quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Imagens e movimentos

 

        

Praias do Nordeste, voo de pássaros do Centro-Oeste, matas ainda preservadas, sítios históricos, algumas imagens que me relembram quanto é lindo o Brasil. Leio, junto a estas imagens, a declaração otimista de representante do setor de turismo no país: as viagens internas estão crescendo. Saldo positivo da pandemia, expressão de contabilidade egoísta, digo. Impedidos de viajar para o exterior, os brasileiros movem-se por aqui mesmo. De qualquer forma, é muito bom que os brasileiros viajem pelo próprio país. Mas há milhões de brasileiros que não conseguem se mover além do entorno onde moram, não só pela pandemia, mas porque estão desempregados e sem nenhuma perspectiva diferente de vida. Tudo isso agravado por políticas de descaso do governo, quando não intencionalmente destrutivas.

Recentemente, depois de um longo tempo de reclusão, arrisquei-me a visitar a orla do rio Guaíba. Sim, rio, não lago. Caminhar nos passeios que serpenteiam sobre as águas, ouvindo o marulhar das minúsculas ondulações, vendo o encrespar da água mais distante enquanto a superfície recebe um risco branco de um barco veloz, uma delícia. Poder se movimentar, sair de casa, estar próximo da natureza é suprimir uma falta comum em cidades grandes. Poder caminhar, correr, andar de bicicleta junto a ar puro e imagens bonitas só pode fazer bem, todos merecem usufruí-lo. O Guaíba e seu entorno oferecem uma paisagem especial em qualquer momento do dia, sem falar no seu famoso por do sol. Se eu fosse turista, registraria este espaço em muitas fotografias para mostrar aos meus amigos. Como fiz inúmeras vezes no exterior. Oxalá todos pudessem desfrutar da beleza deste lugar.

Normalmente não me chama a atenção a cor da pele das pessoas, porque sou branca e vivo numa sociedade predominantemente branca. Naquele dia, no entanto, dei-me conta disso, porque um casal e duas meninas negras chegaram de bicicleta, e pararam perto de um dos quiosques. Comecei a prestar atenção no restante das pessoas que circulavam. Mulheres e homens brancos (alguns de pele morena que, talvez, se considerassem negros), jovens e adultos, crianças, vestidos com roupas esportivas, alguns de forma adequada para o esporte que praticavam, ou exercícios nos aparelhos ali existentes. Quase todos respeitando a necessidade de máscara. Quase todos brancos. Muitos, usufruindo sucos, água de coco, petiscos, em mesas devidamente distanciadas umas das outras. Um quadro harmonioso inserido num recorte privilegiado de natureza.

Nas proximidades, um sem número de carros estacionados. Poucos ônibus circulando. Em domingos e feriados, a frota é reduzida. Então relembrei o quanto o transporte público é fundamental para quem depende quase que exclusivamente dele. Esta população vive principalmente na periferia, na zona norte ou leste da cidade. É onde vamos encontrar maior concentração de população negra. Então a orla do Guaíba é um lugar distante para os que moram longe e são pobres, negros ou brancos, mesmo que não exista uma tabuleta impedindo de acessá-la. Para estas pessoas, viajar para o exterior ou para o interior do país, sequer deva ser uma questão. E nem falo nos restaurantes caros ali existentes. A orla do Guaíba deveria ser uma boa alternativa. Refiro-me apenas às margens que permitem usufruir da beleza que, por si só, faz bem.

Movimentar-se, ver outras paisagens, entrar em contato com outras pessoas, dar-se conta de novos modos de ser, de falar, de viver, de se relacionar. Uma rica forma de nos levar a pensar além do que é vivido, de expandir-se, de ser mais. Sem esquecer o quanto é difícil para muitos o simples fato de sobreviver, é duro ver o quanto pode ser cruel uma sociedade onde grande parte de sua população não consegue passear, movimentar-se pelo simples desejo de ver outros lugares, nem mesmo dentro de sua cidade. Para a população que mesmo andar de ônibus é difícil, muitos espaços lhe são negados desde sempre. Uma negação que não está escrita, um muro imaterial que isola os que têm dos que não têm.

