sábado, 28 de maio de 2011

Pássaro escolhendo voos


Vejo adolescentes que imagino com quatorze ou quinze anos e lembro de meu  neto, o primeiro. Reconheço-o em tudo o que de bom há neles e rejeito as malcriações que eventualmente façam. Sei que o idealizo e não quero deixar de fazê-lo, é o meu amor que fala mais alto. Rio da parcialidade desnecessária com que o retrato, porque nada nele me faria amá-lo menos.
Não esqueci que já fui adolescente. Tive meus segredos e minhas transgressões, ele também  deve tê-los, são os voos necessários e os terá numerosos, uns fáceis, outros difíceis.  Foi leitor incansável, hoje está em fase de certo distanciamento, tenho certeza de que se reconciliará com a literatura. A escola, que ele diz ser cansativa, lhe é fácil. Na certa, tem limitações e conflitos – já fui testemunha de um ou outro -, por isso, torço para que as dificuldades enfrentadas o fortaleçam e possam ser superadas com o menor custo.  Sempre há um preço para crescer e se tornar adulto.
Sinto-me sua cúmplice, quando, aos domingos, com seu jeito que não é mais de um menino e já me ultrapassou na altura, vem perguntar se não há um salgadinho enquanto espera o almoço ficar pronto. Às vezes, esqueço de suprir o canto do armário que ele conhece e encontra vazio. Desculpo-me e vou  rapidamente cortar um pedaço de queijo que ele gosta. Mas, ele diz logo: Tudo bem, vó! Mesma resposta que me dava quando íamos ao supermercado, no final de semana, aos seus  cinco ou seis anos e nosso acordo era de que ele poderia comprar apenas uma “porcaria” que todos gostavam,  salgadinho ou doce.
Quando vem dormir aqui em casa – agora, mais espaçadamente do que quando pequeno –,   e esquece os chinelos, vou em busca de um par deixado por seu tio que se mudou para outra cidade e cujo quarto continua intacto, com coisas deixadas para trás, como fazem os filhos quando se vão. Agora ele o ocupa, mantendo-se a corrente de outras crianças que nascem, crescem e povoam esta casa. Bendito ciclo da vida.
Há também alguns momentos de resmungos meus, quando ele não atende aos vários chamados para jantar, porque absorto no computador. Ou, quando não quer comer a fruta que insisto em oferecer. Ou, ainda, quando lhe digo para colocar um casaco, pois está frio,  e ele responde com um: Pô, parece minha mãe! Raras ocasiões de tensão.
Ele vem e traz poesia para o meu envelhecimento. Ele nem imagina quanto lhe agradeço por todas as horas que gastei ao longo de sua existência, aos sábados, quando vinha “me fazer companhia”, trocando fraldas, banho, mamadeira, remedinhos, algum choro noturno  pedindo pelo papai ou pela mamãe, conversas  com carinho e apaziguamento. Tudo foi ficando aos poucos para trás, agora é o corte de cabelo e o cuidado com as espinhas que partilho com ele.
Sempre tive presente que chegaria o momento em que os amigos seriam mais importantes. Este tempo chegou e quase não dorme aqui em casa aos sábados. Vem almoçar aos domingos junto com os pais e irmãzinha. Chegará um tempo em que também aos domingos não o verei. Estará tudo bem.
Quero-lhe um futuro onde os tropeços sirvam para torná-lo melhor e os sucessos sejam sempre acompanhados de afeto. Para o tempo vindouro, incluo a esperança de que a casa da avó seja a lembrança a ser partilhada com os próprios filhos, como um lugar onde sempre chegou sem reservas e com a confiança de ter recebido amor incondicional.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Instantes únicos


