmeros espaços e ao longo do tempo e não lhe deram ouvidos.

Por tudo isso, agora o perigo está na falta de seriedade e transparência de quem foi surdo aos apelos da ciência. Como farão a aplicação dos recursos que estão chegando de todos os lados? Não há mais lugar para a surdez e cegueira diante da realidade, nem para ensaio e erro, nem para maracutaias.

 

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Os números falam

 

Há alguns dias fui fazer exames de sangue na primeira hora da manhã. No retorno, após tomar café, liguei o computador como faço pela manhã quase diariamente.

Desejei escrever sobre minha dificuldade de colocar fora papéis. Foi a pequena tira que me lembrou disso. Nela foi escrito o número fornecido pela farmácia da qual sou cliente e me oferece desconto no exame de vitamina D. O meu plano de saúde não dá direito, e é um exame caro. Todo o ano, saio do laboratório e entro na farmácia ao lado, peço o número que comprova ser cliente, enquanto a atendente do laboratório me aguarda. No ano passado resolvi poupar a anotação e guardei o pequeno papel numa das repartições da carteira onde normalmente coloco cartão de crédito, identidade, algumas notas e moedas.

Desta vez, ao me apresentar ao balcão para o trâmite necessário aos exames, tirei também o papelzinho já amarelado pelo tempo. Fiquei surpresa, porque a atendente me disse que já não precisava dele, agora ela o acessaria através do cpf. Ao meu olhar de surpresa, ela gentilmente me disse que o usaria já que eu o tinha comigo. Feito isso eu voltei a dobrá-lo e recolocá-lo no seu antigo lugar. Em casa, pensei em jogar no lixo seco o papelzinho amarelado, não serve mais, mas acabei por colocá-lo aberto na frente do monitor. Fiquei olhando para ele, os números serviriam para algo mais que o desconto do laboratório? Poderia eu identificar um significado útil para a minha vida? Seria um indicador da numerologia para o meu futuro (já bem mais encurtado)? É um número grande, conto 16 algarismos, tem o número 7 com o qual simpatizo; o número 21 dia do meu nascimento; o número 3 o símbolo cristão da Trindade; o 14 ano do início da primeira guerra mundial no século XX (hoje seriam várias datas para essa guerra mundial em pedaços do séc. XXI); o 60 que marca o início de ser idoso (li que querem alterar para 65 diante da expectativa de vida atual,); imagino que a lei vai passar, o número 65 também está contemplado aqui; 23 é a idade com a qual casei; com 36 anos tive meu último filho.

Poderia eu fazer uma leitura da realidade atual, ou mesmo do futuro, através da leitura das inúmeras composições que podem emergir deste enorme número à minha frente? A fixação nele lembrou-me a resistência em jogá-lo fora, tipo um bilhete de loteria que compramos num momento qualquer, mas não acreditamos na própria sorte, mas o guardamos mesmo assim. O bilhete terá sua confirmação ou não. Este extenso número está sendo um convite à reflexão, à fuga do terremoto de notícias que já me fez adoecer. Este papel está me oferecendo algo sem precisar de sorteio.

A fileira de números no papelzinho marcado pelas dobras continua a me chamar, e composições se alternam numa coreografia ditada pelo meu olhar. Agora são pares que se sobressaem, mas eles se escolhem aleatoriamente – não só pela proximidade na fileira que uma caneta registrou –, e a variação cresce. O número 6 junta-se ao 4 e me lança o ano da ditadura; mas o quatro é instável e se aproxima do 5 para que eu lembre a morte de Getúlio em 54. Neste ponto, desisto. Não quero continuar neste caminho que está se tornando obsessivo em lembranças dolorosas. Esta recusa me fez parar e alisar o papelzinho. Dali, sobressaiu-se o 8, justo ele, escondido numa das dobras. O símbolo da vitória e da prosperidade, perdido no meio de tantos outros.  Sei também que significa a energia que une Terra e Universo, energia que não se esgota e leva ao infinito.

