sábado, 18 de junho de 2011

Raiva





Eu passei por ela, estava falando com outra mulher, cumprimentei-as. Ela me olhou e, depois de uns segundos, respondeu. Acho que respondeu, eu não a ouvi, e ela virou a cabeça tão rápido, continuando seu discurso com a outra, que recebi desdém no lugar do cumprimento. Ela deve continuar com raiva, porque imagina que fiz a queixa contra ela, que alimenta os dois gatos que entram no nosso edifício... Eu, realmente não o fiz, embora não ache certo que ela alimente os dois gatos da rua... Mas, um dia, disse-lhe que tinha colocado umas pedras no canteiro de flores para que os gatos parassem de se deitar lá, pois as flores ficavam amassadas e não cresciam... Ela achou que eu não gostava de gato.... Que pena, perdi a lotação!... Lá vem outra, que bom!.... Nossa, que molharia, uff, quase escorreguei... Esta chuva não está com cara de parar... Me incomoda ela não querer me cumprimentar, tenho que admitir, porque não fiz nada pra ela, nem pros gatos... Quanta raiva ela deve ter para querer negar um cumprimento.... Ainda bem que o ar condicionado não está ligado... Este motorista é tranquilo, não corre demais, num dia como esse.... Acho melhor ir me arrumando, a parada está próxima... Vou esperar um pouco, aquele senhor vai descer antes... Posso parar na esquina lá embaixo? Obrigada.... Nossa, que engarrafamento, não adianta buzinar, que gente estressada, como se adiantasse... Melhor atravessar deste lado... A sinaleira fechou, vou.... Como é mesmo o nome da loja? Por que não anotei... Loja de aviamentos.... Loja de aviamentos.... Loja de tecidos de malha.... Loja de tecidos... Ah, no outro lado.... Centro de Decorações... Foi bem fácil, mesmo.... Será que compro tecido só  para o forro?... O preço está bom, vou comprar também para a cortina... Que bom, essa compra nem demorou... A sacola ficou pesada e, ainda a sombrinha... Duas quadras de subida até a lotação... Estou suando, apesar do frio e da chuva... Falta pouco... Aquela mulher caminha como minha vizinha... Se eu a enxergar de novo, vou virar a cara.... Quem ela pensa que é... Tudo por causa de dois gatos... Vou chegar em casa antes do meio-dia, que bom... Que saco, não consigo desgrudar da vizinha... Ela não tem o que fazer, por isso fica dando comida para os gatos... Tomara que os gatos risquem o carro dela e não o da outra vizinha que reclamou... Bah, tenho que caminhar mais três quadras, estou cansada... Tomara que não a enxergue... Que raiva... Que sorte, o sinal está aberto para os pedestres... Falta pouco... Não encontro a chave, essa bolsa grande... Até que enfim, a sacola pesa demais... Não acredito, ela está saindo... Ela me abre o portão e espera que eu passe... Obrigada!

