sábado, 6 de setembro de 2025

Prêmio em dinheiro


Olho a foto que mostra o governador no palco com microfone na mão, diante de mil e cem gestores no Teatro da Feevale em Novo Hamburgo. Só depois, leio a notícia de que o Governo do Estado lança um Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha. Vou ao texto, leio e releio. Confiro que está se tratando mesmo do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Deveria estar no mínimo curiosa e entusiasmada, tenho a escola estadual no meu coração. O Governo do Estado está preocupado com a Educação. Não consigo, acompanho a lenta e degradante depauperização do sistema estadual de educação há muitos anos, especialmente na última década, especialmente no governo dele. Eu fui professora na escola pública, aposentei-me como professora estadual.

            Ano de 1965, eu chamaria o ano da virada na minha vida. Fiz concurso para o Magistério Estadual, para lecionar Geografia no 1º e 2º Graus.

            Lembro dos primeiros meses em que comecei a lecionar como professora de Geografia e me perguntavam o que eu fazia, eu adorava que me perguntassem, e eu respondia com orgulho “sou professora do Estado”. Revendo aquele tempo, vejo que não era um status privilegiado, com salário extraordinário (embora bem melhor do que eu recebia no emprego anterior), mas minha resposta estava ancorada no sentimento de respeito e valorização que eu recebia pelo cargo exercido.

            Hoje, as notícias veiculadas pelo sindicato de professores e outras fontes dão conta da precariedade estrutural de numerosas escolas, tanto físicas como de salários e ausência de incentivos ao aprimoramento profissional. Este governo conseguiu extinguir um plano de carreira que protegia minimamente os professores de políticas arbitrárias. Por outro lado, as notícias veiculadas nos sites governamentais são de realização de centenas de obras e com um atendimento fantástico à rede. Há uma guerra de informações que não mascara a grande percentagem de professores que adoecem, outros que abandonam a profissão, e mesmo o movimento de diminuição de alunos da rede estadual e o acréscimo na rede particular.

            Se não bastasse, os problemas estão também nos ataques à questão curricular e as tentativas do governo de colocar sob a orientação de grupos empresariais a condução do trabalho pedagógico. É a privatização da educação subsidiada por dinheiro público. Uma trama de consequências nefastas para a formação dos alunos.

            Vejo tudo isto e lembro quantas lutas fez a minha geração por uma escola pública e de qualidade. Esta expressão me soa tão atávica, de um passado tão remoto que soa inverossímil.

            Por Outro lado, o governo se arvora de sucesso com o tratamento dado à educação, utilizando os dados do ENEM, onde o Rio Grande do Sul teria se saído bem. Segundo a deputada estadual Sofia Cavedon, o Estado sempre foi bem no ENEM, e os resultados de agora se sustentam a partir de escolas de municípios pequenos onde as condições de vida e de cuidados da escola são melhores. O ENEM não avalia a aprendizagem do Ensino Médio. O indicador oficial para isso é o IDEB. Em 2023, o Estado perdeu posições e ficou em 10° lugar no ranking nacional. E o RS tem um dos maiores índices de jovens fora da escola no Brasil. 44% dos jovens de 15 a 29 anos trabalham sem estudar.

            Por último, a grande alternativa oferecida pelo governo para melhorar a qualidade do ensino é um prêmio em dinheiro para os professores e escolas que forem mais eficientes. Um incentivo à disputa e à meritocracia num quadro como o descrito acima. O que podemos esperar disto tudo???