Precisou uma dobra num pequeno pedaço de papel para voltar a me lembrar da infinitesimal partícula que o ser humano ocupa na vastidão das incontáveis galáxias. Mesmo que eu guarde todos os papéis que passam por minhas mãos, nada vai ter importância. O que vale é lembrar o que somos no cosmos que habitamos por ínfimas frações de tempo. E todas as guerras poderiam desaparecer se evitássemos as guerras individuais que as geram. Ou seja, voltar às origens, ao número 8. Pelas previsões dos cientistas não nos sobra muito tempo.

 

 

 

Então, penso que este pequeno papel com este enorme número cumpriu sua função de lembrar o passado, mas também o lugar que ocupamos. É ali que estarão as energias para enfrentar os acontecimentos que nos jogam no desânimo e na impotência. É preciso se concentrar no número 8 e procurá-lo, quando escondido, é ali que poderão ser encontradas alternativas.

 

 

 

 

 

Paro uns instantes e detenho-me a olhar o pequeno desenho que me transporta para outros momentos e lugares, para outras dobras da minha vida. Vejo a necessidade de olhar para o que usualmente não faço. Talvez por isso eu tenha dificuldade de colocar papeis fora. Talvez eles estejam a me dizer para olhar o que tenho resistência em ver e em fazer. Uma resistência a me segurar entranhada na Terra e me impeça de olhar o Universo

 

 

 

quarta-feira, 27 de março de 2024

A tortura tem cor

 

Dia 14 de março de 2018, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, quando retornavam para casa. 2202 dias foram necessários para que os mandantes fossem denunciados. É impactante a entrevista com a assessora de Mariellle, Fernanda Chaves, sobrevivente ao assassinato deles. Foi preciso ter o governo atual para que isso acontecesse, declarou ela, ao relembrar os comportamentos estranhos da polícia civil e da polícia militar do Rio de Janeiro já no atendimento ao caso.

            Como cidadã comum, acompanhei o caso de longe e, muitas vezes, repostei a pergunta que a jornalista Eliane Brum fez diariamente  durante estes anos nas redes sociais: Quem mandou matar Marielle?

O jornalismo foi fundamental, ao menos o jornalismo investigativo comprometido com a verdade dos fatos. Sabe-se que a os principais meios de comunicação do país desde sempre estão ao lado do poder e, se não sonegam a verdade, muitas vezes a deturpam. Quem faz a diferença é a imprensa alternativa, graças a ela chegamos aos mandantes, os quais serão julgados de acordo com as leis do país.

No entanto, outro ponto foi destacado ao longo das análises sobre o caso Marielle. É o fato de que o seu assassinato está enraizado na história do país e, especificamente, do Rio de Janeiro e na formação das milícias que estão promiscuamente conectadas nas instituições públicas, polícia, Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa, ou seja, no próprio Estado. Por sua vez, a história local tem os seus antecedentes num terreno fértil adubado no período da ditadura, de onde emergem sujeitos implicados no assassinato de Marielle.

Por isso a memória é fundamental e, se muitos desmandos e muitos crimes estão acontecendo hoje, é justamente por ignorar esta memória. Na medida que nossa história não foi passada a limpo, na medida em que criminosos ainda não foram punidos, não podemos ultrapassar o círculo viciosos de crime/impunidade. A história se repetirá.

O caso Marielle, tal como está sendo encaminhado agora, é um alento para que a história não se repita, para que a memória seja preservada, protegida e acessada pelas gerações que se sucedem. O perigo está justamente em não preservá-la. Se o Governo Federal optou por não dar maior visibilidade à data dos 60 anos do Golpe de 1964 – imaginamos possíveis motivos – a sociedade civil e, principalmente o jornalismo comprometido com a democracia não está se calando. Felizmente.

Destaco o documentário “1964: Uma Ferida Aberta na Democracia” do excelente trabalho investigativo e educativo do ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Ali é lembrado um período tenebroso que precisa ser exorcizado, porque bate nos nossos calcanhares periodicamente e, sobretudo, nos cutuca com a dor de quem sofreu a tortura no próprio corpo e continua viva ainda hoje, sentindo os perigos do retorno daquele período. O horror que pode ser dito em algumas de suas palavras, o corpo torturado pode ficar verde ou azul.