Repensar a mobilidade urbana é repensar o próprio modo de vida que levamos enquanto sociedade, é mexer com privilégios e reordená-la sob o princípio da equidade. É resgatar a indignação pela extrema diferença entre as classes sociais. Utopia? Sim, para que ela nos indique caminhos.

 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Esta terra tem dono

 

           

As Missões estão ali há cerca de 300 anos, vivo no Rio Grande do Sul há 70 anos e só agora consegui visitá-las. Mergulhar na história daquela parte do Estado, visitando as ruínas de S. Miguel, foi uma experiência de resgate do que nunca deveríamos esquecer. E esquecemos.

Séculos depois, o que permanece das reduções jesuíticas pode ser fonte de inspiração para quem não se conforma com os rumos que a sociedade tomou ao longo dos séculos. No mínimo para lembrar que outro modo de viver foi possível próximo de nós, baseado no trabalho solidário e na relação sustentável com a natureza. Infelizmente, a perseguição continua feroz, como naquela época, contra os habitantes nativos deste país. Se o modo de viver hodierno é capaz de cegar e entorpecer os que lutam cotidianamente por sua sobrevivência, voltar àquela história é lembrar do que é capaz o poder econômico predador sem limites para sua expansão desde sempre.

Tradicionalmente, os currículos escolares reproduzem a história dos vencedores. As lutas de diferentes povos ou segmentos sociais são esquecidos, ou omitidos, ou retorcidos intencionalmente, faz parte da lógica do poder. É o que acontece com a história das Missões Jesuíticas, não só no nosso Estado, mas em outras partes da América Latina. Algumas brechas surgem através de lutas individuais ou de organizações que não sucumbem à pasteurização da história. Daí a importância do testemunho das ruínas, no caso, do que foram as reduções jesuíticas. Um alento é terem sido reconhecidas pela ONU como Patrimônio Cultural da Humanidade. Graças a isto, o poder público está presente. Sente-se a ação da universidade nas pesquisas locais, na formação de funcionários e guias de S. Miguel, os quais se expressam com orgulho sobre a experiência jesuítica. Mesmo assim, quem visita o local percebe que muito mais poderia ser feito para dar a visibilidade à fantástica experiência ali realizada.

                A visitação do sítio arqueológico com seu show noturno já causa impacto no espectador. A existência de benzedeiras que continuam a preservar rituais daquela época, e a conservação de locais externos que faziam parte da comunidade  também contribuem para a memória daquela experiência. No entanto, um conjunto de medidas para facilitar a ida ao local e a adoção de novos recursos tecnológicos para levar os visitantes a vivenciar a maravilhosa experiência de organização social e econômica ali realizada, poderia contribuir de forma mais efetiva na formação cultural do público. Hoje, a cultura está sendo mais atacada do que incentivada no país.

            Voltei ao filme A Missão com Robert de Niro e música de Ennio Morricone. Nele pude relembrar as consequências no Novo Mundo das disputas territoriais entre Portugal e Espanha, das disputas entre  poder monárquico e poder religioso, tendo como fundamento, como causa seminal, o fator econômico a exigir o término da experiência jesuítica, que protegia os índios da escravização pelos bandeirantes.

Voltei a rever a história com Voltaire que enaltecia a experiência naquela região da América do Sul. Voltei ao livro Sepé Tiarajú do escritor Alcy Cheuíche e comprovei mais uma vez que a literatura é aliada da preservação da memória.