Ele é um bebê que nasceu numa noite de muitos nascimentos, como em outras noites longínquas dos meus próprios filhos e outras mais recentes, de meus outros netos. Eu e os outros avós ficamos no hospital para vê-lo logo, nos seus primeiros momentos fora da proteção materna. Ali, o tempo  reduziu-se àquela espera, e o espaço  concentrou-se naquela sala como se fosse o instante inicial que antecedeu a formação do universo, nada mais interessava fora daquilo.
Quando ele apareceu na pequena sala envidraçada, no berço padronizado e com seu pai ao lado, tudo em volta sumiu e a luz se mostrou focada apenas neles, sem sons, somente gestos mediados pela parede de vidro que nos separava e, ao mesmo tempo, nos permitia a comunicação dos olhares, sorrisos e mímicas. A grande comunicação, naquele transcurso, foi a do coração que se expandia  para fazer-nos únicos e ligados num só bater acelerado.
O bebê nu e com apenas um pedacinho do cordão umbilical, já destacado do ninho em que foi gerado, o pai ao lado, curvado sobre ele, com roupa verde claro, própria para ambientes assépticos de hospital, a acariciá-lo e a falar-lhe ternamente, num retrato amoroso da acolhida do seu primeiro filho. O pai começando a partilhar a tarefa que tinha cabido à mãe nos nove meses precedentes, ou, como se diz agora, quarenta semanas.
A roda da vida tinha dado a primeira grande volta, ele tinha começado o seu caminho aqui fora. Responsabilidades redobradas de seus pais, possibilidades lançadas para formar a si mesmo no tempo por vir.
Ele nasceu e eu esqueci todas as notícias que acenam para um mundo hostil. Neste esquecimento, eu também renasci  junto à renovação do desejo de continuar a fazer qualquer coisa para que o mundo seja melhor para ele e para todas as crianças que nasceram no mesmo instante que ele, antes dele e que continuam nascendo.
A diferença neste nascimento é que ele é sempre único, como o é cada manifestação da vida. Vida que seria diferente em todo o planeta, se o nascimento de cada criança estivesse presente nas decisões dos adultos, em casa e nos diferentes espaços de poder.


terça-feira, 12 de abril de 2011

De novo, refém

             Como não sentir-se refém ao ler e ouvir os jornais e telejornais?

            Golpeou-me fundo como a todos os que tomaram conhecimento do horror que foi a morte dos adolescentes e do rapaz que os matou numa escola do Rio de Janeiro.  Sequer dá tempo de pensar sobre as pequenas tragédias cotidianas que circulam por perto. Ainda no rescaldo deste espectro, outro semelhante realiza-se num país europeu. Pensamentos  dissonantes de  dor, impotência e desesperança se cruzam e entrelaçam com argumentos frágeis e desejos de retorno da esperança de uma sociedade que mostre estar evoluindo, buscando um jeito diferente e mais amoroso de se relacionar.

            Sem trégua, o rádio noticia de manhã cedo que a tragédia de Fukushima ainda não acabou, acena para o pior já conhecido há vinte e cinco anos.  Como se fosse em outro mundo,  em diferentes pontos da África, facções diversas matam-se em nome da democracia. Outras nações, agora, apoiam os inimigos daqueles que foram seus amigos até há pouco. Invocam-se para isso a necessidade de restabelecer a lei, proteger civis, não interesses econômicos e os poços de petróleo dos quais o ocidente precisa e todos sabem. Como mantra nega-se repetidamente o óbvio.

            Por aqui, denuncia-se corrupção nas obras aceleradas com vistas à Copa 2014. No ano passado havia-se evitado a ação governamental que premiava a sanha da construção civil no Morro de Santa Teresa, mas não há como alegrar-se. Ainda é pouco em vista do que pode ocorrer com o solo urbano.

            Sobra-me o aceno de um reconhecido escritor norte-americano para quem não são só os estados, mas também as sociedades ditam novas narrativas no mundo contemporaneo. Para ele as populações também exercem a diplomacia através da sua cultura e poder de persuasão. Espero que ele tenha razão, para que as crianças de hoje tenham outros desafios a superar e não se sintam reféns dos erros das gerações adultas que construiram o mundo em que nasceram.