Tortura nunca mais. Sem anistia.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Ecos às palavras

 

Acabo vendo alguma notícia na primeira hora da manhã e minha indignação desperta. Mas não consigo traduzir este sentimento, que me faz muito mal, numa reação prática aos horrores que estão acontecendo no mundo. A última notícia “o Ocidente joga sujo com a Palestina”. Joga sujo quer dizer que não faz o que deveria para acabar com o genocídio que está acontecendo lá. Vemos em tempo real matarem, matarem, matarem. E continuamos a viver nosso cotidiano, comemos, dormimos, damos risadas. É preciso fazer isso, não temos poder de interferir, nós, simples cidadãs e cidadãos de qualquer parte do mundo. Isto é terrível. Alguns dizem que isto sempre aconteceu, muitas vezes sem que soubéssemos. E não é a única guerra em curso. E que outros genocídios já aconteceram. E que temos nossas próprias guerras nas periferias de nossas cidades. E a nossa vida não se alterou, ou é de alguma forma alterada apenas eventualmente. Certo, mas saber e ver em tempo real é bem outra coisa.

Pergunto-me de que adianta ler uma considerável quantidade de análises, entender porque chegamos a isso, de poder me posicionar conscientemente e ter empatia pelo sofrimento alheio. O sentimento mais poderoso que emerge é o da impotência diante da barbárie a que chegou a humanidade. É terrível ser testemunha do horror de que são capazes nossos semelhantes, lá ou aqui, à revelia das conquistas das ciências e da capacidade de entendimento do que nos cerca no planeta e no universo.

Somos testemunha da ínfima presença do ser humano, num minúsculo planeta girando num canto de uma das bilhões de galáxias, e de sua tremenda capacidade letal, com a qual poderá nos levar à autodestruição. Tudo isso mostra já estarmos vivendo a distopia anunciada pela literatura nas últimas décadas. Ela vem sendo alimentada aos poucos, por isso mesmo não percebida por muitos, para desespero de quem tem acompanhado o crescimento dos seus tentáculos.

Então, para não sucumbir ao desamparo, procuro avidamente me conectar aos gritos de milhares de pessoas pelas ruas de incontáveis cidades, às vozes que não se cansam de exigir justiça seja onde for e um cessar das hostilidades nos lugares mais esquecidos. Procuro ouvir as canções, os poemas, os discursos, as histórias, e lembrar os pequenos gestos cotidianos de solidariedade, e os milhões de palavras lançadas nas redes de comunicação, criando narrativas que se contrapõem a quem está cego de ódio e de poder.

Há poucas horas encerrou-se o 74º Festival de Sanremo, seis noites de entretenimento com audiência recorde na Itália e no mundo. Um festival enraizado na cultura do país, jovens cantores ao lado de ícones da música italiana. Letras que expressam as relações afetivas com suas dores, contradições e os anseios individuais, outras com reflexões de cunho social. No conjunto, um espetáculo para reverenciar a música italiana na capacidade de se recriar através das novas gerações. Ao final de sua apresentação, o jovem Ghali, cuja letra tem implícita uma crítica social, reafirmou o que havia dito na noite anterior: Stop ao genocídio, sendo fortemente aplaudido e desaprovado por alguns no dia posterior.  Pode ser pouco, prefiro acreditar que a semente do inconformismo está germinando na geração que nos substitui. Vi naquela manifestação um sinal de esperança, um ar fresco e perfumado a nos convidar para ocupar espaços e fazer o que for possível do jeito de cada um. Em qualquer lugar, em qualquer tempo.

O meu gesto é somar-me a Ghali e fazer eco às suas palavras. E às de tantos outros que as disseram antes dele e continuarão a fazê-lo.