No entanto, embora o passado tenha mostrado a possibilidade de uma maneira diversa de relação entre indígenas, europeus e natureza, prevaleceu a obsessão exploratória e predatória do território sul-americano. Hoje, a tragédia daquela exploração segue com os mesmos princípios em todo o território nacional. Jamais foi interrompida.  Os indígenas brasileiros continuam a ser exterminados, bem como a devastação acelerada de seus territórios. Permanecem as palavras em guarani no pórtico de entrada de S. Miguel das Missões: Co yvy oguereco yara, Esta terra tem dono.

Apesar de tudo o que aconteceu e continua acontecendo atualmente, ver diante de mim o que já tinha visto na tela, e o que já tinha lido e ouvido há muito tempo, foi uma conversa com a esperança que anda encolhida.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

É preciso falar de muros

 


Há pouco tempo ouvi num programa da televisão italiana o jornalista Nello Scalvo afirmar que 65 países, dos 193 que a ONU reconhece, decidiram construir muros para impedir a entrada de imigrantes. Este fato é tanto mais grave, porque metade deles começou a erigi-los a partir do ano 2000 disse ele.

            Vale lembrar que o mundo festejou a queda do muro de Berlim em 1989. Então proclamou-se o advento da liberdade e o fim do regime autoritário da antiga URSS. As nações do leste europeu livraram-se da besta do comunismo e entraram felizes no mundo prometido pelo capitalismo. Em algumas delas, hoje, há governos eleitos que se tornaram de extrema direita e defendem o nacionalismo contra ideias de solidariedade entre nações como rege a Comunidade Europeia à qual pertencem. Elas levantam a bandeira contra os imigrantes que fogem da guerra.

            O ódio ao imigrante desesperado está ligado a outros fatos, o ressurgimento de grupos nazifascistas e o recuo das ideias de um estado voltado para o bem estar social que provê a educação, a saúde e os direitos dos trabalhadores em boa parte do mundo. Embora jamais realizada plenamente, a ideia de estado como provedor constituiu durante muito tempo a bússola a guiar boa parte da política. Com o recuo destes ideais,  parece ter brotado o negacionismo na ciência, na cultura, na política e em toda narrativa que implique olhar o outro como seu semelhante. Neste contexto são discutidos os paradoxos do viver em sociedade e defender o conceito de liberdade como o poder do indivíduo acima de tudo. É o individualismo exacerbado que destrói as relações sociais, criando muros físicos e virtuais com a grande dificuldade de se reconhecer no outro.

 

            Particularmente, no recorte de minha cidade, Porto Alegre, além de muros físicos, pode-se ver grades de todo o tipo. Num retrospecto desde final da década de 1970 e início de 1980, dou o exemplo da rua onde moro, em bairro não muito distante do centro. Quando me mudei com a família, as crianças da vizinhança se reuniam e brincavam na rua. A hora de voltar estava marcada para as 21h. Já na década de noventa as brincadeiras passaram a ser nos espaços dos edifícios, quando começaram a receber grades e, pouco a pouco todos os edifícios antigos que tinham livre acesso à rua, passaram a ser isolados. Interfones, portarias e centrais de atendimento começaram a aparecer e intermediar o contato dos moradores com visitantes e entregadores. O contato com alguém que podia nos alcançar para pedir alguma coisa foi terceirizado. Diversos tipos de barreiras preservam o sossego dos que podem morar de forma digna num espaço particular.

            A organização habitacional e social das cidades em geral tem lembrado a dos feudos da Idade Média. Não temos castelos, mas temos agrupamentos de casas e de edifícios em condomínios com sistema de proteção e de serviços que dispensam boa parte da dependência do exterior. Em zonas residenciais, os movimentos que prevalecem são a saída e entrada de carros das garagens, pessoas que levam seu cachorro de estimação para passear, prestadores de serviços, empregados e zeladores.

