segunda-feira, 15 de julho de 2024

Por onde recomeçar?


Estou recebendo jatos de informações sobre o atual momento no nosso Estado, dominada por um sentimento duplo de atração e repulsa, vence a atração, como numa relação tóxica. E minha mente pulula sobre o que ouço, e não consigo me concentrar para escrever. Não encontro um foco, como foi o caso da enchente. Escrevi crônicas sobre o horror que nos assaltou, em tudo podia encontrar motivo para esperar uma mudança de rumo, para uma aprendizagem com o que estava acontecendo. Parece que isso esgotou minha vontade de palavras, porque esta realidade continua a preocupar, ela está longe de estar resolvida, sequer bem encaminhada. Pelas notícias veiculadas, o governo municipal e o estadual mostram a mesma direção, não mudaram sua visão, nem suas decisões, ou seja, não incorporaram qualquer aprendizagem. Todo cidadão consciente teme pelo futuro de nossa cidade e de nosso Estado. Desanimo. Talvez seja este sentimento que barre minha vontade de escrever. A indignação me faz agir. O desamino me encolhe, os pensamentos não se organizam e ocupo o lugar de espera. Lembro da espera de Godot, uma espera interminável. Triste, muito triste. Prefiro-me indignada, mas a indignação não canalizada para realizar alguma coisa já me fez adoecer. Desculpo-me, mas não acredito em minhas desculpas. Coloco-me dúvidas sobre a validade de escrever sobre um tema ou outro, sobre o que interessaria para o leitor o que vai na minha cabeça. Salta-me a lembrança de um trecho do livro de Amós Oz onde escreve sobre a diferença entre origem e começo que Edward A. Said distingue. Para este, origem é da ordem do divino, enquanto começo está ligado ao retroceder para começar de novo, é conexão entre o familiar e algo novo. Justamente aí está o ponto, o familiar que está no poder não aponta para um recomeço? Não vejo o poder público olhar para o que foi feito até aqui, o que nos é familiar, para recomeçar e corrigir para um novo futuro. A situação que continuamos a viver em nossa cidade e no Estado é termos certas zonas, como sempre as mais desfavorecidas, ainda sem seus problemas sequer terem sido encaminhados. Desabrigados são expulsos de ocupações. Para dar o salto para o novo precisa retroceder, como diz Said, e é justamente isso que muitos denunciam não acontecer por parte de quem nos governa. O familiar para esses, não são as causas apontadas pela ciência e pelos ambientalistas, mas seus interesses, o que impede de criar um novo caminho, um recomeço. Os orçamentos continuam os mesmos, as leis contra a preservação da natureza permanecem, as propostas que contemplam mudanças de rumos são recusadas. Oferecem paliativos, remendos.

Ao olhar o que está acontecendo em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, não consigo escrever sobre algo novo, sobre um recomeço, só posso desejar e apostar na força de quem batalha nos legislativos – embora minorias – e na sociedade civil, de quem denuncia e não se rende. Ali podem estar as sementes de algo que ainda não se vislumbra. Por isso, é urgente que as próximas eleições sejam levados nos representar os que defendem uma agenda de novos rumos de governança.