            No entanto, não vejo este caminho ser desenhado sem a intensificação de relações solidárias e a busca de formas coletivas de conviver e viver nas numerosas capilaridades sociais. O problema do outro é também meu. Isto pode ser feito agora.

domingo, 20 de março de 2011

Refém



Em homenagem ao dia da mulher, uma palestrante afirmou que Frida Khalo não foi refém de coisa alguma, nem do seu corpo maltratado e fonte de dor a maior parte de sua vida. 
Certo, ela rompeu padrões, chocou a sociedade, criou com suas pinturas uma estética singular. Foi a própria diferença, numa época em que a mulher fazia os primeiros movimentos coletivos para ser reconhecida em igualdade de condições no mundo de supremacia masculina. Foi transgressora e criativa. Fez de seu atribulado cotidiano uma inesgotável fonte de inspiração.

Frida Khalo e outras tantas mulheres e homens, são testemunho de recusa ao já dado e estabelecido. Mas, nem ela  conseguiu fugir do sofrimento e da exclusão, da impossibilidade de convivência compreensiva e respeitosa com setores da sociedade americana e mexicana da época. Valem, no entanto, suas formas de agir e de criar a partir do seu sofrimento. Ali, realmente, não foi refém, prevaleceu sua vontade de se ultrapassar e vencer seus limites.

Bela síntese do poder individual mas não individualista, porque ela sempre se colocou junto à história de seu povo. Suas raízes fizeram-na voar. Ela viveu o presente com seus antepassados. Ela projetou a memória na arte que multiplicou em sua figura transcendente à dor e à morte. O que ela fez foi recusar as amarras das urgências cotidianas.

Como se inspirar nesse exemplo? No rumoroso e condicionante cotidiano em que se vive, o que significa não ser refém? A singularidade da criação artística não é moeda corrente , embora a fruição das produções de numerosos artistas e a proliferação de escolas e oficinas de criação nas diferentes artes seja uma realidade da contemporaneidade.

Criação artística e subjetividade transgressora mostrou-se um binário  pertinente. Mas parece reduzido, hoje, o espaço e tempo propícios para manifestações heróicas, estas foram se esvaziando ao longo das últimas décadas. A arte, também, foi contaminada por esse viver na transitoriedade, na provisoriedade, na precariedade das relações humanas. No entanto, ela renasce nesses formatos e se perpetua.

E nós, seres humanos, como afirmarmos nossa capacidade criativa para além das miríades de formas de subjetivação que nos querem reféns no grande centro comercial que se transformou o mundo? Como criar no mundo que nos convida a consumir, inclusive nossa memória? Memória que nos enraiza e nos permite avançar, sabendo e produzindo quem somos como sujeitos e como coletividade?

Como Frida, é preciso não temer ser quem somos. A vida é feita de diferenças e de trocas. Não é preciso ser ela, mas ter sua coragem para não sermos reféns das mesmices cegas e uniformizantes da sociedade contemporânea com máscaras de diferenças.