Voltando a Porto Alegre, existem alguns parques e espaços da orla que podem ser usufruídos  com alguma segurança. Sem esquecer que grande parte da população da periferia nem chega até eles. No entanto, muitas praças deixaram de ser frequentadas porque inseguras. Ou, tornaram-se inseguras, porque não frequentadas? A rua de uma forma geral, deixou de ser um lugar de socialização, transformou-se no lugar de trânsito e, conforme o bairro, um lugar  mais ou menos temido, e que só usamos por necessidade de locomoção. São muros invisíveis que todos sabem de sua existência e do condicionamento que eles impõem.

As notícias que lemos todos os dias, ao menos no nosso país, não nos dão esperança de que caminhamos para a derrubada de algum desses muros. Por isso mesmo temos que continuar a falar sobre isso. Como disse alguém, as palavras são o farol que ajuda na noite escura no meio da tempestade. Continuamos no meio dela.

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Para quem é este livro?


 

Ninguém segura quem percebe e rompe as barreiras da exclusão,

quem venceu a fome e tornou a maior estigma social

em sua principal identidade.

 

Alexsandro Cardoso

 

Acabei de ler o livro. Demorei, eu o li devagar, porque me fez pensar muito.

Pensei em colocar aqui alguns dos trechos, mas desisti. Vale ler sua narrativa, em seu jeito próprio, nas suas reafirmações sobre o próprio processo para chegar a compreender o lugar que ocupa na sociedade. Uma história de enormes limitações e enormes entraves para conquistar um lugar melhor para si e para os outros.

Vou escrever apenas sobre uns poucos pontos.

O Alexsandro produziu sua visão de mundo através de trajetória individual, mas repete incansavelmente que conseguiu o que conseguiu graças ao coletivo e não a mérito pessoal. Agradece muitas vezes os companheiros de luta. A partir disso, afirma que nossas ações devam ser ancoradas no tripé solidariedade, empatia e amor. Narra inúmeras situações desde sua infância  para comprovar sua afirmação.

Ele mostra através de diferentes momentos vividos como os seus conhecimentos eram fundamentais para compreender os conhecimentos veiculados na escola e na universidade. Com suas próprias palavras e raciocínios mostrou a conexão entre teoria e prática. Não esquece quanto a escola é importante para as classes menos favorecidas da sociedade, dando-lhe lugar de primazia para poder ter um trabalho melhor e para encontrar oportunidades melhores no convívio em sociedade. Mas alertou para a necessidade de pensar coletivamente sem o qual estudar não valeria nada.

Contou várias passagens de sua história, de sua família e de sua comunidade. A narrativa reafirma muitas vezes a importância do núcleo familiar e do estudo para  constituir-se como sujeito que é atualmente. Então ele convida os leitores a lutar e a encontrar forças para estudar e se sacrificar para vencer os desafios que a vida de miséria lhes oferece cada minuto da vida. Ele, no entanto, repete ao longo de sua narrativa que ele é uma exceção dentro do sistema em que vive. A regra para a maioria é a derrota.

A experiência da fome que ele conta é terrível. Embora não desconheça a miséria que existe no mundo e no país. Embora tenha lido muitas histórias sobre situações onde seres humanos foram privados de algo tão básico como ter um mínimo de comida, o depoimento de Alexsandro foi devastador. Ele criança falou da fome, da dor física por passar fome, da incompreensão do que estava acontecendo com ele por causa da fome. Não há palavras que possam descrever a indignação com este quadro que, infelizmente, não consegue mudar a organização social para que isso não possa mais acontecer. Para quem nunca passou fome como a maioria dos que vão ler este livro, muitas perguntas vão surgir acompanhadas de indignação. Uma sacudida para fazer mais alguma coisa, além do que já se faz.

E, por último, perguntei-me ao longo da leitura, para quem Alexsandro estaria escrevendo este livro. Claro que há um público que o compra. No entanto, quantos deveriam ler esta história não têm dinheiro para comprar um livro, mesmo que tenham vontade. Disso todos nós sabemos. A resposta veio no final da narrativa.

