As palavras de
Jesus, segundo Frei Betto, nos diziam que o reino de Deus não ficava lá no
outro lado da vida, mas aqui na terra junto do povo. Isto é reafirmado no Pai
Nosso: Venha a nós o Vosso Reino. O Reino de Deus deve ser realizado aqui na
Terra entre todos e Jesus foi crucificado por incluir os esquecidos, os fracos
e marginalizados.
Dois mil anos
depois, não faltam palavras no mundo todo a nos afirmar a necessidade de
olharmos o outro como nosso semelhante aqui e agora e, portanto, reafirmar que
as suas necessidades devem ser satisfeitas no mundo terreno, não num outro
mundo prometido e etéreo.
Dentre tantos
chamamentos, o Papa Francisco não cansa de chamar para olharmos o outro com
empatia, para dedicarmos algum tempo a prestar atenção e a falar com quem encontramos
em situação de marginalização. Sim, falar, para anular a indiferença, porque
ela mata tanto quanto a fome e as armas.
Retornando às
palavras de Frei Betto, precisamos de amor e de justiça social para realizarmos
o reino de Deus na terra. Palavras que precisam ser ditas ao infinito, porque a
história da humanidade tem demonstrado que muitos são surdos e cegos a essa
verdade. A surdez e a cegueira diante da dor do outro impede a realização do
Reino de Deus na Terra.
A palavra
torna-se tanto mais fundamental, quanto mais a realidade seja tormentosa. É com
ela que podemos trazer a memória de todos aqueles que não se dobraram e não se
dobram ao poder contrário dos ensinamentos de Jesus. O registro da história tem
um lista infinita de nomes de todas religiões e pensamentos que defenderam e
defendem o amor ao outro transfigurado na solidariedade, na partilha, na
compreensão das diferenças de cada um.
Com estes
pensamentos, junto-me às reflexões que outros estão fazendo sobre o significado
destes dias. E, diante da dor do outro, quando não é mais possível fazer alguma
coisa, lembrar de segurar-lhe a mão em silêncio num outro jeito possível de
comunicação e empatia, como disse Papa Francisco, porque há momentos em que o
silêncio é única possibilidade.
Vivemos dias em que
o retrocesso civilizatório parece em marcha. Justamente por isso, é preciso
relembrar o calvário e ressureição de Jesus Cristo para potencializar a
reflexão sobre o que nos cabe fazer com urgência. E usar a palavra para continuar
a agir.