terça-feira, 1 de março de 2011

Professor invisível


       Em março de 2010, um jornal da cidade escreveu que, nos dois últimos anos, a escola particular de Ensino Fundamental no nosso estado havia recuperado alunos e retornou ao patamar de 2006.
O texto destacava o fenômeno de migração da classe C para a escola particular almejada desde há muito tempo, bem como a nova lei de filantropia que exigia para as escolas filantrópicas a oferta de ações sociais e “bolsas de estudo para alunos pobres”.
Quanto à reação das próprias escolas, foram elencadas medidas por elas tomadas para enfrentar a situação, porque entenderam que era preciso “reformular para sobreviver”, que se traduzia em “trabalhar na oferta de novos serviços como forma de tornar seus estabelecimentos mais atrativos”.
Dentre as medidas elencadas estavam: marketing, criação de estacionamento, laboratórios modernizados, inserção de recursos tecnológicos em sala de aula, sistema de segurança, horário integral para as crianças e a possibilidade de permanecerem além do período de aulas, atendendo às necessidade do horário de trabalho dos pais.
Por outro lado, enquanto uma  titular da Secretaria de Educação do Estado pronunciava-se com um profundo desdém pelos professores, culpabilizando-os pelos males existentes, as escolas particulares sequer mencionavam o professor quando afirmavam melhorar a escola. Ele era um ser invisível. Situação muito diversa da minha geração em que um(a) professor(a) solicitado(a) a dizer sua profissão, era com orgulho que respondia: “Professor do Estado”, pois o cargo exigia boa formação, concurso e o seu desempenho era valorizado e reconhecido.
Como fazer, então, com que as crianças e jovens de hoje, bem como seus pais voltem a admirar e a respeitar o seu professor? O respeito é consequência do reconhecimento do outro e as escolas não apontaram para novas medidas didático-pedagógicas, para uma reformulação ou para um projeto pedagógico inovador, sequer para uma proposta para qualificar seu corpo docente ou incentivo para tal.
Percebe-se ali a raiz do esvaziamento das licenciaturas.
Hoje, parece que a situaçao é ainda pior, ele é refém da “clientela” que atende e só alcança visibilidade na página policial, quando é agredido de diferentes formas e, até, assassinado por motivos fúteis.
Uma outra forma de funcionamento da escola não se dá de um dia para o outro. Mas vale lembrar que, em alguns países europeus, são os melhores alunos os aceitos para serem professores, passando por seleção adequada, em escolas com recursos e altos salários.
Para as escolas particulares, esperemos que consigam marcar seu lugar para além da reprodução da sociedade competitiva em que estão inseridas.
Para as escolas públicas, que a existência de uma realidade onde o professor consegue ser visível e valorizado seja o horizonte do novo governo do nosso estado e que a visita do atual secretário de educação às escolas da rede se transforme em ações concretas e urgentes que apontem qual o caminho que será seguido nos próximos anos.

A visibilidade do professor deve dar-se na recuperaçao da paixão de ensinar e aprender.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Argola na janela


Tu vais embora à tardinha e eu vou pondo no lugar o que tiraste para fazer tua cabana e outras brincadeiras imaginadas por tua cabecinha.  Sigo os vestígios de tuas andanças pelo apartamento, alguns eu deixo para prolongar tua permanência comigo.
Tua cabecinha é uma máquina de brinquedos que não pára. A gente se distrai uns segundos e tu apareces com a sacola dos prendedores de roupa, o banquinho para sentares à mesinha, um jogo da caixa que é só tua e que abres todos os fins de semana. Abres e fechas portas de armários. Já não pedes, porque sabes o lugar daquilo que te interessa. Vais buscar. Amo esta desenvoltura de quem sabe que a casa também é sua.
Tu te vais quando finda o dia, mas continuas aqui nos sinais de tuas criações de menina e no encanto que me proporcionam e me mantém ligada à vida que está em ti.
Tu te vais e eu vou descansar, porque teu ritmo está diametralmente oposto ao meu. Fico pensando que essas diferenças se acentuam inexoravelmente dia a dia. Consola-me que são vagarosas e dão algum tempo.
Tu te vais e eu fico pensando no que tu estarias pensando nas tuas invenções. E são sempre variadas. E sempre surgem outras.
Tu te foste e, desta vez, deixaste as pulseiras que enfeitaram teus braços, tornozelos e pernas, enquanto vias um desenho na televisão e nos intervalos de outros brinquedos.  Com elas montaste um só círculo, segurando a ponta dos puxadores das cortinas da sala. Janela aberta e o vento a balançar tua criação. Fiquei curiosa sobre o que pensaste ao fazê-lo. Já nao estás para te perguntar.
Sempre essa palavra “pensar”. Como será o pensamento de alguém com menos de cinco anos? Talvez, já nem lembres mais do que fizeste. Tirei uma foto, memória de instantes felizes de minha vida contigo, mais do que memória de um teu brinquedo.
Quando voltares, no próximo domingo, vou te mostrar. Pressinto que uma semana é um tempo longo para ti. Tantas coisas te acontecem e incorporas! Eu já ando mais devagar e a rapidez me incomoda. Estou curiosa para ver como se falarão a minha e a tua memória...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Quantos Laocoontes?


