segunda-feira, 3 de novembro de 2025

As palavras têm peso

 

As palavras têm peso, cor e tamanho. Algumas caem mais fundo em nós

            “A dor da mãe do policial é a mesma dor que a minha”. Estas foram as palavras de uma mulher jovem negra diante das câmeras no complexo da Penha. Ela disse mais, não apoiava o que seu filho de vinte anos fazia, mas ela era mãe e não podia dar-lhe as costas, mas que o Estado tinha que ver o modo em que eles viviam, ela trabalhava duro para sustentar o filho morto e mais uma menina, ela era solteira, e o que mais via era falta de oportunidades para trabalhar e viver melhor, era isto que precisava ter, oportunidades. Não adiantava sair matando como fizeram.

            Eu ouvi as palavras desta mulher e me emocionei pela sua dor, mas também pela dignidade com que as pronunciava. O que ela expressou em primeiro lugar foi sua empatia por outra mãe do lado oposto ao seu na escala social. Não reivindicava pena pela sua situação, nem ódio, mas indignação sobre as causas da situação em que ela se encontrava. Na dor da perda, ela conseguia extrair o que deveria ser pensado para o dia seguinte, para a vida que continuava ali, no mesmo lugar da irrupção policial que havia se retirado. Ela e a população do lugar não teriam para onde ir, não podiam sair dali como havia feito a polícia. Ela apontou para o dever do Estado de se tornar presente para que as ações policiais daquela natureza sejam repensadas.

            Como mãe pude rever os meus esforços para criar meus filhos da melhor forma que eu podia. E não pude deixar de fazer comparações. A distância enorme entre o lugar em que eu nasci e o dela, ponto de partida para nossas caminhadas. Ponto de partida para nossas escolhas, se é que podemos falar em escolhas. Desde a própria presença desde o nascimento, com direito a licença maternidade, o acompanhamento do pediatra, a orientação para alimentação, os amigos, a escola (os livros para gostar de ler), aula extra para o inglês, o clube para fazer um esporte, tudo com enormes dificuldades, mas foi possível. O que não teve aquela mãe? E tantas outras na mesma situação? Eu sei através da literatura, de reportagens da imprensa que se interessa em dar voz a quem é invisível socialmente, ao depoimento de mães em meus contatos com movimentos sociais. Há um fosso muito grande em “ouvir” e “viver” uma realidade, embora a dor seja a mesma como disse aquela mãe. Há, no entanto, diferença também em como cada mãe pode receber amparo na sua dor.

            A empatia que todas as mulheres merecem, ao perder um filho daquela maneira, necessita continuar. Uma forma é cobrar a presença do Estado nas periferias das cidades, não só daquelas em evidência agora, através de participação popular em qualquer lugar do país. A primeira, no entanto, é não esquecer.