A notícia de hoje (11.08.2025), sob o título Está Encerrada a Cobertura, é a morte dos cinco jornalistas da Al Jazeera que ainda estavam em Gaza. A tenda para os jornalistas foi
bombardeada por Israel.
Quantas vezes
escrevi “sem palavras” sob cada imagem terrível dos corpos e edifícios
destroçados em Gaza veiculada nas redes sociais? Minha impossibilidade fez eco ao
texto de Agualusa onde está sua afirmação de que nossa língua não tem palavras
para nomear os horrores que testemunhamos em tempo real em várias partes do
mundo, mas especialmente em Gaza. As palavras que conhecemos não mais dão conta
dos sentimentos que aqueles horrores nos provocam. Igualmente para descrever o
que vemos já não há palavras.
Há muito tempo já
não consigo nomear o que sinto quando vou verificar as notícias. Alguma coisa
trancada no peito quer sair, mas fica lá dificultando a respiração, ou
fazendo o coração acelerar. Pergunto-me se são o pudor e o medo que não a
deixam sair, aqui também faltam as palavras para nomear o que não vejo, apenas
sinto o que nunca senti.
Precede-me uma
teimosa e incontrolável esperança de que a manhã seguinte traga a notícia do
término do genocídio. E toda manhã esmoreço. Não neste dia. Ainda não. Ainda
estão lá mais destroços, mais rostos desesperados, mais crianças que choram, mais gente amontoada com panelas estendidas, mais corpos espalhados ou amontoados. Ainda está lá a
máquina destruidora de um país que se tornou o exportador de inferno para uma
população indefesa que está sendo estraçalhada ou morta de fome aos poucos. Tudo
isso passa por meus olhos em instantes toda manhã. E só consigo deixar de
olhar, quando meu mal estar está tão forte que me obriga a saltar umas horas
sem acessar as notícias daquele pedaço de mundo.
Eu, testemunha
disto tudo e continuo a comprar na feira semanal de orgânicos, a limpar a casa
a cada semana, a regar minhas plantas, a ir um show musical, a ver minhas
séries na tv, a tomar um café com minhas amigas, a fazer exercícios de
musculação três vezes por semana. Sei que não pode ser diferente, mas isto não
me consola. A recomendação que recebemos antes de iniciar um voo é de que, em
caso de despressurização, cai uma máscara e devo colocá-la em mim antes de
ajudar quem precisa. Este pensamento vem em minha ajuda para lidar com o sofrimento
que presencio como se estivesse ao alcance de minha mão ajudar alguém. E vivo
meus dias, esqueço. Não consigo alcançar a máscara a quem precisa.
Fico me
perguntando se sinto raiva e não sei responder. É algo diferente que não sei
nomear. Sinto raiva daqueles rostos que pronunciam atrocidades, daqueles rostos
que sei terem mandado matar, daquelas bocas que mentem, daqueles olhos de gente
corrupta? Sinto raiva de toda esta maldade? Não sei responder. Talvez, porque
sei que o que vejo é apenas a ponta do mal que está disseminado não só neste
grupo que nestes últimos meses tem disseminado o horror do inferno. Sei que a
origem está difusa pelo mundo que alimenta o que está acontecendo por lá. Uma máquina
cujos tentáculos são os do sistema financeiro, da produção de armas, de
agrotóxicos, de pedófilos, de ilusões disseminadas pelas redes sociais e
conquistam as mentes dos próprios escravizados.
Quando vejo o que
está acontecendo em Gaza, vejo o restante do mundo responsável pelo que está
acontecendo lá. E continua a acontecer, apesar das multidões que estão saindo
às ruas pra protestar. Milhões de pessoas desejam e gritam para que este
genocídio termine, que a Palestina seja livre e reconstruída. No entanto, as
instituições que poderiam fazê-lo estão contaminadas e são surdas a esses
gritos.
Então, para onde
dirigir minha raiva? Ou, ódio?
No século passado
tínhamos inimigos visíveis, nazismo e fascismo.
Lembro
da segunda guerra mundial do século passado, volto a ela constantemente, mas
nada se compara àquilo que testemunho hoje. Embora a maior parte dos que estão
ainda vivos da minha geração não imaginassem testemunhar o genocídio em Gaza,
existiram vozes que anunciaram um futuro de permanente conflito na região. No
entanto, aquelas vozes não anteciparam os mesmos horrores sobre os palestinos, pelos próprios judeus.