 Um homem descansa sobre os escombros de sua casa, agachado, olha em frente. Olha a tragédia do lugar? Usa o que lhe resta de razão para enfrentar a desrazão do acontecido? Talvez se dê um tempo para continuar a viver. Talvez, seu cérebro escaneie um liame para outro sítio com que se vincular e ir. Pensa.
Um homem perde quase toda a família e se pôs a trabalhar como voluntário no resgate de sobreviventes. Não pode parar, ele o confirma. “Há muito que fazer, há outras pessoas precisando de socorro.” Nega seu sofrimento ocupando mente e corpo em outro plano da tragédia à qual pertence? Segue um caminho. Faz.
Uma mulher se desespera diante de necrotério, braços a seguram e imobilizam.  Filhos desaparecidos, necessita ver os corpos lá dentro, é urgente olhar os rostos procurados. Necessita confirmar a morte deles ou a esperança de que ainda vivam. A fila de espera dos desafortunados é grande, outros marcham com as mesmas angústias.
Um grupo ilhado por lama e rio barrento, sem qualquer ponte, acena para helicóptero. No chão está escrito um enorme SOS, no ar braços se agitam, bocas gritam suas dores.
Casas destruídas, carros amontoados, árvores arrancadas, ruas, estradas, praças soterradas por lama e pedras. Geografia da cidade apagada como o foram dezenas de corpos sepultados. Muitos nem serão resgatados.  Reaparecerão muito depois nos brotos da nova vegetação na repetição infinita da vida.  Alguém se lembrará? Os parentes que ainda permanecerão por lá, por teimosia ou falta de opções.
Recortes de um quadro terrífico, distante ou próximo, mas evitável, como o foram inúmeras outras catástrofes.
O cenário lembra Guernica de Picasso, os quadros de guerra de Goya e tantos outros que registraram as dores de sua época. Mas lembra ainda mais forte uma obra de El Greco, tão atual quanto quatrocentos anos atrás quando foi pintada. Nela está Toledo ao fundo e, em primeiro plano, jogado ao solo, Laocoonte cercado por seus filhos, o sacerdote troiano que foi dilacerado junto com eles, por ter pressentido o perigo que o cavalo entregue representava para Tróia. Ocasionou-lhe a derrota frente aos gregos. O sacerdote foi acusado de sacrilégio, a cidade era inexpugnável e ele portador de mau agouro. Goya atualizou as perturbações de sua própria cidade através do trágico em Laocoonte.
            Hoje, nem Tróia, nem Toledo, mas a serra onde as cidades de Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e outras, construídas sobre encostas de exuberante vegetação, - os nossos Cavalos de Tróia - que deveríamos deixar intactas para não despertar deslizamentos, desabamentos, enxurradas, todos forças ali ocultas e revoltadas com nossa prepotência e irresponsabilidade.
Essas belezas que deveriam ser negadas à posse e à ocupação. Seus perigos foram pregoadas por nossos laocoontes, vozes de ambientalistas, moradores, técnicos ou sofredores de outras anunciadas tragédias. Continuariam belezas se poupadas, quais barrigas de cavalos presenteados, insurgem-se, abrem seu ventre e vingam-se. Derrotam-nos a todos.
            Hoje, “ultrapassamos” a civilização grega, não assassinamos os que preveem nossas gangrenas, tornamo-nos  cúmplices de outros assassinatos, daqueles que deixamos à mercê do que vai acontecer. As ciências não nos amparam e não nos fizeram aprender com a história, antiga ou recente. Usamos um esquecimento que teima em se trasmutar em novas tragédias, num ritmo cada vez mais acelerado tal como é a vida contemporânea.
Nosso oráculo é o consumo, máquina predadora do que resta de intocado na natureza e colhemos os frutos de nossa teimosia e infantilidade que não olham o passado como ensinamento, nem querem ver um futuro constantemente anunciado. Refugiamo-nos sob a asa da indiferença e da insensatez.
Quantos laocoontes ainda precisarão ressuscitar antes que consigamos escutar-lhes o aviso de nossa próxima destruição?