 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Banir a indiferença

 

Assisti à entrevista on-line de diversos jornalistas sobre o atual conflito entre Israel e a Faixa de Gaza no programa Casa Italia da RAI. Todos representantes de alguns dos maiores jornais italianos. Todos falaram sobre a situação de Israel. Dois ou três dias haviam se passado desde o ataque do Hamas. Não se pode dizer que suas análises não fossem verdadeiras. A chacina do grupo terrorista Hamas, o sofrimento da população israelense, as consequências sobre o modo de viver em Tel-Aviv e nas colônias espalhadas pelo território de Israel, a angústia sobre a situação as pessoas reféns do Hamas, o direito de o Estado de Israel se defender atacando a Faixa de Gaza.

Eu fui ouvindo as manifestações de pesar, embora mantivessem uma expressão facial próxima da neutralidade. Fui ouvindo e esperando que completassem suas palavras com algo referente à população palestina. Fui ouvindo aquelas vozes até o fim. A entrevista terminou, o programa passou para novo quadro e as pessoas que vivem na Faixa de Gaza sequer foram citadas. O povo palestino não foi citado sequer uma vez. O assunto só transcorreu sobre a ação terrível do Hamas, sobre o Estado de Israel e o sofrimento do povo israelense. Senti uma tristeza infinita por todos os seres humanos que estão sofrendo com a explosão do conflito, desliguei o televisor.

Nos noticiários do mundo todo, a voz de Israel predominava. Hamas era sinônimo de Palestina, a palavra povo era uma abstração. Quando invocadas, Hamas e Palestina, era para dizer que ninguém era inocente por lá. Uma forma de justificar os ataques indiscriminados de Israel em resposta ao ataque do Hamas.

É preciso lembrar que daquela faixa de terra, nenhum civil pode sair de lá há décadas, Israel não permite. Segundo palavras do governo, é uma questão de defesa.

Numa das notícias, ouvi o relato de um jornalista que esteve em Gaza. Ele perguntava a algumas pessoas sobre os muros construídos para separar os dois povos. Ninguém queria responder, então um senhor lhe disse que muitos jovens se envergonhavam, porque haviam ajudado a construí-los por falta de outro trabalho. Isto me fez pensar que muitos jovens poderiam ter sido atraídos para as fileiras do Hamas por falta de perspectiva. Quem nasce ali, não sai, fica ali até morrer. E a população é predominantemente jovem. Pensei também nos jovens de nossas periferias que são atraídos pelo tráfico por não terem outra alternativa no lugar onde nasceram e do qual não conseguem sair. Os muros daqui são de outra natureza, mas tão danosos quanto os de lá.

Passados alguns dias mais, e com a morte de milhares de civis palestinos, dentre os quais a maioria mulheres e crianças, vozes pelo mundo todo têm se manifestado contra as ações do exército israelense sobre uma população que não tem para onde fugir.

Não me cabe uma análise sobre a atual situação e a história daquela região com a instalação do Estado de Israel. Há inúmeras narrativas que buscam se ater aos fatos e à maior fidelidade e honestidade para com a verdade.

Como mulher que tem filhos e netos, fico imaginando a dor que grita por lá, ou silencia por falta de força para se expressar. É a mesma dor de todas as mulheres do mundo, sobretudo israelense e palestinas neste momento, sem esquecer todas as outras guerras que acontecem ao mesmo tempo. Como ser humano, assisto impotente à morte da humanidade que poderia estar vivendo e criando vida.

A indignação cresce a cada momento que esta matança continua. Além dos civis, sabemos quantas vidas de jovens combatentes (não importa qualquer lado) também estão sendo sacrificadas. E os que voltarão à vida cotidiana depois desta guerra terminar (de um jeito ou de outro ela vai terminar), haverá de ter seu preço no coração e mente de cada um, nenhum deles sairá impune. Como viverão junto a suas famílias depois do que tiveram que fazer e do que viram e foram cúmplices? A história é plena de relatos e de silêncios (por incapacidade de falar) dos que sobreviveram e voltaram. E este preço não será pago com o dinheiro ganho pelos donos das fábricas de armas (há cálculos obscenos neste sentido. Sempre há.). E os que os mandaram para matar estão no centro do poder, a reparo do conflito. Estes é que deveriam ser punidos. Rima com banidos. Infelizmente não acontece.

