As palavras têm peso, cor e tamanho.
Algumas caem mais fundo em nós
“A
dor da mãe do policial é a mesma dor que a minha”. Estas foram as palavras de
uma mulher jovem negra diante das câmeras no complexo da Penha. Ela disse mais,
não apoiava o que seu filho de vinte anos fazia, mas ela era mãe e não podia
dar-lhe as costas, mas que o Estado tinha que ver o modo em que eles viviam,
ela trabalhava duro para sustentar o filho morto e mais uma menina, ela era
solteira, e o que mais via era falta de oportunidades para trabalhar e viver
melhor, era isto que precisava ter, oportunidades. Não adiantava sair matando
como fizeram.
Eu
ouvi as palavras desta mulher e me emocionei pela sua dor, mas também pela
dignidade com que as pronunciava. O que ela expressou em primeiro lugar foi sua
empatia por outra mãe do lado oposto ao seu na escala social. Não reivindicava
pena pela sua situação, nem ódio, mas indignação sobre as causas da situação em
que ela se encontrava. Na dor da perda, ela conseguia extrair o que deveria ser
pensado para o dia seguinte, para a vida que continuava ali, no mesmo lugar da
irrupção policial que havia se retirado. Ela e a população do lugar não teriam
para onde ir, não podiam sair dali como havia feito a polícia. Ela apontou para
o dever do Estado de se tornar presente para que as ações policiais daquela
natureza sejam repensadas.
Como
mãe pude rever os meus esforços para criar meus filhos da melhor forma que eu
podia. E não pude deixar de fazer comparações. A distância enorme entre o lugar
em que eu nasci e o dela, ponto de partida para nossas caminhadas. Ponto de
partida para nossas escolhas, se é que podemos falar em escolhas. Desde a
própria presença desde o nascimento, com direito a licença maternidade, o
acompanhamento do pediatra, a orientação para alimentação, os amigos, a escola
(os livros para gostar de ler), aula extra para o inglês, o clube para fazer um
esporte, tudo com enormes dificuldades, mas foi possível. O que não teve aquela
mãe? E tantas outras na mesma situação? Eu sei através da literatura, de
reportagens da imprensa que se interessa em dar voz a quem é invisível
socialmente, ao depoimento de mães em meus contatos com movimentos sociais. Há
um fosso muito grande em “ouvir” e “viver” uma realidade, embora a dor seja a
mesma como disse aquela mãe. Há, no entanto, diferença também em como cada mãe
pode receber amparo na sua dor.
A
empatia que todas as mulheres merecem, ao perder um filho daquela maneira, necessita
continuar. Uma forma é cobrar a presença do Estado nas periferias das cidades,
não só daquelas em evidência agora, através de participação popular em qualquer
lugar do país. A primeira, no entanto, é não esquecer.