Isto é uma recorrência. Já pensei em usar
escrita à mão para prender aquelas que chamo de faíscas do cérebro, ideias
emersas por causa de uma imagem, um cheiro ou um toque de mãos. Colher o
instante. Não é a mesma coisa que recuperá-las algum tempo depois, ou no dia
posterior. Muitas se perdem. Espalhar
cadernos pela sala, cozinha, quarto, seria um artifício para retê-las, como
faço com copos de água para me lembrar de tomá-la, porque quase nunca sinto
sede. No caso das faíscas, é ter sede, mas não ter o copo de água ao alcance. A
escrita não rende quando me disponho a começá-la sem ter sido movida por algum
sentimento urgente que necessita mostrar-se, sair de dentro de mim, expor-se
para continuar a existir. É não ter sede naquele momento.
Por outro lado, gosto
da imagem de contrações que fazem surgir estas faíscas, pensamentos emersos no
meio das mais diversas tarefas cotidianas, lavar pratos, fechar uma porta que
range, ouvir um carro que passa pela rua, cometer lapsos nas falas, elas cortam
os afazeres na corrida do dia a dia. Contrações geram nascimentos. Imagino
nascimentos perdidos por não haver o seu registro. Vale agarrar o que
contrações e faíscas produzem constantemente, sinal de potência, de que algo
está nelas querendo se manifestar.
Lembrar a
recorrência de ignorar muitos dos pensamentos ou sensações que surgem de
repente, e que poderiam frutificar em escritos, me leva à fala de Pepe Mujica
ao expressar seu conceito de liberdade “sou livre quando faço as coisas que
gosto de fazer”. O que tem a ver liberdade com a escrita? Só posso exercer a
liberdade quando posso prestar atenção às minhas necessidades e não àquelas
criadas pelo modo de viver em busca interminável do último modelo de qualquer
objeto que possuo, fonte de insatisfação contínua porque sempre haverá um novo
modelo. Sou livre quando largo qualquer necessidade que o mundo me impõe e escrevo.
Quando consigo
começar a escrever, seja lá o que for, entro num mundo que me afasta de
atribulações, mesmo que as palavras falem sobre elas, porque as encaro e as uso
como quero, queixo-me, xingo, amo, odeio, desabafo sem censura, estou no
comando. É isto, escrever é estar no comando, pode ser um tema prazeroso ou
angustiante, mas sempre será algo sobre o qual decido, ao menos o começo do
caminho. Num segundo momento a própria escrita me leva a seguir, a me aventurar
em caminhos desconhecidos que não sei onde vão me levar. Este é um poder que
fortalece e empurra para seguir. Não é um plano, é cheio de obstáculos, mas grávido
de promessas de superação. Algumas promessas podem não se concretizar, mas vale
seguir e criar. Este é o sentido que dou às palavras de Pepe Mujica sobre fazer
o que se gosta. Gosto não é uma questão de leveza e de satisfação superficial,
mas conexão com a capacidade de fazer algo que dá sentido ao que se faz e ao
estar no mundo.
Escrever é uma
forma de estar enraizado no mundo, produzindo diferentes mundos.