Por isso, evitar conflitos inúteis onde estivermos poderia ser uma colaboração para apaziguar nossos microcosmos. E, nos momentos de impotência, ao menos gritar nossa indignação contra qualquer guerra. Acredito que a indiferença deve ser banida, ela é uma ferramenta que acaba ferindo a nós mesmos de uma forma ou de outra, quer aceitemos ou não, porque somos capilares desde mesmo organismo vivo que é a Terra. Nenhum ser humano é uma ilha, só não vê quem não quer.

 

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O Caetano chegou

 

            O Caetano chegou.

As notícias da cidade, do país e do mundo me angustiam e tomam conta de mim e impedem a reflexão necessária para sentar e escrever. É como se os horrores que ocorrem me sugassem e me mantivessem ligada a eles por tentáculos. Um vício do qual não se consegue livrar-se.

Quem me ajudou na disciplina para usar o teclado foi a lembrança do Caetano. O último dos cinco netos. Ele chegou há poucos dias com a promessa de novos laços de afeto, aliás, já criados desde o primeiro colo com o temor que sua fragilidade de recém-nascido inspirou. Ou melhor, desde ter ouvido as batidas de seu coração, quando ainda uma pequena semente no útero de sua mãe. Gravação compartilhada na tela do computador dada a distância entre os pais (João Pessoa) e onde me encontro (Porto Alegre). Meu coração respondeu acelerando e meus olhos úmidos brilharam. O mundo inteiro brilhou naquele momento. E brilhou com mais intensidade no quarto do hospital onde fui vê-lo nas suas primeiras horas de vida. E continuou brilhando em todos os subsequentes dias em que pude estar com ele. Foram horas de ternura e encantamento, segurando-o no colo ou vendo os cuidados que os pais tiveram desde o início, num aprendizado que lhes exigiu muita paciência e dedicação. Assisti a cenas amorosas que nenhuma palavra me seria suficiente para descrever. Hoje, já de volta à minha casa, a figura do Caetano, Caê é seu apelido, me aparece a cada vez que paro o que estou fazendo. Muitas vezes ele se intromete entre meus pensamentos. Vejo os olhos quase sempre fechados, ainda dorme muito, quando os abre parecem perscrutar o entorno, boca bem desenhada, bochechas rosadas, pele lisa (aveludada dizia minha mãe), nariz bem delineado, uma fina camada de cabelos castanhos cobre sua cabeça, mãos que se abrem e fecham conforme os espasmos que fazem também as pernas se alongarem e se encolherem em sincronia. O pequeno corpo está reconhecendo outro espaço e se adaptando a ele. A respiração ritmada ergue e recolhe a barriga, os braços para cima ao lado da cabeça e as mãos abertas mostram que ele está bem, um “sorriso” aparece naquele rosto, visto sério na primeira foto ainda protegido no ventre materno. Quando nasceu já o conhecíamos. A amorosidade dos pais transmutou-se das palavras com as quais falavam sobre ele e para ele durante a gestação aos gestos de acolhimento e cuidados com que foi recebido. Cenas belíssimas que mereciam ser eternizadas em pinturas. E repetidas no decorrer dos dias. E quando estas imagens não surgem, eu vou procurá-las no celular.

Estes quadros despertam sentimentos conhecidos e guardados desde o primeiro nascimento, mas só possíveis diante de um novo. É a vida a me presentear mais uma vez com o que há de mais precioso. Eu senti novamente que tinha tudo, nada me faltava, e estava no lugar que queria estar. Uma plenitude só possível diante da renovação com a vinda de mais um neto. Desta vez o Caetano. É uma bênção poder viver esta experiência pela quinta vez.

Já vivi a maior parte de minha existência, não sei quanto vou poder acompanhar a caminhada dos netos neste mundo com tantos temores e desafios. Especialmente do Caetano que mora longe e é o recém chegado.

Meu coração se apazigua pelo fato de meus netos terem pais que os protegem e os encaminham no sentido de crescerem fortes e íntegros, para que possam ver o outro com empatia e para estar ao lado de quem trabalha para um mundo melhor do que é hoje. Por isso, sou imensamente grata à vida através de meus filhos, minha filha, minhas noras e meu genro por toda esta ampliação da família.