sábado, 28 de maio de 2011

Pássaro escolhendo voos


Vejo adolescentes que imagino com quatorze ou quinze anos e lembro de meu  neto, o primeiro. Reconheço-o em tudo o que de bom há neles e rejeito as malcriações que eventualmente façam. Sei que o idealizo e não quero deixar de fazê-lo, é o meu amor que fala mais alto. Rio da parcialidade desnecessária com que o retrato, porque nada nele me faria amá-lo menos.
Não esqueci que já fui adolescente. Tive meus segredos e minhas transgressões, ele também  deve tê-los, são os voos necessários e os terá numerosos, uns fáceis, outros difíceis.  Foi leitor incansável, hoje está em fase de certo distanciamento, tenho certeza de que se reconciliará com a literatura. A escola, que ele diz ser cansativa, lhe é fácil. Na certa, tem limitações e conflitos – já fui testemunha de um ou outro -, por isso, torço para que as dificuldades enfrentadas o fortaleçam e possam ser superadas com o menor custo.  Sempre há um preço para crescer e se tornar adulto.
Sinto-me sua cúmplice, quando, aos domingos, com seu jeito que não é mais de um menino e já me ultrapassou na altura, vem perguntar se não há um salgadinho enquanto espera o almoço ficar pronto. Às vezes, esqueço de suprir o canto do armário que ele conhece e encontra vazio. Desculpo-me e vou  rapidamente cortar um pedaço de queijo que ele gosta. Mas, ele diz logo: Tudo bem, vó! Mesma resposta que me dava quando íamos ao supermercado, no final de semana, aos seus  cinco ou seis anos e nosso acordo era de que ele poderia comprar apenas uma “porcaria” que todos gostavam,  salgadinho ou doce.
Quando vem dormir aqui em casa – agora, mais espaçadamente do que quando pequeno –,   e esquece os chinelos, vou em busca de um par deixado por seu tio que se mudou para outra cidade e cujo quarto continua intacto, com coisas deixadas para trás, como fazem os filhos quando se vão. Agora ele o ocupa, mantendo-se a corrente de outras crianças que nascem, crescem e povoam esta casa. Bendito ciclo da vida.
Há também alguns momentos de resmungos meus, quando ele não atende aos vários chamados para jantar, porque absorto no computador. Ou, quando não quer comer a fruta que insisto em oferecer. Ou, ainda, quando lhe digo para colocar um casaco, pois está frio,  e ele responde com um: Pô, parece minha mãe! Raras ocasiões de tensão.
Ele vem e traz poesia para o meu envelhecimento. Ele nem imagina quanto lhe agradeço por todas as horas que gastei ao longo de sua existência, aos sábados, quando vinha “me fazer companhia”, trocando fraldas, banho, mamadeira, remedinhos, algum choro noturno  pedindo pelo papai ou pela mamãe, conversas  com carinho e apaziguamento. Tudo foi ficando aos poucos para trás, agora é o corte de cabelo e o cuidado com as espinhas que partilho com ele.
Sempre tive presente que chegaria o momento em que os amigos seriam mais importantes. Este tempo chegou e quase não dorme aqui em casa aos sábados. Vem almoçar aos domingos junto com os pais e irmãzinha. Chegará um tempo em que também aos domingos não o verei. Estará tudo bem.
Quero-lhe um futuro onde os tropeços sirvam para torná-lo melhor e os sucessos sejam sempre acompanhados de afeto. Para o tempo vindouro, incluo a esperança de que a casa da avó seja a lembrança a ser partilhada com os próprios filhos, como um lugar onde sempre chegou sem reservas e com a confiança de ter recebido amor incondicional.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Instantes únicos


Ele é um bebê que nasceu numa noite de muitos nascimentos, como em outras noites longínquas dos meus próprios filhos e outras mais recentes, de meus outros netos. Eu e os outros avós ficamos no hospital para vê-lo logo, nos seus primeiros momentos fora da proteção materna. Ali, o tempo  reduziu-se àquela espera, e o espaço  concentrou-se naquela sala como se fosse o instante inicial que antecedeu a formação do universo, nada mais interessava fora daquilo.
Quando ele apareceu na pequena sala envidraçada, no berço padronizado e com seu pai ao lado, tudo em volta sumiu e a luz se mostrou focada apenas neles, sem sons, somente gestos mediados pela parede de vidro que nos separava e, ao mesmo tempo, nos permitia a comunicação dos olhares, sorrisos e mímicas. A grande comunicação, naquele transcurso, foi a do coração que se expandia  para fazer-nos únicos e ligados num só bater acelerado.
O bebê nu e com apenas um pedacinho do cordão umbilical, já destacado do ninho em que foi gerado, o pai ao lado, curvado sobre ele, com roupa verde claro, própria para ambientes assépticos de hospital, a acariciá-lo e a falar-lhe ternamente, num retrato amoroso da acolhida do seu primeiro filho. O pai começando a partilhar a tarefa que tinha cabido à mãe nos nove meses precedentes, ou, como se diz agora, quarenta semanas.
A roda da vida tinha dado a primeira grande volta, ele tinha começado o seu caminho aqui fora. Responsabilidades redobradas de seus pais, possibilidades lançadas para formar a si mesmo no tempo por vir.
Ele nasceu e eu esqueci todas as notícias que acenam para um mundo hostil. Neste esquecimento, eu também renasci  junto à renovação do desejo de continuar a fazer qualquer coisa para que o mundo seja melhor para ele e para todas as crianças que nasceram no mesmo instante que ele, antes dele e que continuam nascendo.
A diferença neste nascimento é que ele é sempre único, como o é cada manifestação da vida. Vida que seria diferente em todo o planeta, se o nascimento de cada criança estivesse presente nas decisões dos adultos, em casa e nos diferentes espaços de poder.


terça-feira, 12 de abril de 2011

De novo, refém

             Como não sentir-se refém ao ler e ouvir os jornais e telejornais?