Após este período de pandemia, espero encontrar o Alexsandro e poder abraçá-lo. Por enquanto desejo que a sua história seja compartilhada por muita gente. Ela é um grito de inconformidade com a miséria existente e um convite à reflexão. E também à ação.  Ela é, igualmente, um abraço solidário e amoroso do meio de tantas injustiças.

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Quem perdeu conhece


Hoje é véspera de 7 de setembro. Dia de apreensão. Em apreensão estamos vivendo há alguns anos,  porque o governo perverso que se apossou do país não desiste de provocar e fazer crueldades.

Hoje, no entanto, eu não quero ceder à chantagem da turma do mal que mais dia, menos dia, cairá no lixo da história. Nem quero pensar nos estragos já feitos. Nem quero perder energia em me angustiar com tudo o que tem acontecido diuturnamente, ou no que poderá acontecer amanhã. Não chamarei más energias, como costumamos dizer entre nós, os amigos mais próximos.

Quero, sim,  relembrar algumas das letras que fazem a alegria de quem as ouve. Quero mergulhar nas palavras que falam de tudo o que de melhor existe no ser humano.  São muitas as canções que falam da alegria de viver, do querer bem, do estar junto do outro, da esperança de um novo dia. É nisto que quero mergulhar. De tudo o que já ouvi, pincei apenas alguns versos, uma pequena amostra da beleza criada, mas suficiente para embalar nosso desejo de que o mundo seja um berço amoroso, não precisa ser esplêndido.

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver /Quero a primeira estrela que vier /Para enfeitar a noite do meu bem. Caminhando contra o vento /Sem lenço e sem documento. Apesar de você /Amanhã há de ser /Outro dia. Se mi guardi con gli occhi dell'amore /Non ci lasceremo più. A paz invadiu o meu coração /De repente, me encheu de paz. Vedi caro amico cosa si deve inventare /Per poter riderci sopra /Per continuare a sperare.

De qualquer maneira, aconteça o que acontecer (que a maldade encontre obstáculos, que prevaleça a razão e a justiça), continuemos a defender as artes, a ciência, a filosofia, para seguir adiante e avançar para um mundo melhor.

                Por isto deixei para o final os versos de uma música que os brasileiros que viveram na ditadura, perderam alguém próximo naquele tempo, ou se solidarizaram com quem perdeu conhece, ouviu e cantou em algum momento:

A esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista

            Tem que continuar. 

sábado, 7 de agosto de 2021

A cultura nos diferencia


 

Descarto muitas  das informações diárias (já separadas das falsas notícias). Fico com aquelas que me ajudam a exorcizar a sensação de impotência. Sempre tem alguma coisa que se pode fazer sem esperar resultado, apenas por uma questão de ética, como já escrevi em outro texto, inspirada em palavras da jornalista Eliane Brum. Mesmo assim, nem sempre consigo responder à pergunta: O que posso fazer?

Então, lembro uma entrevista do Lázaro Ramos, por quem tenho uma enorme admiração e respeito: Apesar de tudo, não se pode cansar – disse ele. Antes disso, havia escrito  Na Minha Pele, um retrato do que acontece na sociedade brasileira em relação ao racismo. Em nenhum momento, há comiseração ou sentimento de derrota. Há a palavra de um homem digno que sabe o que ele e os de sua origem sofrem no país. Continua sua luta e resistência em diferentes frentes.  Procuro livrar-me do cansaço.

            Então, assisto a aulas sobre História da Arte com o André Dorigo, sua mensagem forte sobre o poder da arte para aceitar diferenças. A arte como criação de tantos estilos ao longo de toda a história da humanidade. Tantas expressões artísticas, em tantos lugares da Terra, sob as mais diversas situações. O ser humano é diferença, produz diferença, encanta na diferença. Reforça minha crença no poder da arte.