No plano da humanidade, só posso invocar que as forças do bem e da paz possam se fortalecer e se espraiar por todos os continentes. Então, minha felicidade teria outra dimensão.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Igualdade para quê?

 

Há uma imagem que não me sai da cabeça. Um policial dá um tabefe na cara de um morador de rua, e a colega mulher observa e ri. O homem mal conseguia se manter de pé, possivelmente alcoolizado, e não ofereceu qualquer resistência à ação de retirada dos policiais, mesmo assim foi agredido. A policial olha para ele no chão, sendo arrastado pelos braços como um saco qualquer, e ri.

Ficaria chocada se esse riso estivesse na cara de um colega dela, um policial homem, mas me agrediu muito mais por ser uma policial mulher. Cena repugnante. Face do poder sádico. Relembro os movimentos em defesa da igualdade de gênero. Será isso a igualdade que se quer? Igualdade exercer poder sobre o outro de forma cruel? Igualdade para mim é de direitos, de possibilidades de criação, de trabalho, de estabelecer relações de afetos.

Valho-me da sabedoria oriental para refletir sobre os sentimentos e os pensamentos que constituem nossa humanidade. Em cada ser humano temos energias que não dizem respeito a sexo, mas ao modo de se comportar. Nosso “yin” – mais emocional, criativo, calmo e reflexivo – diz respeito ao feminino, e “yang” – robusto, forte, expansivo e executivo – diz respeito ao masculino. O desequilíbrio de nosso “yin” e “yang” nos faz perder a noção de viver em harmonia e respeito e nos torna seres com os mais diversos desvios de conduta, agressões e mal feitos.

O comportamento dos policiais mostra um total desequilíbrio de energias. A energia proveniente da força é absoluta, ignorando qualquer resquício de reflexão. Poderia ser diferente numa sociedade que trata predominantemente das consequências da violência que existe? Onde as causas são desprezadas e, portanto, põe-se em movimento uma ininterrupta geração de mais violência?

É nesta engrenagem que a mulher busca igualdade de gênero? Ao invés de por em movimento suas energias de reflexão, criatividade e emoção, rende-se às energias de força e execução. Ao tentar igualar-se ao homem, ela acaba perdendo-se como ele, num redemoinho de desequilíbrio destruidor.

A igualdade de gênero está longe de ser alcançada. O número de feminicídios é permanente no país e no mundo.  Há apenas formas diferentes do que foi ao longo de séculos. É certo que tivemos avanços, a sociedade já não queima mulheres em praça pública (embora a lapidação ainda exista e explicada em numa mesquita em Londres há poucos dias), mas são agredidas, subjugadas, mortas dentro de casa por companheiros violentos. Como alguém disse, não é questão de existirem alguns homens doentes, é a continuidade da ideia de que o homem tem a posse da mulher e, portanto, pode matá-la. É a prevalência da força que está nas diferentes narrativas aceitas como “naturais” e defendidas como inócuas. Brincadeiras, anedotas, mercantilização do corpo feminino, ditos populares que acabam construindo o senso comum de que a mulher é culpada pelos ataques sofridos.

Volto ao olhar da policial militar. É o olhar do escárnio sobre o outro. Desta vez no olhar de uma mulher. Recupero a afirmação de Silvia Federici em Calibã e a Bruxa “...a guerra e o saque em escala global e a degradação das mulheres são condições necessárias para a existência do capitalismo em qualquer época.”  Já não basta a degradação pelo consumismo sem limites, disseminado em todas as camadas sociais, é preciso degradar seu pensamento.

No olhar da policial está uma variante de dominação, a da degradação das mulheres através da cooptação de seu coração e mente. A energia emocional, reflexiva e criativa sendo preterida para dar lugar à força que aparentemente oferece uma imagem de igualdade. Mas é preciso mascarar o real interesse do sistema capitalista. Ele o faz com sua capacidade de sempre se reinventar, oferecendo uma pseudo igualdade de gênero.