            Golpeou-me fundo como a todos os que tomaram conhecimento do horror que foi a morte dos adolescentes e do rapaz que os matou numa escola do Rio de Janeiro.  Sequer dá tempo de pensar sobre as pequenas tragédias cotidianas que circulam por perto. Ainda no rescaldo deste espectro, outro semelhante realiza-se num país europeu. Pensamentos  dissonantes de  dor, impotência e desesperança se cruzam e entrelaçam com argumentos frágeis e desejos de retorno da esperança de uma sociedade que mostre estar evoluindo, buscando um jeito diferente e mais amoroso de se relacionar.

            Sem trégua, o rádio noticia de manhã cedo que a tragédia de Fukushima ainda não acabou, acena para o pior já conhecido há vinte e cinco anos.  Como se fosse em outro mundo,  em diferentes pontos da África, facções diversas matam-se em nome da democracia. Outras nações, agora, apoiam os inimigos daqueles que foram seus amigos até há pouco. Invocam-se para isso a necessidade de restabelecer a lei, proteger civis, não interesses econômicos e os poços de petróleo dos quais o ocidente precisa e todos sabem. Como mantra nega-se repetidamente o óbvio.

            Por aqui, denuncia-se corrupção nas obras aceleradas com vistas à Copa 2014. No ano passado havia-se evitado a ação governamental que premiava a sanha da construção civil no Morro de Santa Teresa, mas não há como alegrar-se. Ainda é pouco em vista do que pode ocorrer com o solo urbano.

            Sobra-me o aceno de um reconhecido escritor norte-americano para quem não são só os estados, mas também as sociedades ditam novas narrativas no mundo contemporaneo. Para ele as populações também exercem a diplomacia através da sua cultura e poder de persuasão. Espero que ele tenha razão, para que as crianças de hoje tenham outros desafios a superar e não se sintam reféns dos erros das gerações adultas que construiram o mundo em que nasceram.

            No entanto, não vejo este caminho ser desenhado sem a intensificação de relações solidárias e a busca de formas coletivas de conviver e viver nas numerosas capilaridades sociais. O problema do outro é também meu. Isto pode ser feito agora.

domingo, 20 de março de 2011

Refém



Em homenagem ao dia da mulher, uma palestrante afirmou que Frida Khalo não foi refém de coisa alguma, nem do seu corpo maltratado e fonte de dor a maior parte de sua vida. 
Certo, ela rompeu padrões, chocou a sociedade, criou com suas pinturas uma estética singular. Foi a própria diferença, numa época em que a mulher fazia os primeiros movimentos coletivos para ser reconhecida em igualdade de condições no mundo de supremacia masculina. Foi transgressora e criativa. Fez de seu atribulado cotidiano uma inesgotável fonte de inspiração.

Frida Khalo e outras tantas mulheres e homens, são testemunho de recusa ao já dado e estabelecido. Mas, nem ela  conseguiu fugir do sofrimento e da exclusão, da impossibilidade de convivência compreensiva e respeitosa com setores da sociedade americana e mexicana da época. Valem, no entanto, suas formas de agir e de criar a partir do seu sofrimento. Ali, realmente, não foi refém, prevaleceu sua vontade de se ultrapassar e vencer seus limites.

Bela síntese do poder individual mas não individualista, porque ela sempre se colocou junto à história de seu povo. Suas raízes fizeram-na voar. Ela viveu o presente com seus antepassados. Ela projetou a memória na arte que multiplicou em sua figura transcendente à dor e à morte. O que ela fez foi recusar as amarras das urgências cotidianas.