Então, participo de encontros sobre literatura com Rodrigo Barreto. O vasto e profundo conhecimento, que ele transmite com paixão, nos envolve no mundo de Machado de Assis, de Clarice Lispector e de tantos outros escritores brasileiros. A literatura como meio para compreender a produção da subjetividade. Um bom texto, uma boa história, nos faz compreender o ser humano em suas contradições. Esta é uma fonte inesgotável de elementos que contribuem para a aceitação do outro, para derrubar preconceitos. Continuo a desmascarar meus preconceitos disfarçados.

Então, ouço Guto Leite que me leva a passear dentro de uma obra para olhar as raízes entrelaçadas com outras obras e outros pensamentos. É como seguir por uma trilha onde podemos desvendar mistérios a todo momento. Um mundo de encantamento povoado por narradores de histórias com as quais podemos nos cotejar e aprender. A paixão pelo que sabe, e compartilha, é contagiante. Recupero minha crença no poder da palavra.

Então, assisto os encontros com Gustavo Czekster. Sinto-me levada pela mão para entranhar nos contos de tantos escritores, alguns conhecidos, em horas de deleite com a criação de narrativas as mais diversas. Um mundo que se mostra nas mais diferentes formas. Um mundo de criação que me distancia do arbítrio, da pequenez, do supérfluo. Confirmo minha paixão pela leitura e seu poder sobre mim.

Então, ouço Thiago Rodrigues que fala sobre a Mitologia Grega e os diferentes filósofos, sua importância e suas ramificações no pensamento contemporâneo. Os questionamentos que eles propiciam sobre os acontecimentos hodiernos, o peso que eles têm na formação de um pensamento crítico e independente, apesar das barreiras que o modo de viver consumista e alienado ergue ao redor de nós. A Filosofia há de voltar aos currículos escolares. Sabe-se porque foi retirada.

Fico por aqui, com uma amostra dos acessos on-line em período de distanciamento. Comprovei que milhares de pessoas, muitas delas jovens, fazem o mesmo. Há um mundo fervilhando com pensamentos e energias vitais que disputam palmo a palmo o território que começou a ser tomado por ondas de ódio e de destruição.  No início, a maioria parece ter sido tomada de surpresa. Pouco a pouco, as reações se fizeram presentes e continuam a se multiplicar em diferentes frentes: política, movimentos sociais, imprensa alternativa, manifestações nas ruas, denúncias internacionais. Quero acreditar que nem tudo está dado, apesar de vivermos numa montanha russa sem descanso.

O fascismo nunca deixou de existir lá fora e aqui, dissemina mentiras e ódio, demoniza a política como instrumento de representação, nega a ciência e mata a cultura. Mas os exemplos acima me fazem seguir, lembrando Pedro Serrano “O fascismo ganha, quando ele consegue fazer-nos iguais a ele”. A cultura nos diferencia, ela é que vai atuar como um poderoso antibiótico contra a infecção virulenta que acometeu o Brasil. É preciso um coquetel de medicamentos para curar o país neste momento. A cultura usa o seu.

 

 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Coisas

 

A cada texto que leio, descubro algo que se encaixa num todo já apreendido, mas cheio de buracos. Os buracos vão sendo preenchidos. Mas, à medida que alguns somem, outros aparecem e o espaço de conhecimento produzido transforma-se, as cores tornam-se mais vivas em algumas partes, caem sombras em outras, num movimento ininterrupto que nunca se completa.

Li 1984 de Orwell anos antes daquele premonitório. Foi um susto. Não lembro de pensar, no entanto, quanto o que estava acontecendo naquele momento e que estaria servindo para construir o futuro ali descrito. Então, eu punha em dúvida que o autor quisesse falar somente das sociedades sob o jugo dos totalitarismos  “comunistas” como alguns críticos escreviam. Eu era jovem e não era militante de qualquer movimento de resistência à ditadura dos anos sessenta e início dos setenta. Por circunstâncias familiares, na juventude, não convivi com análises e compartilhamentos de informações políticas no círculo de amizades no interior onde vivia.