Como se inspirar nesse exemplo? No rumoroso e condicionante cotidiano em que se vive, o que significa não ser refém? A singularidade da criação artística não é moeda corrente , embora a fruição das produções de numerosos artistas e a proliferação de escolas e oficinas de criação nas diferentes artes seja uma realidade da contemporaneidade.

Criação artística e subjetividade transgressora mostrou-se um binário  pertinente. Mas parece reduzido, hoje, o espaço e tempo propícios para manifestações heróicas, estas foram se esvaziando ao longo das últimas décadas. A arte, também, foi contaminada por esse viver na transitoriedade, na provisoriedade, na precariedade das relações humanas. No entanto, ela renasce nesses formatos e se perpetua.

E nós, seres humanos, como afirmarmos nossa capacidade criativa para além das miríades de formas de subjetivação que nos querem reféns no grande centro comercial que se transformou o mundo? Como criar no mundo que nos convida a consumir, inclusive nossa memória? Memória que nos enraiza e nos permite avançar, sabendo e produzindo quem somos como sujeitos e como coletividade?

Como Frida, é preciso não temer ser quem somos. A vida é feita de diferenças e de trocas. Não é preciso ser ela, mas ter sua coragem para não sermos reféns das mesmices cegas e uniformizantes da sociedade contemporânea com máscaras de diferenças.

terça-feira, 1 de março de 2011

Professor invisível


       Em março de 2010, um jornal da cidade escreveu que, nos dois últimos anos, a escola particular de Ensino Fundamental no nosso estado havia recuperado alunos e retornou ao patamar de 2006.
O texto destacava o fenômeno de migração da classe C para a escola particular almejada desde há muito tempo, bem como a nova lei de filantropia que exigia para as escolas filantrópicas a oferta de ações sociais e “bolsas de estudo para alunos pobres”.
Quanto à reação das próprias escolas, foram elencadas medidas por elas tomadas para enfrentar a situação, porque entenderam que era preciso “reformular para sobreviver”, que se traduzia em “trabalhar na oferta de novos serviços como forma de tornar seus estabelecimentos mais atrativos”.
Dentre as medidas elencadas estavam: marketing, criação de estacionamento, laboratórios modernizados, inserção de recursos tecnológicos em sala de aula, sistema de segurança, horário integral para as crianças e a possibilidade de permanecerem além do período de aulas, atendendo às necessidade do horário de trabalho dos pais.
Por outro lado, enquanto uma  titular da Secretaria de Educação do Estado pronunciava-se com um profundo desdém pelos professores, culpabilizando-os pelos males existentes, as escolas particulares sequer mencionavam o professor quando afirmavam melhorar a escola. Ele era um ser invisível. Situação muito diversa da minha geração em que um(a) professor(a) solicitado(a) a dizer sua profissão, era com orgulho que respondia: “Professor do Estado”, pois o cargo exigia boa formação, concurso e o seu desempenho era valorizado e reconhecido.
Como fazer, então, com que as crianças e jovens de hoje, bem como seus pais voltem a admirar e a respeitar o seu professor? O respeito é consequência do reconhecimento do outro e as escolas não apontaram para novas medidas didático-pedagógicas, para uma reformulação ou para um projeto pedagógico inovador, sequer para uma proposta para qualificar seu corpo docente ou incentivo para tal.
Percebe-se ali a raiz do esvaziamento das licenciaturas.
Hoje, parece que a situaçao é ainda pior, ele é refém da “clientela” que atende e só alcança visibilidade na página policial, quando é agredido de diferentes formas e, até, assassinado por motivos fúteis.
Uma outra forma de funcionamento da escola não se dá de um dia para o outro. Mas vale lembrar que, em alguns países europeus, são os melhores alunos os aceitos para serem professores, passando por seleção adequada, em escolas com recursos e altos salários.
Para as escolas particulares, esperemos que consigam marcar seu lugar para além da reprodução da sociedade competitiva em que estão inseridas.
Para as escolas públicas, que a existência de uma realidade onde o professor consegue ser visível e valorizado seja o horizonte do novo governo do nosso estado e que a visita do atual secretário de educação às escolas da rede se transforme em ações concretas e urgentes que apontem qual o caminho que será seguido nos próximos anos.

A visibilidade do professor deve dar-se na recuperaçao da paixão de ensinar e aprender.