Posteriormente, na capital do Estado, vivi o cotidiano de jovem professora em escola pública, onde a Moral e Cívica e o OSPB substituíram a História. Filosofia e  Sociologia haviam sido excluídas. Criticava-se, mas sabia que não devíamos falar “certas coisas”. O ufanismo da transamazônica só fui desmascará-lo mais tarde, bem como o uso da vitória do futebol em 1970 para dissipar as sombras do terror exercido pelo governo. Sabia o que estávamos vivendo, mas como algo do qual, de certa forma, eu não fazia parte. Eu não estava sendo atingida diretamente pela repressão, assim eu me dizia na época, apesar do cerceamento de informações na escola. Eu sabia e não sabia, não percebia o que se estava construindo, e que poderia explodir no futuro.

Hoje, depois de ter analisado, discutido, duvidado, questionado os diferentes tempos vividos, encontro-me de regresso àquele temor. Mas é uma angústia por algo ainda mais temível do que 1984 nos apontava. A cada manhã, quando leio as notícias do país. Pergunto-me se o caminho de uma distopia não estará traçado.  Lembro do nazismo, do fascismo, da última ditadura aqui vivida. Todos esses ismos deram amplos sinais de nascimento e crescimento. E grande parte da sociedade negou todos eles mesmo que gritando diante de seus olhos e ouvidos.  

“Sociedade do espetáculo”,  “sociedade líquida”, “política como espetáculo”, “pós-modernidade”, “pós-verdade”, “fakenews”  e outras narrativas permitem explicar e como a subjetividade se produz nos diferentes lugares sociais. Nada, no entanto, ajuda a suportar atos individuais que nos agridem no cotidiano.

Detenho-me no último que testemunhei. Uma senhora da alta sociedade, tratando-se num salão de beleza - onde entrei depois de meses - comenta exultante que irá prestigiar a motociata do presidente junto à imprensa credenciada, no dia seguinte. Afinal, disse, “tivemos 3 milhões de doses de vacinas ministradas no dia anterior” e, também, “milhões já foram curados”. Este era seu mundo. Não falou de centenas de milhares de mortos, nem de apenas pouco mais de 10% da população brasileira imunizada com duas doses de vacina. Ponto. E seguiu a conversa com futilidades.

Aquela mulher estava feliz. O que mais me atingiu não foi o conteúdo distorcido, foi o tom jocoso, alegre, despreocupado de uma adolescente despreocupada que vai a uma festa com amigos. Continuou assim, quando sussurrou que o filho não gostava que ela se metesse “nestas coisas”, com uma expressão de alguém que faz uma arte, desobedece, mas sem grande importância. “Nestas coisas”  estaria um possível prejuízo para os negócios, mas nada atrapalhava a leveza e descontração dela.

Infelizmente, o comportamento desta mulher não é uma exceção. Perdi a conta de quantos já presenciei. As notícias diárias o atestam, mas procuro não pensar nelas para não adoecer. É o comportamento recorrente de quem acha que ter acesso a tudo, e em excesso, é um direito natural, ou, mais do que isto, é uma questão de mérito. Diante da miséria que atinge milhões de seres humanos no país, ver esta mulher é enxergar nossa sociedade falida, é desesperar-se diante da tarefa de mudá-la. É voltar às perguntas para as quais não tenho resposta, é acessar uma dor que já se tornou insuportável e trato de silenciá-la para poder seguir.

Como tenho continuamente feito, no entanto, depois de mais um choque, volto a lembrar todas as vozes que se levantam contra o que está ocorrendo. Volto a me conectar com as muitas formas de resistência que têm sido geradas pela indignação e pelo não conformismo. Esforço-me.

Apesar de meu esforço, os antigos temores me falam: ainda haverá tempo para compreender e realizar o que é preciso para evitar as inúmeras antecipações que a literatura produziu? Aquela mulher seria um dos sinais da sociedade distópica se expandindo? Dentro de mim a dúvida agarra-se ao não.